Roupa Masculina VI – O Cinto

Due to this article’s length, I thought it wise to publish the English and Portuguese versions separately. For the English version, please click here.

Com as roupas essenciais tratadas, passamos agora a outros elementos mais exteriores (mas não menos importantes) da indumentária masculina: bolsas, cintos, chapéus, e toda uma panóplia de adições à roupagem do homem medieval. E começamos hoje, justamente, pelos cintos.

Convém dizer antemão: a investigação sobre o cinto medieval em Portugal é praticamente nula. Apesar de vários achados arqueológicos, de fivelas e outras componentes, não há (que eu saiba) qualquer análise aprofundada do cinto-objecto em qualquer época da Idade Média. Torna-se portanto necessário tirar muitas ilações das poucas fontes que temos e contrastá-las com a  investigação que se faz lá fora. Com esta advertência feita, avancemos.

O Essencial e o Acessório

Ao contrário do que acontece hoje em dia, o cinto (ou cinta, na nomenclatura da época) não é, durante a Idade Média, um mero acessório. Sem cintos, não havia bolsas; sem bolsas, o homem (e a mulher) do século XV não tinham maneira de trazer consigo os seus pertences do dia-a-dia (surpreendentemente, passar-se-iam ainda alguns séculos até à invenção das calças com bolso. Quem diria?) [1]. Para além de bolsas, “durante toda a Idade Média foi uso trazer à cinta facas e pequenos punhais, quer para defesa contra agressões, quer para instrumento de alimentação. Os cavaleiros cingiam ainda espadas e punhais de maiores dimensões” [2]. Portanto, mais finos ou mais grossos, mais ou menos decorados, o cinto era indispensável aos homens de todas as condições sociais.

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Fotografia de arquivo mostrando os bens de Hermann von Goch, influente personagem de Colónia, executado em 1398. Antes da execução, as autoridades locais retiraram-lhe todos os seus pertences e guardaram-nos, fazendo com que sobrevivessem até hoje. A maior parte dos objectos aqui mostrados (visitáveis no Kölnisches Stadtmuseum, em Colónia, Alemanha) pendia do cinto de seda verde no topo da fotografia.

Fivelas, Biqueiras e Guarnições

Os cintos eram confeccionados em dois tipos de material, essencialmente: couro, de tipo vário, e numa multiplicidade de tecidos. O couro podia ser extremamente decorado com lavragem, estampagem ou costuras. Da mesma forma, os tecidos podiam ser lisos (tecidos de lã, veludos, sedas) ou os chamados “tecidos de fantasia”, multicolores, brocados – ou, até, encordoados de materiais finos, como alguns dos cintos nos Painéis de São Vicente [3].

Fivela 1
Fivela do século XV, encontrada no poço dos Paços do Concelho em Torres Vedras (sem inf. inventário).

Tal como os cintos modernos, a maior parte dos cintos medievais apertava-se com fivelas, por vezes bastante aparatosas, geralmente em ligas de cobre, prata, ou ouro [4]. Ao contrário dos cintos modernos, porém, havia outra ferragem imprescindível ao cinto medievo: a biqueira, tão ou por vezes mais aparatosa até que a fivela, servia para manter a ponta do cinto direita e pendente da cintura, segundo os ditames da moda. Ambas estas peças eram fixadas à tira de couro ou pano através de pequeninos rebites, ou de espigões salientes das próprias peças.

Para além destes dois elementos, acrescentavam-se frequentemente aos cintos outras peças, denominadas guarnições. As mais frequentes eram pequenas guarnições utilitárias com buracos no meio, para poderem acomodar o espigão da fivela: podemos ver este tipo de guarnições no singelo cinto (parcialmente cortado; apresenta a ponta com biqueira, falta-lhe a ponta com a fivela) da Princesa Santa Joana, de finais do século XV [5]. Mas as guarnições meramente decorativas abundavam, de todas as maneiras e feitios, de metal e não só. Nos bens do falecido Afonso Pires, bispo do Porto, em 1372, contava-se “hũa cinta streyta de pano de Londres velha en que andavam trinta e cinquo rosetas sua fivela e biqueyra” [6].

Cinto 2
Cinto dito da Princesa Santa Joana (sem inf. inventário).

