Peça do Mês VIII

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PEÇA DO MÊS VIII – CEITIL

Colecção: Museu Casa da Moeda (n.º de inv.º MCM 4768)

Datação: 1472-1490

Proveniência: Desconhecida

Local de Manufactura: Porto (?)

Dimensões: 22m de diâmetro

Peso: 2,29g

Materiais: Cobre

Descrição: Pequena moeda de cobre, em bom estado de conservação. No anverso, apresenta uma legenda a toda a volta e o escudo de armas de Portugal, sem borda mas com quatro castelos a ocupar o espaço vazio entre as quinas e as arestas do escudo; no reverso, para além da legenda, vê-se no centro uma fortaleza com três torres interligadas, um pano de muralha baixo e um corpo de água ao fundo. Junto à torre direita lê-se a letra “P”, sinalizando a sua cunhagem na cidade do Porto.

Anverso, ou coroa (esquerda), e reverso, ou cara (direita), do ceitil.

Haverá coisa mais ubíqua ao quotidiano português de Quatrocentos do que um ceitil (ou muitos) na bolsa? De tão comum que a moeda-objecto é, quase se nos escapa da memória – particularmente em recriação, dado não existirem reproduções de uma única moeda portuguesa de todo o século XV antes dos Justos de D. João II.

Não se sabe bem quando é que o ceitil – cujo nome deriva da cidade de Ceuta (estilizada no reverso das moedas) [1] – começou a ser cunhado, mas sabemos ter sido uma moeda criada durante o reinado de D. Afonso V. Sabemos que havia escassez geral de boa moeda de prata e bolhão no reino, que ia vazando para o estrangeiro ou sendo guardada na arca para dias de chuva. Houve portanto necessidade de criar uma moeda fraca que toda a gente pudesse usar.

O ceitil era a única moeda que chegava praticamente a todo o povo, dos mais pobres – uma considerável fatia da população – aos mais ricos. Não que o povo estivesse particularmente agradado com ela: não era incomum, dado o imenso peso de tanta moeda na bolsa, fazerem-se grandes mealheiros de ceitis para trocar por boa moeda de prata portuguesa ou estrangeira (o que não ajudava de todo à circulação da moeda de prata em Portugal….), ou até para pagar somas muito avultadas: veja-se o caso de um aforamento de casas no Porto, pago com 62 500 ceitis [2].

O que é certo é que, à falta de prata, o ceitil corria Portugal de lés a lés. Testemunho disso são os muitos achados de ceiteis afonsinos, de tantas cunhagens diferentes, que ainda hoje se vão fazendo por esse país fora. A própria moeda vingou até muito tarde, até ao reinado de D. Sebastião. Embora pequena de valor e de tamanho, pode dizer-se que o contexto histórico de necessidade fez do ceitil numa grande moeda.

[1] Autores há que insistem que a palavra “ceitil” deriva de “sextil”, por um ceitil valer um suposto 1/6 de real branco – a moeda-base ainda no reinado de D. Afonso V. Esta ideia não tem qualquer cabimento se considerarmos que os poucos dados históricos de que dispomos apontam para que o valor ceitil se tenha começado por fixar em 1/5 de um real branco. Veja-se Tavares, M. (1981-1983). “Subsídios para o Estudo da História Monetária do Séc. XV (1448-1495)”. Em Nummus : Boletim da Sociedade Portuguesa de Numismática, 2 (4-6). Porto: Sociedade Portuguesa de Numismática, p. 20.

[2] Porto, Gabinete de História da Cidade, Pergaminhos, liv. 5, fl. 46, apud Tavares, M. (1981-1983), op. cit., p. 20.

BIBLIOGRAFIA

Magro, F. (1986). Ceitis. Sintra: Instituto de Sintra

Tavares, M. (1981-1983). “Subsídios para o Estudo da História Monetária do Séc. XV (1448-1495)”. Em Nummus : Boletim da Sociedade Portuguesa de Numismática, 2 (4-6). Porto: Sociedade Portuguesa de Numismática

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