Armamento Quatrocentista Português IV – O Dardo

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Poucas armas são tão características do Portugal do século XV como o dardo – uma arma aparentemente arcaica mas indubitavelmente eficaz, que foi vista repetidamente em acção contra os inimigos do reino. Este breve artigo destina-se a apresentar uma breve visão geral sobre uma arma que permanece largamente desconhecida, mesmo para nós próprios.

Velha de Séculos

Já os nossos ancestrais antepassados utilizavam paus com o propósito expresso de serem arremessados durante o Paleolítico [1]. Juntamente com lanças, machados, bastões e rochas, os dardos são, portanto, uma das armas humanas mais antigas, uma das armas que teve uso continuado ao longo da História. Na Europa da Antiguidade, todos os povos – dos peltastas gregos aos legionários romanos, passando pelos cavaleiros gálicos e ibéricos e numidianos – fizeram dos dardos uma parte indispensável da guerra no período.

Embora a sua presença no campo de batalha tenha diminuído na Alta Idade Média, o dardo foi ainda retido, de uma forma ou de outra, por várias culturas. Os povos germânicos (francos, godos, anglo-saxões), por exemplo, derivaram o seu próprio tipo particular de dardo, o angon, do pilum romano, ambos com hastes longas e delgadas [2]. No Al-Andalus, o dardo era indispensável às tácticas de cavalaria ligeira introduzidas pelos berberes na Península [3]. O dardo estava ainda em uso em França nos finais do século XIII, nas mãos de tropas ligeiras conhecidas como bidauts [4].

Gaiteiro e guerreiro irlandeses, este último armado com espada e dardo, detalhe do Códice de Trajes, fólio 69r (ca. 1547).

No entanto, com o passar do tempo, e à medida que os armamentos defensivos se iam melhorando, o dardo desapareceu lentamente dos campos de batalha europeus. No início do século XV, os dardos parecem ter-se tornado uma relíquia na maior parte da Europa: embora retidos na guerra naval, noutros locais só eram utilizados em campo por povos nos “limites do mundo conhecido” – na Irlanda, no Norte de África, e especialmente na Península Ibérica.

Dardos, Azcumas, Azagaias? Problemas de Nomenclatura e Construção de Lanças de Arremesso

Em Portugal, como de facto nos outros reinos ibéricos, o dardo levou uma vida longa e saudável até ao fim da Idade Média. O dardo era o primo de arremesso de de uma família de armas de haste que incluía a azcuma ou ascuma (uma lança leve; possivelmente uma derivação do askon basco ou azkuna, que significa “dardo” [5]) e a azagaia muçulmano (também uma lança leve; uma derivação da az-zagaia árabe [6]). Embora azcumas e azagaias apareçam como armas de arremesso em fontes do século XV [7], é-nos impossível saber ao certo se eram consideradas como armas de arremesso, simples armas de haste, ou ambas. As lanças leves são por vezes descritas como tendo sido arremessadas [8], mas o dardo, com a sua haste mais leve e cabeça mais pequena, foi propositadamente construído tendo em mente o seu lançamento.

Cabeça de dardo (meados do século XIII) (https://www.faganarms.com/products/elegant-crusader-s-javelin-head-mid-13th-century)
Detalhe do Tacuinum Sanitatis, fólio 100v (ca. 1390-1400).

