Em Busca da Silhueta Perfeita

Due to this article’s length, I thought it wise to publish the English and Portuguese versions separately. For the English version, please click here.

Um dos tópicos que mais vexa o recriador histórico do século XV é o do figurino. Até que ponto, afinal, é correcto modelarmos-nos todos de acordo com o padrão quatrocentista? Até que ponto são ou não exageradas algumas representações da apertada silhueta masculina do século XV? Que implicações tem isto para o recriador? Esta publicação tem, devo dizer, tanto de intuito informativo como de reflexão pessoal.

A Revolução da Moda

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O figurino de século XIII e inícios do século XIV: a túnica solta e ampla. Iluminura de Caim matando Abel, cortada de uma Bible historiale francesa (inícios do século XIV).

Tem algumas décadas largas a opinião de que a moda – tal como a conceptualizamos actualmente: ditame de tendências e alta-costura – nasceu no século XIV [1]. Segundo o historiador da moda James Lavel, é nesta altura que se dá a quebra em definitivo com o modelo usado até então, de roupa solta e longa de inspiração tardo-romana – a longa túnica para homem e para mulher, fundamentalmente – e a roupa se encurta e se ajusta ao corpo, passando a mostrar, e a moldar, os contornos do físico. Embora esta afirmação tenha mais que se lhe diga, está, no geral, correcta: “in a way”, dizia o eminente medievalista Fernand Braudel, “one could say that fashion began here [no século XIV]. For after this, ways of dressing became subject to change in Europe. At the same time, whereas the traditional costume had been much the same all over the continent, the spread of the shorter costume was irregular, subject to resistance and variation, so that eventually national styles of dressing were evolved, all influencing each other to a greater or lesser extent – the French, Burgundian, Italian or English costume, etc. (…)” [2].

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Pormenor do manuscrito denominado Smithfield Decretals (ca. 1300-1340). Note-se alguma evolução para a justeza da roupa elegante, ainda sem quaisquer modificações à natural silhueta humana.

Apesar de se começar a notar alguma justeza nas roupas do segundo quartel de Trezentos, o início do século XIV mantém intocado o contorno físico masculino – poupa-se no pano da roupa sem haver uma tentativa de moldagem do corpo. No que toca às alterações na silhueta masculina, a primeira grande revolução é a da cintura em ampulheta, que vigorou entre meados do século e o primeiro quartel de Quatrocentos. Das roupas elegantes e justas de início de Trezentos passou-se a um figurino que parecia disposto a reduzir ao mínimo possível o diâmetro da cintura (natural), dividindo o corpo em duas metades de largura aproximada (ao nível do peito e ao nível das ancas). O objectivo era, assim, salientar o peito largo e as coxas fortes de um guerreiro bem treinado (nunca esquecer que é junto da nobreza que surgem estas modas), sem olvidar um certo equilíbrio visual. Ou, nas palavras do célebre cavaleiro francês Geoffroi de Charny, no seu Livre de Chevalerie: It is not enough for them to be as God made them; they are not content with themselves as they are, but they gird themselves up and so rein themselves in round the middle of their bodies that they seek to deny the existence of the stomachs which God has given them: they want to pretend that they have not and never have had one, and everyone knows that the opposite is true” [3]. Afirmações pouco caridosas, que poderiam ter por base um dos eternos factos subjacentes à efemeridade das modas: deixam sempre alguém para trás, “fora de moda”. Geoffroi teria, quando escreveu estas palavras, cerca de 50 anos, e talvez não lhe fosse possível modelar-se já como os jovens nobres franceses de então o faziam.

A Linha X

Pormenor de iluminura do manuscrito Queste del Saint Graal (ca. 1380-1385). Note-se a cintura afunilada e o peito amplo.

Desta ideia de adelgaçamento da cintura veio a resultar o gibão (de que já muito se falou aqui), o melhor amigo do janota, um autêntico 2-em-1: a saia do gibão actua na realidade como uma espécie de corpete, que comprime e afunila o corpo na cintura natural, deixando o tronco da peça apto a cair arredondado sobre o peito (o famoso “peito de pombo”). No início do século XV, a moda evolui para realçar sobretudo a parte superior do corpo. Enchumaçam-se os gibões no peito e nas espáduas, para dar mais dimensão ao tronco e largueza aos ombros e costas. Ante a finura das cinturas, os gibões faziam com que a largura das ancas parecesse exagerada, particularmente em comparação com as pernas finas em calças correspondentemente justas. O aspecto geral do figurino da época era o de acentuação de “todas as linhas horizontais e verticais do corpo, com excepção da cintura” [4], segundo Oliveira Marques, ou, de forma muito mais sintética: “O resultado foi a tão famosa linha em X” [5].

