Organização Militar em Portugal no final do Século XV – I

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Na Idade Média, ninguém luta sozinho. Qualquer guerreiro é parte de um núcleo, de maior ou menor dimensão, um corpo de gente reunida para um único fim: travar uma guerra. Desde os cavaleiros nas suas montadas ao mais simples do peões, o homem do século XV é um elo numa malha intricada – “o resultado da congregação de uma série de parcelas com elevado grau de autonomia” [1]. Para nós, recriadores orientados para a recriação militar, é importante saber onde se inserem as nossas personas no meio de toda esta trama.

Nesta série de pequenos artigos expositivos, vou apresentar os diferentes corpos em que um guerreiro de finais do século XV se podia inserir, e que informação podemos daí retirar para um melhor retrato dos combatentes da época. Começo hoje por apresentar um brevíssimo e muito geral panorama destas forças, sem entrar em demasiados detalhes: quem são estes homens, de onde vêm, e que equipamento usam?

A Guarda Régia – Os homens do rei

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Porta-estandarte real. Pormenor da tapeçaria  Tomada de Arzila.

Qualquer rei que se preze tem um grupo de homens para o proteger, e os reis portugueses não são excepção.

Até quase ao final da nossa Idade Média, estas guardas palacianas eram grupos institucionalmente informais de cavaleiros e besteiros: filhos segundos da nobreza à procura de um lugar ao sol (no caso dos cavaleiros) ou de elites do povo à procura de meter um pézinho na escada social (no caso dos besteiros). No nosso período, a guarda régia seguia sensivelmente o modelo criado no reinado de D. João I, em inícios do século XV: um grupo de escudeiros (nunca acima dos 80 membros), liderados por um guarda-mor; e um grupo de 100 besteiros, os “besteiros da câmara” do rei, liderados por um anadel-mor. Um valente catrapázio de gentes, paradoxalmente muito reduzido em tempo de guerra – apenas 20 cavaleiros ou escudeiros fiéis, comandados por um fidalgo de confiança, com o único propósito de vigiarem o monarca noite e dia. Só em 1483 é que D. João II (que parecia ter algum gosto em fazer inimigos) instituiu de forma oficial o corpo de guarda régia portuguesa, com 100 efectivos.

Para o nosso período, o equipamento prescrito destes homens era mais ligeiro do que podemos pensar (porque tinham de andar com ele quase todo o dia): gibanetes (brigandines), celadas ou barretas (chapéus-de-guerra); gocetes (mangas de malha com protecção do sovaco) e fraldão de malha); arneses de braço e pouco mais. Portariam lanças, espadas, e adargas.

Mesnadas Nobres – Cavaleiros e os seus homens

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Um cavaleiro arnesado. Pormenor da tapeçaria Cerco de Arzila.

Todos temos uma ideia de cavaleiro na Idade Média, e não há guerra sem eles. Estamos a falar de membros de classe social elevada, (quase) sempre dotados de grandes posses e de privilégios. Estes homens de armas, poderosamente armados, são o (literal) núcleo-duro de qualquer campanha. Mais até do que o equipamento – regra geral o arnês branco -, estas elites valiam pelo seu treino e valor marcial, e pelos homens que consigo traziam para o campo de batalha.

O sistema de recrutamento da nobreza estruturava-se de cima para baixo: o rei (ou o grande senhor) pagava a um fidalgo seu vassalo uma determinada quantia (“contia”), que esse vassalo devia despender num determinado número de homens. A este grupo dava-se o nome de “mesnada”. Podia o rei (ou o grande senhor) fazer também mercês (ofertas) de armas e/ou de cavalos aos seus vassalos, para assegurar a sua prontidão em tempo de guerra. Onde iam estes fidalgos buscar homens? Certamente aos seus vassalos directos, aos habitantes dos seus domínios, a quem deviam emprestar armamentos dos seus arsenais pessoais. Mas recorriam também muitas vezes aos acontiados (que veremos abaixo) das vilas e cidades do país, enlistando-os nos seus grupos.