No seu essencial, os dardos da Idade Média eram essencialmente versões reduzidas de lanças: consistiam numa haste ou cabo leve (provavelmente de madeira de freixo) ao qual se rebitava uma cabeça de aço ou de ferro. Embora eficaz, este modelo básico era frequentemente complementado por adições para melhorar o seu alcance, a sua capacidade de voo, e o seu potencial de penetração. Há algumas indicações de que as hastes dos dardos podiam afunilar ligeiramente na cauda, o que significaria mais massa mais próxima da cabeça e, portanto, um centro de gravidade deslocado, para ajudar a assegurar um melhor grau de penetração aquando do impacto. Os dardos eram frequentemente construídos com cabeças largas em forma de flecha, concebidas para cortar e se enterrarem nas protecções e no corpo do adversário. Além disso, tal como as flechas, também podiam ter penas.As penas podiam ser feitas de vários materiais, incluindo madeira ou pergaminho, mas de acordo com fontes visuais eram mais frequentemente feitas de penas de aves. É possível que a principal diferença entre o dardo e azcumas, azagaias e lanças de arremesso fossem estas adições, uma vez que azagaias e azcumas nunca apresentam (tanto quanto as fontes no-lo dizem) penas ou pontas de flecha. Há poucos ou nenhuns indídios a sugerir que os dardos em Portugal (ou noutros lugares da Europa medieval, com excepção da Irlanda) tenham sido utilizados com qualquer tipo de auxiliar de propulsão, como um amentum (uma funda ou correia de couro ajustada à haste) ou lança-dardos (um pau com gancho utilizado na ponta do dardo para o impulsionar para a frente).

É difícil determinar o comprimento exacto dos dardos medievais, uma vez que nenhum deles nos chegou intacto. A partir de um levantamento das representações artísticas, parece que os dardos variavam de comprimento entre ligeiramente mais curtos a ligeiramente mais altos do que a altura total de um indivíduo.

Várias pontas de dardo com as suas penas, sobre as cabeças dos soldados que desembarcaram em Arzila em 1471. Detalhe do Desembarque em Arzila  (ca. 1475).

Dardos em Portugal

Os dardos foram um requisito para o escalão mais baixo dos acontiados portugueses (ver aqui) desde o século XIV. O rei D. Fernando exigia os seus acontiados de “viinte anos acima aviam de teer funda e lança e dous dardos” [9]. Cerca de sessenta anos mais tarde, D. Duarte (enquanto príncipe) escreveu um regimento de guerra, ainda em uso durante o reinado do seu filho, D. Afonso V, no qual os acontiados cuja riqueza era avaliada sob dezasseis marcas de prata “seram constrangidos, que tenham lança, e dardo” [10]. Esta longa tradição de prescrever dardo aos acontiados mais rasos explica as palavras de João de Gante, segundo Froissart, a um capitão português: na opinião do Duque de Lencastre, uma das artes ibéricas que mais amava era a “celle de jeter la darde” [11] – e explica porque é que eles podem ainda ser vistos décadas mais tarde, nas tapeçarias Pastrana.

No entanto, não é a tradição que justifica o uso de uma arma no campo de batalha, e está ainda por apurar a eficácia do dardo na guerra. Os dardos foram utilizados na Península Ibérica ao longo dos séculos XIV e XV, muito depois de as armaduras de placa de aço – que à partida nega a sua eficácia – terem sido introduzidas e se terem generalizado entre nós. Mais do que a sua letalidade, talvez os dardos fossem utilizados com intuito desorientador que só uma barragem de cabos de madeira a curta distância poderia ter – semelhante à forma como eram utilizadas flechas contra cavaleiros bem armados. Vemos este efeito em acção durante a batalha de Aljubarrota (1385), tal como descrito pelo cronista Fernão Lopes: para guardar a carriagem portuguesa dos cavaleiros franceses, homens de armas e besteiros “defemdiam-sse com setas e dardos, de guissa que os de cauallo nom lhe podiam empeçer, amtes reçebiam delles dano, moremdo alguuns do tirar das beestas e remesar das lamças”[12]. Ainda assim, os dardos parecem ter-se mostrados letais contra inimigos armadurados de forma ligeira, o que explicaria a sua longevidade na Irlanda, onde as armaduras de placa de aço rarearam durante toda a Idade Média; bem como a sua utilização contra as forças marroquinas no Norte de África.

