Peça do Mês IX

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PEÇA DO MÊS IX – ARCA

Colecção: Museu Nacional de Arte Antiga (n.º de inv.º 387 Mov)

Datação: 1490-1500

Proveniência: Convento do Salvador (Braga)

Local de Manufactura: Portugal (?)

Dimensões: 68 cm de comprimento × 148,5 cm de largura x 79,5 cm de altura

Peso: Desconhecido

Materiais: Madeira de carvalho, ferragens em ferro

Descrição: Grande arca em carvalho trabalhado, com uma fronte com quatro painéis decorados com padrão de linho pregueado. Este padrão repete-se em dois painéis deste estilo em cada lateral. A traseira da arca é lisa, assim como os montantes e a tampa. Perdeu-se infelizmente o escudete metálico da fechadura embutida.

Vista frontal da arca.

As arcas são as peças de mobiliário medieval mais ubíquas, versáteis e úteis, sem excepção. As casas abastadas possuíam dezenas de arcas diferentes, para vários tipo de uso; os mais desfavorecidos possuíriam quase certamente uma, se possuíssem mobília que fosse.

Na Idade Média, os baús serviam simultaneamente como armazenagem, como bagagem, e até mesmo como mesas, bancos, camas e apoios para os pés. Em alguns lares, não era invulgar para algumas arcas baixas mas longas – aparentemente chamadas almafreixes ou almofreixes em Português [1] – servirem de leito de dormir à noite, e local de armazenamento de roupas de cama, cobertores e vestuário durante o dia [2].

A forma como uma arca era concebida dizia muito sobre a sua finalidade. As arcas feitas para viajar encontravam-se normalmente desprovidas de pés (sapatas), tinham pouca decoração ou ferragens, e podiam ser cobertas de couro e apresentar tampas abobadadas para afastar a chuva dos interiores. Baús e arcas com sapatas, como esta, encontravam-se maioritariamente orientados para armazenamento, uma vez que mantinham os seus conteúdos afastado do chão sujo e de qualquer tipo de vermes. As suas tampas planas também os tornavam úteis para sentar ou outros fins, e as suas superfícies largas prestavam-se em muito à decoração e embelezamento. Este espécime em particular é bastante sóbrio, decorado com simples painéis talhados em ‘linho pregueado’, um padrão extremamente popular em mobiliário durante o último quarto do século XV e boa parte do século XVI.

Vista lateral da arca, mostrando os painéis laterais.

O tamanho e proveniência desta arca – um antigo mosteiro feminino – sugere que teria sido usada para guardar lençóis e toalhas, e provavelmente também algumas alfaias (objectos) litúrgicos. Era comum colocar ervas e flores no interior das arcas (como aliás o é ainda hoje), para manter roupas e tecidos com um cheiro agradável durante mais tempo.

Quanto aos materiais de construção, o carvalho era o eterno favorito em toda a Europa, incluindo Portugal, devido à sua extrema durabilidade. Outras madeiras, como a madeira de nogueira, eram também frequentemente utilizadas para a fabricação de arcas, tal como madeira de pinho – em meados do século XV, o Arsenal Real de Lisboa tinha várias arcas de pinho para armazenar armas [3]. Não é particularmente surpreendente, considerando as grandes quantidades de pinho cortado do Pinhal de Leiria e dos bosques mais pequenos ao longo da costa atlântica.

[1] Santa Rosa de Viterbo, J. (1798). Elucidario das palavras, termos e phrazes, que em Portugal antigamente se usaram, e que hoje regularmente se ignoram, vol. 1. Lisboa: Na Officina de Simão Thaddeo Ferreira, p. 99.

[2] Oliveira Marques, A. (2010). A Sociedade Medieval Portuguesa – Aspectos do Quotidiano. Lisboa: Esfera dos Livros, p. 102.

[3] Monteiro, J. G. (2001). Armeiros e Armazéns nos Finais da Idade Média. Viseu: Palimage Editores, p. 69.

BIBLIOGRAFIA

Eames, P. (1977). Furniture in England, France and the Netherlands from the Twelfth to the Fifteenth Century. Furniture History, 13. London: The Furniture History Society

Monteiro, J. G. (2001). Armeiros e Armazéns nos Finais da Idade Média. Viseu: Palimage Editores

Oliveira Marques, A. (2010). A Sociedade Medieval Portuguesa – Aspectos do Quotidiano. Lisboa: Esfera dos Livros

Santa Rosa de Viterbo, J. (1798). Elucidario das palavras, termos e phrazes, que em Portugal antigamente se usaram, e que hoje regularmente se ignoram, vol. 1. Lisboa: Na Officina de Simão Thaddeo Ferreira

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