Passadores em T

Afonso Henriques Cinto
Pormenor do retrato de D. Afonso Henriques com um cinto de passador em T, na “Genealogia do Infante D. Fernando” (ca. 1530-1534).

Para além destes tipos de cinto mais costumeiros em toda a Europa medieval,  usava-se deste lado dos Pirenéus um tipo de cinto especial. Ou, melhor dizendo, um tipo de cinto com um método de fecho especial: os cintos com passador em T.

Já apresentei aqui um destes passadores, que fechariam o cinto engatilhando as duas pontas. A iconografia castelhana e portuguesa [7] – um bom exemplo da qual é o retrato de D. Afonso Henriques que se reproduz à direita – e os achados arqueológicos em Portugal (Torres Vedras [8], Coimbra [9], Lisboa [10], Figueira de Castelo Rodrigo (Guarda) [11], Amares (Braga) [12], Beja e Porto [13], entre outros) dão a entender que estes cintos seriam bastante populares pelas nossas bandas, em todos os estratos sociais (apesar de tenderem a surgir com maior frequência em retratos das elites – como tantas outras coisas…). Estes passadores, por vezes muito decorados, eram geralmente colocados em cinturões relativamente largos de couro lavrado ou de tecido, por regra desprovidos de guarnições adicionais.

Estatuto e Decoração

Quanto mais ornado um cinto, maior o custo, claro está, mas também maior o prestígio para quem o usava. Assim, para impedir os excessos e os ares de alguma da ralé endinheirada, criaram-se leis sumptuárias que abrangiam os cintos e outros adereços: “Era uso carregar os cintos com decorações maciças de ouro, prata e pedrarias, a ponto que a pragmática de 1340 estabeleceu regras rigorosas com o objectivo de limitar os abusos” [14]. É claro que, para os mais abastados, estas leis eram mais orientações do que propriamente prescrições.

Cintos em Recriação

Como habitual, os cintos são terreno fértil para a asneira. Não posso censurar os recriadores que adquirem bons cintos do século XV com tipologias que não se encontravam por cá. Por um lado, acertam na época, e as tipologias não são assim tão díspares; por outro, não havendo qualquer publicação de fundo sobre o assunto, é quase impossível formar uma ideia minimamente coerente dos tipos de cintos/fivelas/biqueiras/guarnições em uso em Portugal sem gastar dezenas de horas de pesquisa. Muito menos desculpável, mas infelizmente muito mais frequente, é o uso de cintos de épocas claramente mais recuadas (fivelas românicas ou célticas, por exemplo), cintos altamente ornados em retratos de gente sem meios – e o inverso, com cintas pobres em cinturas abastadas; ou, até, o uso de cintos de fantasia, como é o caso dos cintos pseudo-medievais de argola.

Uma última notinha para cintos correctos mas de fraquíssima qualidade de execução, com dobras rebitadas ou fivelas/biqueiras feitas de ligas metálicas muito baratas, ou douragens fracas, ou péssimos moldes. Num cinto, como em quase tudo, arranja-se aquilo que se paga.

[1] Oliveira Marques, A. (2010). A Sociedade Medieval Portuguesa – Aspectos do Quotidiano. Lisboa: Esfera dos Livros, p. 72.

[2] Oliveira Marques, A. (2010), op. cit., p. 71.

[3] Mais concretamente, vejam-se os cintos de D. Afonso V e do príncipe D. João no Painel do Infante dos Painéis de São Vicente.

[4] Embora o uso do peltre – uma linha de estanho, cobre e chumbo – fosse comum noutras paragens (como a Inglaterra) durante o século XV, o uso desta liga em Portugal ainda está por estudar, para cintos e não só.

[5] Sobre este cinto, veja-se Mota, M. (2019). “Tesouros têxteis do cofre relicário da Princesa Santa Joana”. Em A. Serrano, M. J. Ferreira, e E. C. de Groot (eds.). Estudos sobre têxteis históricos, 31. Lisboa: Associação Profissional de Conservadores-Restauradores de Portugal (ARP), pp. 164-165.

[6] Em Saraiva, A. (2002). “O processo de inquirição do espólio de um prelado trecentista: D. Afonso Pires, bispo do Porto (1359-1372)”. Em Clemente, M. (2001-2002). A historiografia religiosa medieval hoje: temas e problemas. Lusitania Sacra, XIII-XIV. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa/Centro de Estudos de História Religiosa, p. 219.