De qualquer modo, sozinhos ou acompanhados, os cavaleiros são os elementos mais pesadamente armados da hoste portuguesa: de lança, espada, acha-de-armas ou maça na mão, são quem tem o hábito de se apresentar no campo em aço, dos pés à cabeça. Nem sempre seria assim – por mais garbosos que os arneses fossem, eram pouco práticos em determinados contextos (sortidas de pilhagem em Marrocos, por exemplo). Portanto, muitas vezes se trocou por vezes o arnês integral por defesas mais leves, como os gibanetes ou barretas dos ginetes (ou da guarda real), acrescentando guantes/manoplas e grevas sempre que possível.

Companhias de Ginetes – Um novo corpo táctico

Ginete 1
Ginete. Pormenor da tapeçaria Entrada de Tânger.

Das camadas sociais superiores (na sua maioria)  vinham também os ginetes, a famosa cavalaria ligeira ibérica inspirada na tradição bélica muçulmana e na guerra no Norte de África: membros da baixa nobreza, especializados em sortidas rápidas e raides de saque (as chamadas “almogaverias”).

O equipamento era mais ligeiro do que o da tradicional cavalaria pesada: substituíam-se os arneses (ou seja, “couraças” no sentido moderno da palavra) pelas solhas ou gibanetes, prescindiam-se de grevas ou de outras protecções completas de membros, trocavam-se tipos de elmo fechados (celadas, por exemplo) por protecções abertas (celadas sem viseira, barretas), mais aptas à respiração e à visão das correrias e cavalgadas.

As Ordens Militares – Forças de renome

Os cavaleiros da ordens militares em Portugal – Ordem de Cristo, de Avis, de Santiago e do Hospital – continuavam ainda nesta época a participar nas campanhas portuguesas, embora em números muito reduzidos. São, como os seus congéneres, forças altamente bem equipadas, com equipamentos em tudo similares aos da restante cavalaria pesada.

Acontiados – Homens das cidades, das vilas e das aldeias

Acontiado
Acontiado com dardo. Pormenor da tapeçaria Desembarque em Arzila.

O grosso das hostes portuguesas no século XV compunha-se a partir dos habitantes das urbes do país. Estamos a falar de acontiados – homens a quem eram apurados os rendimentos (as ‘contias’ de que dispunham) e que, quanto mais tivessem, mais armas estavam obrigados a ter e a apresentar em caso de guerra. Esta obrigação podia ir desde a simples lança e escudo, para os acontiados com menos rendimentos, a arneses integrais e cavalos para os mais endinheirados.

Apesar destas diferenças em rendimento, a documentação de final do século XV sugere que a maior parte dos acontiados estaria obrigada a possuir celada ou barreta com babeira, gibanete, fralda de malha, gocetes (mangas de malha com protecção do sovaco), e arneses de braço. Pernas e mãos iam muitas vezes desprotegidas. Lanças, ascumas e adargas eram as armas mais populares e disseminadas, às quais se acrescentavam as espadas, dardos, e outras armas mais raras (achas, maças, bisarmas, etc.).

Besteiros do Conto – Atiradores de elite

Besteiro
Besteiro com besta de garrucha. Pormenor da tapeçaria  Tomada de Arzila.

Das vilas e cidades do país vinham também os Besteiros do Conto – um número fixo de besteiros, treinados e bem equipados, que cada concelho devia fornecer para serviço militar em tempo de guerra. Ao serviço como Besteiro do Conto estava associada uma série de deveres, é certo, mas também um grande conjunto de privilégio. Neste nosso período, os Besteiros do Conto enquanto corpo de renome no seio da hoste portuguesa estavam já em plena decadência (acabariam por ser dissolvidos em 1498). Ainda assim, como um dos primeiros corpos proto-permanentes no país, participaram em todas as campanhas militares portuguesas do século XV, grandes ou pequenas. 

Um homem recrutado como besteiro estava, por lei, obrigado a ter uma besta (de garrucha – um gancho para puxar a corda até ao engate; ou de polé – um sistema de roldanas para armar a besta) e um cento de virotões. O equipamento defensivo não deveria ser muito: gibanetes, sem dúvida, protecções de cabeça (barretas, celadas com ou sem viseira); alguma malha, o ocasional arnês de braços, e pouco mais. Em Portugal, ao contrário de outras paragens, os besteiros parecem não ter trazido consigo paveses.

Espingardeiros e Artilheiros – A revolução da pólvora

Espingardeiro
Espingardeiro com colubreta. Pormenor da tapeçaria Cerco de Arzila.

