Roupa Masculina III – O Gibão “Civil”

Due to this article’s length, I thought it wise to publish the English and Portuguese versions separately. For the English version, please click here.

Após a roupa interior, era altura do homem do século XV vestir a segunda camada de roupa: as calças (para as pernas) e o gibão (para o tronco). Para quem tiver oportunidade, recomendo vivamente a leitura do artigo “15th Century Men’s Doublets: An Overview”, de Susan Reed, que contém muita da (e muito mais do que a) informação que irei aqui partilhar – exceptuando aquela que diz respeito a usos especificamente portugueses.

Origens & Evolução

A peça a que se viria chamar gibão (também chamada de porponto ou jubão [1]) surge em meados do século XIV, resultado de uma tendência europeia para criar figurinos cada vez mais justos aos contornos do corpo, em oposição às peças relativamente folgadas que se usavam até então. Em substituição da túnica ou saia, e provavelmente como derivação da cotehardie justa e bem talhada [2] do aristocrata e do homem de posses, o gibão “correspondia, “grosso modo”, à nossa camisa” [3], usando-se frequentemente coberto por peças exteriores [4].

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Esquerda: detalhe do manuscrito Queste del Saint Graal (ca. 1380-1385), mostrando uma cotehardie de mangas curtas; Centro: cotehardie curta ou gibão prototipal, pormenor do manuscrito Schachzabelbuch (ca. 1420); Direita: auto-retrato de Hans Talhofer, mestre de esgrima, com gibão simples; manuscrito Alte Armatur und Ringkunst (ca. 1459).

Apesar da sua estrutura essencial ser a mesma em toda a Europa, o gibão podia comportar diferentes variações de região para região e de uso para uso (consoante fosse de uso quotidiano, festivo, etc.) – mais ou menos longo, com colarinhos altos ou sem eles, com corpos de peça única ou com painéis de corpo e de saia, com corpos e mangas de diferentes estilos ou cores. Do formato inicial, cuja saia alcançava a coxa, o gibão foi

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Pormenor d’A Execução do Conde Inocente, de Dieric Bouts, o Velho (ca. 1460).

lentamente subindo na direcção do corpo, de tal modo que em finais do século XV a saia se tornara quase vestigial. Ao gibão se apertavam as calças, com cordões ou atilhos, e dele dependia toda a forma básica do conjunto que se usasse [5] – veja-se a imagem à esquerda, com os atilhos pendentes ainda por atar à saia do gibão. Estes atilhos eram, aliás, a forma mais comum de fechar ou de fixar a peça – não obstante a existência de gibões com botão (os farsetos italianos, por exemplo, apresentam-se muitas vezes abotoados [6]).

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Pormenor de iluminura do Miroir Historial de Vicent de Beauvais (ca. 1400-1500).

No tocante a materiais, o gibão poderia ser feito de praticamente todos os tecidos extantes da Idade Média, ajustados ao estrato social do utilizador, à função específica da peça e, como é claro, às condições climatéricas da região. Para as classes mais baixas, lãs e fustões seriam os tecidos mais usados, enquanto as classes mais abastadas poderiam fazer uso de sedas e outros tecidos ricos. Forros, nem sempre presentes, podiam ser feitos em linho (se mais simples) ou sedas (para peças mais caras).

O Gibão em Portugal

Dada a falta de fontes, é difícil conseguir precisar a existência de tendências específicas no Portugal de 1470-1480. Apontamentos como o das “meias mangas” do Cancioneiro Geral [7] dificilmente serão representativos de usos costumeiros e transversais à sociedade como um todo. Apurar como seria o gibão de 1470 em Portugal requer o sempre habitual cotejo entre fontes estrangeiras e as poucas fontes de que dispomos – no caso presente, alguns registos escritos e poucos registos visuais.

As fontes escritas legam-nos algumas boas, embora parcas, informações. Relativamente ao corte do gibão, sabemos bem, graças a um poema de Fernão da Silveira no Cancioneiro Geral, que se traga “O gybam de qualquer pano/na barriga bem folgado,/dos peytos tam agastado,/que seu dono traga ufano” – ou seja, solto no ventre, apertado no peito, de acordo com a silhueta em “peito de pombo” a que Susan Reed faz referência. As mangas são no geral justas ao braço, “mangas de luiva” como D. João I as apelida [8]. Abundam referências a tecidos ou estilos de peças singulares. Mas é nas fontes visuais que encontramos dados para complementar esta caracterização.

Os Painéis de São Vicente são uma vez mais uma fonte visual preciosa, e revelam um manancial de detalhes – embora, infelizmente, nenhum gibão em pleno. O mais saliente destes pormenores é o colarinho, caracteristicamente alto em muitas das figuras retratadas – sem dúvida influência do Ducado da Borgonha na moda portuguesa quatrocentista. Do mesmo modo, várias das figuras deixam antever “gibões abertos em ponta até à cintura e atados por meio de cordões” [9]. Menos influência terá havido no que toca às mangas, dado que se revelam todas relativamente simples, justas ao longo de todo o braço, sem os “mahoîtres” [10] que tantas vezes se observam na arte borgonhesa.

