Guia Prático III – Como Coser Um Gibão (Parte I)

Due to this article’s length, I thought it wise to publish the English and Portuguese versions separately. For the English version, please click here.

Não há peça de indumentária mais básica para o homem de Quatrocentos que um gibão. Apesar disso, o gibão continua a apresentar-se como uma peça de execução problemática para os recriadores modernos. Desde a falta de supressão de cintura à falta de uma estrutura interna decente, é frequente vermos gibões em recriação que em nada auxiliam a ganhar a silhueta correcta da época.

Para tentar suprir essa situação, perguntei ao recriador e alfaiate histórico Rob Chave (cujo atelier Robert Taillour podem encontrar aqui) se acederia a criar um guia passo-a-passo em várias partes sobre como desenhar e coser um gibão, tendo por base o meu próprio gibão (futuro gibão de armar) que lhe encomendei há alguns meses. Todas as fotografias que se seguem, pelas quais muito lhe agradeço, são inteiramente da autoria dele, tal como é grande parte do texto, com apenas algumas adições/edições minhas.

Como Coser Um Gibão

Materiais:

  • fustão (neste caso; mas pode ser seda ou lã)
  • tela de linho
  • tecido de linho
  • tecido de lã
  • molas
  • fio de linho
  • tesoura
  • agulha
  • dedal

Nota Prévia:

Este gibão é feito em 3 camadas: forro exterior, entretela e forro interior. Este método pode ser utilizado tanto para gibões civis como para gibões de armar. As camadas deste gibão em particular são:
Um forro exterior de fustão: fustão é um tipo comum de tecido medieval feito de linho e algodão em proporções iguais, usando uma urdidura de linho (o fio a todo o comprimento do pano) e uma trama de algodão (o fio a toda a largura do tecido, que cruza os fios da urdidura). As mistura de linho/algodão modernas têm as fibras misturadas como fios antes da tecelagem, mas o fustão medieval teria fios de diferentes fibras entrecruzados durante o processo de fabrico.
Tradicionalmente, o fustão teria uma superfície alisada que resultaria num acabamento comparável ao do algodão moderno dito moleskin (ainda hoje conhecido como fustão em Portugês). Infelizmente, este acabamento só se encontra disponível comercialmente em algodão puro (a não ser que se encomende fustão tecido à mão). Embora as propriedades do linho sejam desejáveis, este é um “verdadeiro” fustão de linho/algodão, mas sem este acabamento suave.
Tela de linho: esta camada é utilizada como entretela e dá à peça corpo e resistência. A tela é pré-lavada, o que a amacia confortavelmente sem que perca nenhuma da sua força sob tensão.
Linho de espessura médio: tecido de linho de espessura regular para camisas e forros.

O fustão foi tingido à mão, neste caso utilizando um corante comercial moderno adequado para linho e algodão fixado com Retayne para minimizar a perda de cor através do uso.

Relativamente ao padrão/figurino, a minha abordagem consiste em começar com um padrão genérico (corpo de 8 peças, mangas em S), muitos exemplos do qual se podem achar em-linha, e desenhar algo que pareça ter a forma certa mas que se ajuste às medidas pretendidas. Depois junto tudo em calico e ajusto até que o padrão fique direito e encaixe em todo o lado como deve ser.

O método de construção aqui apresentado é um dos vários métodos possíveis; a particularidade deste método é só funcionar quando feito inteiramente à mão. O princípio-base é a construção de cada painel individualmente, cosendo-se depois as costuras em todas as camadas usando um ponto de chicote. Este processo torna as costuras mais fortes do que as resultantes de um ponto corrido ou pesponto, e tem a vantagem de fixar cada painel de forro ao longo de cada costura, impedindo que o forro se mova livremente sobre o corpo como na construção em tela flutuante.

01 – Dobra-se o fustão, e o padrão é disposto sobre ele da forma mais eficiente possível. Note-se que o canto superior direito, que aqui se vê livre, é para o forro do colarinho, pois o colarinho será forrado com o forro exterior de ambos os lados.

02 A tela foi cortada exactamente à medida de cada peça, sem qualquer margem extra.
O fustão é então aparado à volta de cada peça de tela, deixando uma margem – este processo foi feito a olho nu, mas a margem neste caso é de cerca de 15mm.

03 – São aparadas linhas e V’s à volta das arestas curvas para permitir um acabamento limpo quando as margens forem dobradas sobresi mesmas.

04 – Começo a dobrar as bordas do fustão sobre a tela. Efectuo o processo de dobra enquanto mantenho a peça em ângulo curvo, para permitir a forma no corpo, o que dá ao fustião um pouco mais de espaço sobre a tela. Os cantos são feitos dobrando-se primeiro na diagonal sobre o canto.

05/06 – Depois de segurar o fustão contra o painel de tela com alfinetes, o fustão é fixado até à tela usando um ponto cruzado. Note-se que os pontos não precisam de passar completamente através da tela; só têm de apanhar alguns pontos da trama. apenas têm de apanhar um pouco dela.

07/08 O painel após a fixação do forro exterior à tela. Repete-se este processo para todos os restantes painéis do corpo.

09/10 Antes de encaixar o forro exterior ao colarinho, é colocada uma camada de lã na parte superior da tela. Esta lã ajuda o colarinho a manter a sua forma e suaviza a curva na lateral do pescoço. É cortada ligeiramente grande e depois fixada à tela, novamente com a tela encurvada. Depois da fixação, apara-se a lã para encaixar com maior precisão com as arestas da tela.

11 A lã é cosida à tela, mais uma vez permitindo que ela caia de forma enrolada sobre a mão enquanto se costura.

12 Ao colocar o forro de fustão sobre a tela, deixo-a curvar sobre uma almofada de alfaiate (qualquer almofada colocada de lado serve o mesmo propósito) e prendo-a em alguns lugares para a manter nessa posição enrolada tal como antes.

13 Repete-se novamente o mesmo processo de cortar novamente as bordas, dobrá-las, fixar o fustão com ponto cruzado. Note-se como o painel assume naturalmente a forma enrolada em que foi feito ao segurá-lo pelo meio.

Nota: Se se fizer um colarinho com um V atrás como este (ao contrário dos redondos em forma de U), não é possível criar um ponta do V absolutamente perfeita. Com algum corte cuidadoso (a margem terá de ser menor mais próxima da ponta), pode criar-se uma terminação o mais próximo possível de um vértice perfeito. Este vértice manterá melhor a sua forma quando todas as costuras e junções estiverem terminadas.

14 A parte mais demorada do processo é a parte que as pessoas não vêem. Mas vale sempre a pena fazer bem as coisas. As mangas nem sempre precisam de entretelas; isso varia consoante o material do forro e a utilização pretendida do gibão (civil ou de armar). Neste caso, as mangas podem ser usadas para suportar arneses de braços mesmo considerando que o fustão é relativamente leve e a tela macia. Por vezes utilizo um linho de peso médio como entretela, e noutros casos não uso nada.

CONTINUA NA PARTE II, AQUI

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