Por fim, a grande novidade de finais do século XV: os espingardeiros. Bom, estou a exagerar um bocadinho. As hostes portuguesas já incluíam espingardeiros desde os inícios do século, portanto novidade já não seriam. Só durante o reino de D. Afonso V é que estes homens, geralmente mesteirais, começam a assumir grande relevância nas expedições portuguesas – de tal forma que, no final do século, suplantam os Besteiros do Conto. Em simultâneo com os espingardeiros temos também os artilheiros, ou bombardeiros, que operavam as armas pesadas de fogo. Quer uns, quer outros, marcaram posições de destaque nos exércitos portugueses do final do século – posições que tinham, também, na sua existência quotidiana, com privilégios iguais ou até mais gratificantes que os acordados aos Besteiros.

Em ambos os casos, o equipamento defensivo  destas tropas seria ligeiro, mais ou menos em linha com o dos seus congéneres de besta: gibanetes, protecções de cabeça, alguma malha, alguns elementos adicionais em chapa metálica. Para além das suas colubretas e das espingardas de mecha (coexistiram ainda nesta época), pouco mais teriam do que as suas adagas de todos os dias, ou quando muito, alguma espada.

A Recriação Militar

Que ilações para a recriação militar podemos tirar deste sumário? A mais óbvia talvez seja a existência de um conjunto de elementos defensivos – gibanetes e protecções de cabeça (celadas, barretas) – que são transversais a quase todos os corpos das hostes portuguesas. Podemos então considerar estes dois tipos de peça como o mínimo dos mínimos para boa recriação da época, o que são boas e más notícias. Más, porque um bom gibanete é, hoje em dia, um investimento oneroso (e não vão nas boas cantigas de gibanetes baratos – não existem a menos de 800€); boas, porque o investimento num gibanete em recriação portuguesa é muito mais versátil e aplicável a um grande conjunto de caracterizações do que seria, porventura, noutros territórios da Europa.

Também podemos observar facilmente a justaposição entre o estatuto social e o estatuto militar do combatente. Por outras palavras: mais dinheiro, mais obrigações (ou, mo’ money, mo’ problems). Retratamos um mercador rico, cheio de sedas e brocados, mas depois mal temos um loudel e uma adaga? Não. Retratamos um pequeno mesteiral, mas depois aparecemos no campo de arnês completo? Não.

Tal como cada guerreiro no meio de uma hoste, cada arma e armamento é elo numa corrente, é fio na tapeçaria de um retrato individual. Sem as escolhas apropriadas, é impossível ilustrar a História nos seus verdadeiros matizes .

 

[1] Monteiro, J. G. (1998). A Guerra em Portugal nos finais da Idade Média. Lisboa: Editorial Notícias, p. 27.

 

BIBLIOGRAFIA

Barroca, M. J. e Monteiro, J. G. (Coords.) (2000). Pera Guerrejar – Armamento Medieval no Espaço Português. Palmela: Câmara Municipal de Palmela

Dias, D. (2014). As Cortes de Coimbra e Évora de 1472-73 – Subsídios para o estudo da política parlamentar portuguesa [dissertação de mestrado]. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Monteiro, J. G. (1998). A Guerra em Portugal nos finais da Idade Média. Lisboa: Editorial Notícias

Sebastião, P. (2018). Os espingardeiros – Um novo corpo militar no alvor da modernidade (1437-1495) [dissertação de mestrado]. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Tavares, J. (1987). Guerreiros Medievais Portugueses: Peonagem. Lisboa: Verbo

Teixeira, N., e Barata, M. (2003). Nova História Militar de Portugal (Vol. I). Rio de Mouro: Círculo de Leitores

 

FONTES ICONOGRÁFICAS

(ca. 1475). Cerco de Arzila [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Siege_of_Asilah_(Cerco_de_Arcila)

(ca. 1475). Desembarque em Arzila [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Disembarkation_in_Asilah_(Desembarco_en_Arcila)

(ca. 1475). Entrada em Tânger [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/The_taking_of_Tangier_(Toma_de_T%C3%A1nger)

(ca. 1475). Tomada de Arzila [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Assault_on_Asilah_(Asalto_de_Arcila)

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