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À esquerda: homens de armas no Painel do Arcebispo. Ao centro: manga do gibão de D. Afonso V, no Painel do Infante. À direita: Infante D. Henrique, de gibão e sobreveste.

As tapeçarias de Pastrana confirmam, nas poucas figuras cujos membros ou pescoços não se encontram armadurados, algumas destas características: o colarinho alto, as mangas justas – embora seja possível, mas indeterminável, que as espaldeiras das brigandinas ocultem ombros com “mahoîtres”.

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À esquerda: Trombeteiros na tapeçaria Desembarque em Arzila. Ao centro: besteiro na tapeçaria Assalto a Arzila. À direita: Trombeteiros na tapeçaria O Cerco de Arzila.

Ao encontro deste padrão vai também o (lamentavelmente pouco conhecido) Fresco do Bom e Mau Juiz, em Monsaraz, pintado sensivelmente na mesma altura. Também aqui podemos observar os mesmos colarinhos e mangas e, na figura que segura o cajado em frente ao Bom Juiz, pode entrever-se o peito do gibão, em tudo semelhante ao do Infante D. Henrique no Painel dos Cavaleiros.

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O Bom Juiz, pormenor do Fresco do Bom e Mau Juiz (segunda metade do século XV).

Ficamos então com uma boa ideia do figurino de gibão usado em Portugal de 1470, pelo menos no tocante às classes médias e altas (embora os gibões dos estratos mais baixos não devam ter diferido em construção mas tão somente em qualidade e materiais): colarinho alto, manga justa, peito entreaberto.

Quanto a tecidos, são conhecidas algumas distinções sumptuárias consoante a classe social ou o propósito da veste. Joana Sequeira, por exemplo, forneço-nos importantes dados que indicam a predominância de buréis e fustões entre as classes mais baixas [11]. Para os mais abastados multiplicam-se as boas lãs, os veludos, os brocados e as sedas. No entanto, estes tecidos finos eram substituídos pelos buréis e outros tecidos grosseiros em caso de luto, fosse qual fosse o estatuto social do seu utilizador [12].

Uma última nota em relação a cores. Segundo Oliveira Marques, as cores mais em voga na época parecem ter sido o vermelho e o verde [13], o que não será de estranhar considerando a procura que os tecidos vermelhos tinham à época [14]. A estas duas  acrescentaria o preto e os castanhos escuros, duas cores também muito presentes (por sinal, nas classes média-baixa) quer nos Painéis, quer no Fresco. Como é claro, e à semelhança da restante Europa, isto não impede a existência de roupas noutras cores – amarelos e azuis, por exemplo, muito comuns na iconografia da época, assim como uma miríade de outros tons.

O Gibão em Recriação

Como peça essencial e estrutural de qualquer conjunto da época, o gibão tem de ser elaborado de forma exímia – “a properly constructed doublet makes all the difference in achieving the right shape for a man’s ensemble” [15]. Dos materiais à silhueta, não há maneira possível de cortar em custos nesta peça – exceptuando, claro está, coser-mo-la nós mesmos, recorrendo aos muitos guias disponíveis em-linha. Por esse motivo, nunca se deve comprar um gibão “pronto-a-vestir”, a não ser que por milagre os materiais e a construção estejam correctos e a peça nos corresponda exactamente em tamanho.

[1] Oliveira Marques, A. (2010), p. 60.

[2] “Men also wore the cotehardie, of which the masculine version was a tight-fitting tunic buttoned down center front, having also the same long sleeves with buttons”. Wilcox, R. (2008), p. 48.

[3] Oliveira Marques, A., op. cit., p. 60.

[4] “Hip length or occasionally waist-length, it was worn over the shirt and drawers, and until the end of the 15th century, usually worn under another layer of clothing such as an overtunic, houppeland, gown, or mantle” em Reed, S. (2004). Note-se apesar disto a vasta quantidade de representações gráficas de gibões sem qualquer outra peça por cima.

[5] “A close-fitting garment with a low-standing collar […] Iits most effective feature was the delineation of the torso” in Herald, J. (1981). Renaissance Dress in Italy, 1400-1500, p. 53.

[6] Oliveira Marques, A., op. cit., p. 61.

[7] É o caso de dois gibões italianos (farsetos) que chegaram aos nossos dias: os gibões funerários de Pandolfo III Malatesta (1427) e de Don Diego I Canaviglia (1481). Veja-se a respeito do primeiro um interessante artigo no sítio da Companhia de São Jorge: https://www.companie-of-st-george.ch/cms/?q=en/pandolfo-III-malatestas-funeral-doublet.  Nos Painéis de São Vicente é possível observar pelo menos dois gibões abotoados, um no Painel do Infante, envergado pela criança, e outro no Painel dos Cavaleiros, na figura que se encontra atrás e acima do Infante D. Henrique.