O Dardo em Recriação

Os dardos estão particularmente ausentes da maior parte da recriação contemporânea. Tal como dito acima, no século XV já os dardos tinham desaparecido da maioria dos campos de batalha europeus, pelo que não recebem a mínima atenção da maioria dos recriadores para lá dos Pirenéus, a não ser como uma ocasional bizarraria. Além disso, não são muito práticos ou seguros em batalhas simuladas – um dardo atirado, mesmo com uma cabeça de borracha, é susceptível de causar danos. Também não são baratos ou fáceis de obter ou fabricar, especialmente as versões com penas.

Contudo, para os recriadores ibéricos – e especialmente portugueses -, recriações precisas de dardos são uma exigência prática. Deve ser dada especial atenção às proporções – nem as cabeças nem as penas devem ser tão grandes a ponto de descompensar a reconstrução. Alguns vendedores, tais como a empresa estadunidense Arms & Armor, vendem dardos pré-montados de um tipo mais básico (pequenas cabeças em forma de lança, sem penas); deve ser dada atenção à forma como as cabeças se unem à parte superior da haste. Muitos destes dardos apresentam-se com interstícios nas junções entre a haste e o encabamento devido à sua produção em massa, e aguentarão pouco uso por causa disso. Um encaixe sólido e sem falhas é um encaixe seguro.

Tal como com as lanças, cabos de vassoura são, agora e sempre, pecado capital.

[1] Veja-se por exemplo os três dardos de 400.000 anos encontrados em Schöningen, perto de Hannover: https://archive.archaeology.org/9705/newsbriefs/spears.html

[2]  Blair, C.; Tarassuk, L. (Eds.) (1982). The Complete Encyclopedia of Arms and Weapons. New York: Simon & Schuster. pp. 19–20. No entanto, segundo Guy Halsall, no século VII o angon tinha já deixado de ser utilizado na guerra (Halsall, G. (2003). Warfare and Society in the Barbarian West, 450-900. London: Routledge. p. 164).

[3] Para uma versão muito resumida e razoavelmente correcta da introdução e desenvolvimento de tácticas de cavalaria ligeira na Península, veja-se por exemplo Blumberg, A. (2013). “The Jinetes: Mounted warriors of medieval Spain”. In Medieval Warfare, vol. 3 (1). Zutphen: Karwansaray Publishers, pp. 18-21.

[4] Nicolle, D. (1999). Arms and Armour of the Crusading Era, 1050 – 1350: Western Europe and the Crusader States. London: Greenhill Books, p. 297.

[5] Riquer, M. (1969), «El armamento en el “Roman de Troie” y en la “Historia troyana”». Em Boletín de la Real Academia Española, 49 (188). Madrid: Real Academia Española p. 470. Embora Martí de Riquer reivindique uma origem ou especificidade navarrina/aragonesa para a azcuma, Álvaro Soler del Campo está correcto ao salientar que a difusão do termo não permite uma tal conclusão. Soler del Campo salienta também a forte associação da azcuma à caça e à infantaria ligeira.. Veja-se Soler del Campo, A. (1993). La Evolucion del Armamento Medieval en el Reino Castellano-Leones y al-Andalus (siglos XII-XIV). Madrid: Servicio de Publicaciones del E.M.E., pp. 39-40.

[6] Veja-se Agostinho, P. (2012). Vestidos para matar: o armamento de guerra na cronística portuguesa de quatrocentos. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, p. 176.

[7] Agostinho, P. (2012). Vestidos para matar: o armamento de guerra na cronística portuguesa de quatrocentos. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, pp. 177-179.

[8] Um exemplo particularmente notório de como as lanças eram lançadas, apanhadas e atiradas de volta entre inimigos é o episódio que se desenrolou durante os preparativos para o cerco de Benavente em 1387. Portugueses e castelhanos defrontaram-se em frente ao acampamento português, “e dos portuguesses nom foy nenhuum ferido nem morto saluo Maaborny, que saymdo fora por tomar das lamças pera remesar e colhemdo-sse demtro, foy-lhe remesada huuma lamça per Martym Gomçalluez d’Atayde, que amdava em Castella (…), e amtresolhou a lamça per huumas solhas que trazia, e ouue huuma ferida de que a poucos dias moreo” . Em Lopes, F. (1977). Crónica del Rei dom João I da boa memória. Parte Segunda. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, capítulo CVIII, p. 225.

