Corpos, Barbas e Cabelos em Recriação

Due to this article’s length, I thought it wise to publish the English and Portuguese versions separately. For the English version, please click here.

Gastaram-se os dinheiros em boa roupa: um gibão confortável, uns bons sapatos, umas calças bem ajustadas. Aprumaram-se as bolsas, os cintos, os chapéus. No meio de todas as discussões sobre a acuidade histórica do calçado, do vestuário e dos apetrechos de campo, porém, costuma deixar-se de fora uma componente fundamental à recriação: o aspecto físico do próprio recriador (masculino, neste caso).

Devo dizer de antemão que esta entrada é uma peça de mera reflexão pessoal sobre a recriação e os recriadores. Não é suposto insultar ou ofender ninguém, embora teça críticas óbvias a certas escolhas pessoais no contexto da recriação de qualidade.

O Corpo

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O ideal de beleza masculino no século XV. Pormenor do Roman de la Rose, fol. 59v (ca. 1490-1500), Harley 4425.

Sabemos que o ideal de beleza da Idade Média é um corpo magro, tanto para homens quanto para mulheres. Esta concepção do físico magro estava intimamente ligada a uma ideia cristã de contenção pessoal – gordos seriam todos aqueles dados aos prazeres ou vícios da comida, e portanto pecadores por Gula. Não quer isto dizer que toda a gente fosse magra: a maioria da população sê-lo-ia, certamente, dada a maior necessidade de actividade física diária, por exemplo, a existência de padrões alimentares menos conducentes à acumulação de gorduras e outros factores, em comparação com os nosso hábitos modernos e sedentários. Gente mais cheia, no entanto, sempre a houve, e a Idade Média não é excepção a esta regra.

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Parte do arnês de Gianfrancesco Gonzaga I (ca. 1490-1495), Kunsthistorisches Museum Wien, WS A111. Prova provada de que até cavaleiros gordos havia.

O problema está na questão de proporcionalidade destes tipos de físico em recriação. À época, uma pessoa mais cheiínha seria pouco habitual, e uma francamente gorda seria uma raridade; hoje em dia, é quase raro achar quem não tenha alguma suavidade extra ao longo do ventre – ou quem não tenha simplesmente excesso de peso (contra mim falo, que fui  obeso em tempos idos). Embora a existência de um ou dois recriadores mais encorpados não traga grande mal ao mundo, o caso muda de figura quando temos reunidos grupos inteiros de recriadores com excesso de peso.  

Como resolver esta questão? Não sou ninguém para estar a dizer a outros para perderem peso para fazerem recriação, longe disso. Em bom Português: cada um sabe de si. A minha perspectiva pessoal, porém, é a seguinte: se é legítimo esperar que alguém perca peso para melhor poder praticar  um hobby – um desporto de combate, por exemplo -, considero legítimo esperar-se que um recriador faça o mesmo esforço na senda de um retrato historicamente correcto. Não é só a saúde que pode beneficiar com exercício físico e dieta – a recriação também.

Barbas e Cabelos

O mesmo princípio se aplica aos cabelos e (no caso masculino) aos pêlos faciais dos recriadores. O corpo é uma situação delicada, que não se resolve do dia para a noite. A condição física de cada um é resultado de vários factores em jogo (muitos dos quais com sobremaneira mais peso que as exigências da recriação) e, contas feitas, nem entra tanto em choque com a veracidade histórica quanto isso.

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Um dos cortes da moda do “recriador”. Fotografia do grupo Espada Lusitana (todos os direitos reservados ao autor original).

Já o mesmo não se pode dizer de barbas e cabelos, visto que uma ida ao barbeiro despacha logo o problema. As categorias problemáticas são, neste caso, duas. Estilos de cabelo e de barba modernos, por um lado  – cabelos pintados de cores não-naturais, cortes que não existiam na Idade Média – e cortes pseudo-históricos ou aplicados fora de época ou região  – cortes eslavos, ou barbas longas em período de cara escanhoada, ou cabelos longo “à Viking” (um particular e mui frequente flagelo). Ora, de que serve gastar milhares em roupa e restantes adereços se depois vamos borrar a pintura com um man bun azul-eléctrico? Obviamente, é difícil justificar hoje em dia certos cortes – o ‘corte à tigela’ de Henrique V lá voltou à moda, mas não me parece que certos outros estilos (o corte joanino/manuelino à pajem, por exemplo) venham a gozar de tanta sorte. Felizmente, a História é uma rica tapeçaria com um vasto leque de opções por onde escolher – com a vantagem de que os eventos de recriação não são assim tantos durante o ano, e o cabelo cresce num instante. Não há desculpas.

Bónus: Tatuagens e Piercings

Uma pequenina menção para piercings e tatuagens. Para os menos informados: a arte da tatuagem não se praticava na Europa durante a Idade Média. Ponto. As tatuagens eram tidas como sinais da barbárie. Muito menos haveria piercings, ou brincos em homens. Cavalheiros, ambas as coisas são para cobrir.

 

FONTES VISUAIS

Roman de la Rose (ca. 1490-1500). London: British Library, Harley 4425.

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