[8] Oliveira Marques, A., op. cit., p. 62.

[9] Oliveira Marques, A., op. cit., p. 61.

[10] “When the sleeve was raised high above the shoulder it was said to be MAHOITERED, viz. stuffed with wadding (French maheutre or mahoitre, a wadded sleeve)”, em Norris, H. (2013). Tudor Costume and Fashion. Massachussets: Courier Corporation, p. 486. O autor reporta-se aqui aos gibões de meados do século XVI, mas o princípio mantém-se desde finais do século XIV.

[11] “O burel era um dos panos mais vulgares e de consumo corrente no Portugal medieval. De qualidade e preços baixos, era acessível a toda as camadas da população, mas o seu uso associava-se sobretudo aos estratos sociais inferiores”, em Sequeira, J. (2014). O Pano da Terra: Produção têxtil em Portugal nos finais da Idade Média. Porto: U. Porto Edições, pp. 201-202.

[12] “(…) durante o luto eram utilizados trajes de burel, estamenha ou almáfega, tecidos grosseiros e pobres que contrastavam com as luxuosas sedas ou os brocados, muitas vezes de cores vibrantes. (…) O uso de tecidos grosseiros ficaria associado à penitência do corpo, e a ausência de cor nos trajes de luto ao abandono do luxo, uma vez que os pigmentos para tingir a roupa eram bastante caros. A roupa tornava-se, desta forma, sinónimo de dor, penitência e humildade”, em Lopes, A. (2017). O Luto em Portugal: da Corte à Gente Comum (séculos XV-XVI). Medievalista, 22. Disponível em https://journals.openedition.org/medievalista/1360 . DOI : 10.4000/medievalista.1360.

[13] Oliveira Marques, A., op. cit., p. 85.

[14] Veja-se a este respeito a questão da escarlata em Oliveira Marques, op. cit., p. 83.

[15] Reed, S. (2004).

BIBLIOGRAFIA

Harlaut, M. (2010). Company of Saynt George – Clothing Guide (Men)

Herald, J., e Ribeiro, A. (Ed.) (1981). Renaissance Dress in Italy, 1400-1500. New Jersey: Humanities Press

Mourão, C. (1996). O Bom e o Mau Juiz – Fresco dos Antigos Paços da Audiência de Monsaraz. A Cidade de Évora – Boletim de Cultura da Câmara Municipal, 2(II), pp. 291-321.

Oliveira Marques, A. (2010). A Sociedade Medieval Portuguesa – Aspectos do Quotidiano. Lisboa: Esfera dos Livros

Planche, J. (2013). An Illustrated Dictionary of Historic Costume. Chelmsford: Courier Corporation

Sequeira, J. (2014). O Pano da Terra: Produção têxtil em Portugal nos finais da Idade Média. Porto: U. Porto Edições.

Wilcox, R. (2008). The Mode in Costume : A history of men’s and women’s clothe and accessories from Egypt 3000 B.C. to the present. Chelmsford: Courier Corporation.

FONTES VISUAIS

(ca. 1450-1500). Fresco do Bom e  Mau Juiz [fresco]. Monsaraz: Museu do Fresco

(ca. 1475). Cerco de Arzila [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Siege_of_Asilah_(Cerco_de_Arcila)

(ca. 1475). Desembarque em Arzila [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Disembarkation_in_Asilah_(Desembarco_en_Arcila)

(ca. 1475). Tomada de Arzila [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Assault_on_Asilah_(Asalto_de_Arcila)

Alte Armatur und Ringkunst (1459). Copenhaga: Det Kongelige Bibliotek, Thott 290 2º.

Miroir Historial (ca. 1470). Paris: Bibliothèque nationale de France, Fr. 50.

Queste del Saint Graal (ca. 1380-1385). Paris: Bibliothèque nationale de France, Fr. 343

Schachzabelbuch (ca. 1420). Zurique: Zentralbibliothek, Ms. Rh. hist. 33b

Bouts, D. (ca. 1460). A Execução do Conde Inocente [óleo e têmpera em madeira]. Bruxelas: Musées Royaux des Beaux-Arts

Gonçalves, N. (ca. 1470). Panéis de São Vicente [óleo e têmpera em madeira]. Lisboa: Museu Nacional de Arte Antiga. Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Painéis_de_São_Vicente_de_Fora#/media/File:Lagos40_kopie.jpg

FONTES EM-LINHA

Lopes, A. (2017). O Luto em Portugal: da Corte à Gente Comum (séculos XV-XVI). Medievalista, 22. Disponível em https://journals.openedition.org/medievalista/1360 . DOI : 10.4000/medievalista.1360.

Reed, S. (2004). 15th Century Men’s Doublets: An Overview. Disponível em http://www.nachtanz.org/SReed/doublets.html

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