[7] Para além de peças castelhanas como as Sargas do mosteiro de San Salvador de Oña, temos para Portugal representações quer nas tapeçarias de Pastrana, quer nos Painéis de São Vicente, quer nos fólios da dita “Genealogia do Infante D. Fernando” (Leaves from the Genealogy of the Royal Houses of Spain and Portugal), entre outras.

[8] Cardoso, G. e Luna, I. (2012). “Fragmentos do quotidiano urbano de Torres Vedras entre os séculos XV e XVIII: um olhar através dos objectos do poço dos Paços do Concelho”. Em Bettencourt, J. e Teixeira, A. (coords.). Velhos e novos mundos: estudos de arqueologia moderna. Lisboa: Centro de História de Além-Mar, p. 166.

[9] Fareleira, L. (2014). O Estudo dos “Outros Materiais” provenientes do Museu Nacional de Machado de Castro [dissertação de mestrado]. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

[10] Banha da Silva, R., Teixeira, A., Villada Paredes, F. (coords.) (2015). Lisboa 1415 Ceuta [catálogo de exposição]. Lisboa: Ciudad Autonoma de Ceuta/Câmara Municipal de Lisboa, p. 98.

[11] Martins, C. (2001). “Sobre a Cronologia dos ‘Passadores em T’ e um conjunto cerâmico dos sécs. XV/XVI (Escarigo, Figueira de Castelo Rodrigo). Em O Arqueólogo Português, IV (19). Lisboa: Museu Nacional de Arqueologia, pp. 247-258

[12] Barroca, V. (2003). “Sobre a cronologia dos Passadores em T”. Em Arqueologia, 19. Porto: GEAP, pp. 147-152.

[13] Martins, C. (2001)., op. cit., p. 251.

[14] Oliveira Marques, A. (2010), op. cit., p. 71.

BIBLIOGRAFIA

Banha da Silva, R., Teixeira, A., Villada Paredes, F. (coords.) (2015). Lisboa 1415 Ceuta [catálogo de exposição]. Lisboa: Ciudad Autonoma de Ceuta/Câmara Municipal de Lisboa

Barroca, V. (2003). “Sobre a cronologia dos Passadores em T”. Em Arqueologia, 19. Porto: GEAP, pp. 147-152.

Cardoso, G. e Luna, I. (2012). “Fragmentos do quotidiano urbano de Torres Vedras entre os séculos XV e XVIII: um olhar através dos objectos do poço dos Paços do Concelho”. Em Bettencourt, J. e Teixeira, A. (coords.). Velhos e novos mundos: estudos de arqueologia moderna. Lisboa: Centro de História de Além-Mar, pp. 163-172.

Fareleira, L. (2014). O Estudo dos “Outros Materiais” provenientes do Museu Nacional de Machado de Castro [dissertação de mestrado]. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Martins, C. (2001). “Sobre a Cronologia dos ‘Passadores em T’ e um conjunto cerâmico dos sécs. XV/XVI (Escarigo, Figueira de Castelo Rodrigo). Em O Arqueólogo Português, IV (19). Lisboa: Museu Nacional de Arqueologia, pp. 247-258

Mota, M. (2019). “Tesouros têxteis do cofre relicário da Princesa Santa Joana”. Em A. Serrano, M. J. Ferreira, e E. C. de Groot (eds.). Estudos sobre têxteis históricos, 31Lisboa: Associação Profissional de Conservadores-Restauradores de Portugal (ARP), pp. 155-165

Oliveira Marques, A. (2010). A Sociedade Medieval Portuguesa – Aspectos do Quotidiano. Lisboa: Esfera dos Livros

Saraiva, A. (2002). “O processo de inquirição do espólio de um prelado trecentista: D. Afonso Pires, bispo do Porto (1359-1372)”. Em Clemente, M. (2001-2002). A historiografia religiosa medieval hoje: temas e problemas. Lusitania Sacra, XIII-XIV. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa/Centro de Estudos de História Religiosa, pp. 197-229.

FONTES VISUAIS

Benning, S. e Hollanda, A. (ca. 1530-1534). Leaves from the Genealogy of the Royal Houses of Spain and Portugal. London: British Library, MS 12531/1

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