Uma Questão de Arrumação: Uma Arca Quatrocentista – Parte I

Due to this article’s length, I thought it wise to publish the English and Portuguese versions separately. For the English version, please click here.

Acumular um bom conjunto de recriação ocupa o seu espaço. Roupas, acessórios, armas, pertences vários; tudo requer um lugar de armazenamento, e nenhum armário ou caixa de arrumação é infinito. Assim, decidi juntar o útil ao agradável e embrenhar-me num projecto de criação a médio prazo, de uma pequena arca para guardar os meus pertences históricos.

Seleccionar um Modelo

Grande arca doméstica num quarto. Pormenor do Livro de Horas de Milão-Turim, fol. 93v.

Tal como tive a oportunidade de explicar quando apresentei recentemente uma grande arca da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga (aqui), a arca era o cavalo de batalha do lar medieval: “Servia para tudo, até de leito (…) Na arca se guardavam a roupa da casa, as peças de indumentária, os livros, a loiça, os objectos de adorno, etc.” [1]. Estes usos variados traduziam-se em diferentes tipos e tamanhos de arca, para além de diferentes métodos de construção. Portanto, querer construir uma arca de arrumação passa por começar por seleccionar um modelo adequado para seguir. Para alguém como eu, que percebe quase tanto de carpintaria quanto de lagares de azeite, os critérios de selecção de um modelo a seguir teriam de ser estes:

a) a arca ou arcas de modelo teriam de ser quatrocentista, firmemente entre 1450 e 1490, e de preferência arcas ibéricas ou, se possível, inglesas, francesas, ou flamengas (tudo territórios com os quais tínhamos contacto regular e havia uma partilha mais ou menos próxima de estilos culturais);

b) por uma questão de falta de competências minha, a arca teria de ser simples, sem superfícies ornadas ou demasiadas ferragens. Teria, para além do mais, de obedecer à tipologia de arca de seis tábuas (duas laterais, uma frontal, uma traseira, um fundo, e uma tampa), um dos modelos mais disseminados na época e provavelmente o de mais fácil construção;

c) não poderia ser uma arca muito grande, não só por questões de espaço mas também por questões de custo e de dificuldade – quanto maiores as tábuas e arestas a trabalhar, mais difícil se torna o trabalho (e maior a margem para a asneira).

Depois de muito procurar por arcas quatrocentistas provenientes destes territórios – uma tarefa bem mais árdua do que se possa pensar; sobraram muito poucas para amostra -, acabei por encontrar o seguinte espécime inglês (aqui) que satisfez todos os meus requisitos:

Arca inglesa, 1450-1500. © Marhamchurch Antiques, todos os direitos reservados ao(s) autor(es) da fotografia.

Como se pode ver, é uma simpática arca de seis tábuas, “most probably used as a domestic stool and chest due to its small size” [2], feita de seis tábuas de carvalho trabalhadas com enxó, pregadas umas às outras, com dobradiças no interior da tampa e uma tranqueta.

Materiais e Dimensões

O carvalho, a madeira por excelência do mobiliário medieval de qualidade, é uma madeira cara e difícil de trabalhar, mas está longe de ser a única madeira usada na época, tal como já tive oportunidade de explicar. A madeira que acabei por escolher, o pinho, serve vários propósitos ao mesmo tempo: é uma madeira autóctone e historicamente correcta, barata, extremamente fácil de arranjar e de trabalhar. Tudo vantagens, exceptuando a durabilidade – por algum motivo não sobrou qualquer peça medieval de pinho em Portugal.

As dimensões deste modelo – 90,17 cm de largura, 46,99 cm de altura e 30,48 cm de profundidade – têm por base o sistema inglês de polegadas. Em Portugal, o sistema de medidas em uso quotidiano tinha por base três medidas-padrão, bastante uniformes em todo o país [3]: a vara (1,1 m), o côvado (0,66 m, ou 66 cm), e o palmo ( 0,22 m ou 22 cm) [4]. Portanto, por uma questão de coerência com os objectivos dos meus projectos (e estaria a mentir se o sistema português não fosse mais fácil de medir), foi necessário ajustar os valores da arca original à realidade portuguesa.

Assim, na primeira versão desta conversão, os 90,17 cm de largo passaram a 88 cm, ou seja, 4 palmos; os 46,99 cm de altura passaram a 44 cm, ou seja, dois palmos; e a profundidade de 30,48 cm foi ajustada para 33 cm certos, correspondente a palmo e meio ou a Meio Côvado [5]. Medidas historicamente correctas e acessíveis, certo? Infelizmente, como se costuma dizer, nenhum plano sobrevive ao confronto com a realidade…

[1] Oliveira Marques, A. (2010). A Sociedade Medieval Portuguesa – Aspectos do Quotidiano. Lisboa: Esfera dos Livros, p. 107.

[2] Descrição do vendedor em http://www.marhamchurchantiques.com/antique/late-medieval-boarded-chest/ .

[3] Apesar de serem uniformes, não quer dizer que não houvesse muita trafulhice de uso e muitas pequenas diferenças locais. Veja-se Barroca, M. (1992). “Medidas-padrão medievais portuguesas”. In Revista da Faculdade de Letras, 2ª série, 9. Porto: Faculda de Letras da Universidade do Porto, pp. 56-61.

[4] Estas medidas são as chamadas medidas “de craveira” (uma craveira era um instrumento de medição entre dois pontos, vagamente semelhante a um compasso). Havia outro sistema de medidas, com os mesmos nomes, mas “de medir pano”, ou “comercial”, em que as medidas eram pequenas. Para uma visão sumariada deste assunto veja-se Viana, M. (1999). “Algumas medidas lineares medievais portuguesas: o astil e as varas”. In Arquipélago. História, 2ª série, 3. Ponta Delgada: Universidade dos Açores, pp. 487-493.

[5] Barroca, M. (1992), op. cit., p. 55.

BIBLIOGRAFIA

Barroca, M. (1992). “Medidas-padrão medievais portuguesas”. In Revista da Faculdade de Letras, 2ª série, 9. Porto: Faculda de Letras da Universidade do Porto, pp. 53-85

Oliveira Marques, A. (2010). A Sociedade Medieval Portuguesa – Aspectos do Quotidiano. Lisboa: Esfera dos Livros

Viana, M. (1999). “Algumas medidas lineares medievais portuguesas: o astil e as varas”. In Arquipélago. História, 2ª série, 3. Ponta Delgada: Universidade dos Açores, pp. 487-493

FONTES VISUAIS

Livro de Horas de Turim-Milão (ca. 1420?). Turim: Museo Civico dArte Antica, n.º inv. 47.

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