Peça do Mês V

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PEÇA DO MÊS V – RELICÁRIOS COM CORRENTE

Colecção: Museu Nacional de Arte Antiga (inv. 274 Joa)

Datação: Segunda metade do século XV

Proveniência: Desconhecida (?)

Local de Manufactura: Desconhecido

Dimensões: 2,6cm de comprimento x 1,7 cm de largura x 1cm de profundidade (cada relicário)

Peso: Desconhecido

Materiais: Prata

Descrição: Este conjunto de três pequenos relicários numa corrente de prata é testemunho da devoção medieval e da forma pessoal e material com que os crentes estabeleciam a sua ligação com o divino [1] – uma relação tantas vezes olvidada por quem estuda História Medieval nos tempos presentes, e mais ainda quem lida com recriação. Cada uma destas pequeninas caixinhas apresenta, na fronte, um janelão ogival de quatro frestas e, na parte de trás, uma sigla identificativa do santo ao qual a relíquia corresponde – São Sebastião, São Bento, ou São Brás.

Relicários
A corrente e os relicários.

A dimensão privada e íntima do culto das relíquias teve grande expressão do século XV. Estas relíquias estavam intimamente associadas a locais de peregrinação específicos, em torno do qual se organizavam redes de comércio (quase literalmente a retalho) destes objectos sagrados – uns mais verdadeiros, outros nem tanto.

Diz-nos o curador Joaquim Oliveira Caetano que, em Portugal, “a dinastia de Avis foi pioneira neste tipo de uso. D. Filipa possuía várias relíquias que repartiu pelos filhos. D. Henrique nunca tirava uma corrente que trazia ao pescoço com um relicário do Santo Lenho e, entre os bens dos pais de D. Manuel I, os infantes Fernando e Brites, conta-se, para além deste relicário, um outro, também nas coleções do Museu Nacional de Arte Antiga, com despojos dos Mártires de Marrocos” [2]. E não se pense que apenas aos grandes da terra cabia a posse destas relíquias: com algum dinheiro na carteira, qualquer peregrino se podia apossar de um pequenino fragmento do seu santo preferido [3]. Legítimos ou não, para a religiosidade da época quase pouco importava [4]: estes pequenos pedaços do divino, e os receptáculos em que são guardados, são um testemunho palpável da crença no seio das comunidades medievais – objectos de arte, objectos de devoção, objectos de protecção.

[1] Gomes, S. (2009). “Sagrados Monumentos, Relíquias de mártires e de santos em Portugal”. Em Revista Lusófona de Ciência das Religiões. 15. Lisboa: Licenciatura e Centro de Estudos em Ciências das Religiões da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, pp. 59-60.

[2] Caetano, J. (2013). “A Microarquitectura”. Em Pimentel, A. (Coord.) A Arquitetura Imaginária – Pintura, Escultura, Artes Decorativas. Lisboa: Museu Nacional de Arte Antiga/Imprensa Nacional Casa da Moeda, p. 90. O relicário do Infante D. Henrique pode, aliás, ser visto no seu retrato nos Painéis de São Vicente.

[3] Oliveira Marques, A. (2010). A Sociedade Medieval Portuguesa – Aspectos do Quotidiano. Lisboa: Esfera dos Livros, p. 194.

[4] Gomes, S. (2009), op. cit., p. 62.

BIBLIOGRAFIA

Caetano, J. (2013). “A Microarquitectura”. Em Pimentel, A. (Coord.) A Arquitetura Imaginária – Pintura, Escultura, Artes Decorativas. Lisboa: Museu Nacional de Arte Antiga/Imprensa Nacional Casa da Moeda, pp. 63-93

Gomes, S. (2009). “Sagrados Monumentos, Relíquias de mártires e de santos em Portugal”. Em Revista Lusófona de Ciência das Religiões. 15. Lisboa: Licenciatura e Centro de Estudos em Ciências das Religiões da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, pp. 59-84

Oliveira Marques, A. (2010). A Sociedade Medieval Portuguesa – Aspectos do Quotidiano. Lisboa: Esfera dos Livros

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