O gibão simples e popular. Pormenor de iluminura de um Horae ad usum romanum (ca. 1420-1430).

Como em toda a moda, resulta deste estado de coisas que as camadas sociais mais baixas tenham começado, a par e passo, a imitar as preferências das suas superiores. Assim se explica a disseminação do gibão durante o século XIV, e a demanda generalizada pela silhueta perfeita em X. Estas ambições não estavam ao alcance de todos estratos sociais, claro está, nem tampouco eram soluções práticas para o trabalho mais duro do campo – motivos pelos quais se verifica uma semelhança tão grande entre as representações dos camponeses de Quatrocentos e dos seus congéneres do século XIII [6]. Estas excepções feitas, e de uma maneira ou outra, o ideal da linha X é o constante do figurino masculino do século XV. O facto de nem toda a gente ter acesso aos melhores alfaiates e, consequentemente, à melhor silhueta, é outra das constantes universais da moda, a de se ir diluindo e simplificando quando mais se espalha. Isto não implica que não se tentasse obter a silhueta devida – e que, consequentemente, não devamos nós, recriadores modernos, tentar sempre a mesma coisa.

O Corpo do Passado, o Corpo do Futuro

A linha X não se ficou apenas pela roupa. A própria noção de beleza masculina evoluiu no sentido de adoptar como modelo um corpo delgado, de cintura fina, como se pode ver em muita da arte coeva [7]. Para isto contribuiu o uso de gibões que, usados e apertados toda uma vida, acabavam por ter no físico o mesmo exacto efeito de modelagem que os corpetes tiveram nos bustos das mulheres do século XIX. A pressão social da moda exercia-se então sobre a toda a sociedade, em maior ou menor medida, em duas frentes: a veste ideal, por um lado, e o corpo ideal, por outro – um resultado do outro.

O corpo quatrocentista. Pormenor de iluminura do Livre de proprietes de choses (ca. 1450-1475).

Este mesmo efeito encontramo-lo em toda a História desde então, incluindo a mais recente. Quem acha que a atribuição universal da linha X em recriação é uma imposição hodierna e um excesso de zelo deve por certo estar esquecido da ubiquidade das calças altas nos anos 50, das calças à boca de sino dos anos 70, ou dos ombros largos dos casacos dos anos 80.

Mas a principal dificuldade dos recriadores não são as roupas, é o físico. Contraste-se o corpo contemporâneo, volumoso, com a figura magra do século XV. A base de trabalho mudou radicalmente. É certo que um gibão bem talhado, indispensável à boa recriação, produz efeitos visíveis e imediatos mesmo no recriador mais corpulento. Mas, embora o hábito faça o monge, o que não faz é milagres. O trabalho de recriação não começa portanto no traje; começa, sim, no nosso próprio corpo.

[1] Laver, J. (1979). The Concise History of Costume and Fashion. New York: Abrams, p. 62.

[2] Braudel, F. (1981). Civilization and Capitalism, 15th-18th Centuries, I. London: William Collins & Sons, p. 317.

[3] Kaeuper, R., e Elspeth, K. (eds.) (2005). A Knight’s Own Book of Chivalry. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, p. 102.

[4] Oliveira Marques, A. (2010). A Sociedade Medieval Portuguesa – Aspectos do Quotidiano. Lisboa: Esfera dos Livros, p. 72.

[5] Idem, ibidem.

[6] Idem, ibidem.

[7] Ao contrário do anterior modelo físico, delgado mas sem uma separação clara entre o peito e o ventre.

BIBLIOGRAFIA

Braudel, F. (1981). Civilization and Capitalism, 15th-18th Centuries, I. London: William Collins & Sons

Kaeuper, R., e Elspeth, K. (eds.) (2005). A Knight’s Own Book of Chivalry. Philadelphia: University of Pennsylvania Press

Laver, J. (1979). The Concise History of Costume and Fashion. New York: Abrams

Oliveira Marques, A. (2010). A Sociedade Medieval Portuguesa – Aspectos do Quotidiano. Lisboa: Esfera dos Livros

FONTES VISUAIS

Bartholomaeus Anglicus (ca. 1450-1475). Livre de proprietes de choses. Paris: Bibliothèque nationale de France, BNF FR 135

Horae ad usum romanum (ca. 1420-1430). Paris: Bibliothèque nationale de France, Latin 1156B

Queste del Saint Graal (ca. 1380-1385). Paris: Bibliothèque nationale de France, BNF Français 343

Smithfield Decretals (ca. 1300-1340). London: British Library, Royal MS 10 E IV

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