[9] Em Lopes, F. (1975). Crónica de Dom Fernando. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, capítulo LXXXVII, p. 305.

[10] Em Freitas, D., Heitor, I., Maia, A., Marques, J. and Ventura, L. Ordenações Afonsinas [Em linha]. Coimbra: Universidade de Coimbra. Disponível em http://www.ci.uc.pt/ihti/proj/afonsinas/ [edição facsímilada de Almeida, M. e Martins, J. (1792). Ordenaçoens do Senhor Rey D. Affonso V. Ordenações Afonsinas. Coimbra: Real Imprensa da Universidade], tíulo LXXI, p. 475.

[11] “O de lançar o dardo” [tradução minha]. Em Froissart, J. (1835). Les Chroniques de Sire Jean Froissart, II. Paris: A. Desrez, Libraire-Éditeur, p. 473. Infelizmente esta edição antiga foi a única a que tive acesso em tempo útil.

[12] Em Lopes, F. (1977), op. cit., capítulo XLV, p. 15.

BIBLIOGRAFIA

Agostinho, P. (2012). Vestidos para matar: o armamento de guerra na cronística portuguesa de quatrocentos. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra

Barroca, M. J. e Monteiro, J. G. (Coords.) (2000). Pera Guerrejar – Armamento Medieval no Espaço Português. Palmela: Câmara Municipal de Palmela

Blair, C.; Tarassuk, L. (Eds.) (1982). The Complete Encyclopedia of Arms and Weapons. New York: Simon & Schuster

Blumberg, A. (2013). “The Jinetes: Mounted warriors of medieval Spain”. Em Medieval Warfare, vol. 3 (1). Zutphen: Karwansaray Publishers, pp. 18-21.

Brunn de Hoffmeyer, A. (1972). Arms & Armour in Spain: A Short Survey, Volume 1. Madrid: Editorial CSIC – CSIC Press

Freitas, D., Heitor, I., Maia, A., Marques, J. e Ventura, L. Ordenações Afonsinas [Em linha]. Coimbra: Universidade de Coimbra. Disponível em http://www.ci.uc.pt/ihti/proj/afonsinas/ 

Froissart, J. (1835). Les Chroniques de Sire Jean Froissart, II. Paris: A. Desrez, Libraire-Éditeur

Halsall, G. (2003). Warfare and Society in the Barbarian West, 450-900. London: Routledge

Lopes, F. (1977). Crónica del Rei dom João I da boa memória. Parte Segunda. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda

Lopes, F. (1975). Crónica de Dom Fernando. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda

Monteiro, J. G. (1998). A Guerra em Portugal nos finais da Idade Média. Lisboa: Editorial Notícias

Riquer, M. (1969), «El armamento en el “Roman de Troie” y en la “Historia troyana”». Em Boletín de la Real Academia Española, 49 (188). Madrid: Real Academia Española, pp. 463-494

Soler del Campo, A. (1993). La Evolucion del Armamento Medieval en el Reino Castellano-Leones y al-Andalus (siglos XII-XIV). Madrid: Servicio de Publicaciones del E.M.E.

FONTES VISUAIS

Anónimo (ca. 1530-1540). Códice de trajes. Madrid:  Biblioteca Nacional de España, Res/285

Anónimo (ca. 1475). Desembarque em Arzila [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu de Tapeçaria de Pastrana. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Disembarkation_in_Asilah_(Desembarco_en_Arcila)

Anónimo (ca. 1390-1400). Tacuinum sanitatis in medicina. Vienna: Österreichischen Nationalbibliothek, Codex Vindobonensis Series nova 2644

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