Um Reino de Cavaleiros a Mais

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Cavaleiros. Seja nos seus arneses e corcéis, seja nos seus brocados e atavios galantes, haverá figuras mais icónicas da Idade Média em toda a Europa? Não admira que, na hora de escolher o que recriar, toda a gente aponte logo para o topo da escala social. Este facto leva, por sua vez, a um exagero de contingentes de cavaleiros e de nobres em recriação face à realidade histórica – paradoxal exagero este, considerando a valente batelada de euros (ou unidade monetária da vossa escolha) que tais retratos custam.

Tendo dito isto, houve um reino onde os cavaleiros abundavam e desbundavam; um reino onde pouco bastou para que singrar na vida como cavaleiro fosse profissão viável de ascensão social garantida. Esse reino de cavaleiros a mais era Portugal no século XV.

Honra e proveito

Investigar a classe social que é a nobreza medieval é, em bom Português, uma santa confusão. Apesar de  terem correspondido a menos de 1% da população portuguesa no século XV, segundo se estima [1], dividiam-se numa multitude de gradações e denominações – algumas sociais, outras jurídicas, outras institucionais. À cabeça estavam os grandes – os infantes do reino, em primeiro lugar, todos eles duques no século XV; e depois os condes, os barões. Quase todos eles pertenciam à chamada “nobreza de sangue”: descendentes de grandes linhagens, algumas tão antigas (ou até mais antigas) do que o próprio reino.

A grande massa da nobreza, no entanto, eram os cavaleiros e escudeiros. Entre eles guardavam-se os descendentes desta grande nobreza – cavaleiros armados cavaleiros por reconhecimento do estatuto dos pais. Via consagrada, claro; mas longe de ser a única via de acesso a este patamar social.

Marrocos, a máquina de fazer cavaleiros

Antes dos inícios do século XV, ser-se cavaleiro em Portugal era uma honra e um privilégio reais. Não era cavaleiro quem queria, era cavaleiro quem podia e quem o rei assim determinava. As ocasiões para uma investidura eram aquelas que se esperavam: recompensas por grandes serviços prestados à Coroa (grandes feitos em batalha, geralmente), ou por serviços que se pretendiam vir a cobrar.

O cenário muda radicalmente após a conquista de Ceuta, em 1415. D. João I parecia já trazer consigo uma propensão para armar cavaleiros – recordemos que, antes da batalha de Aljubarrota, o monarca “fazia em tanto caualleiros quaaesquer que o seer queria” [2], situação que se repetiu em em Tui em Julho de 1398 [3] -, mas Ceuta foi o ponto de viragem completo na tradição dos adubamentos -as cerimónias de investidura da cavalaria. A tomada da cidade foi a ocasião propícia para D. João I armar os filhos cavaleiros, honra que se estendeu aos filhos de grande parte da nobreza próxima ao rei e a quem mais teve a sorte de apanhar o monarca em boa ocasião: D. João I armou ali tanto cavaleiro até que, segundo Zurara, “com emfadamento os leixou de fazer” [4].

Um extravazar de alegria, portanto, e uma nova fornada de cavaleiros. Não é aqui que encontramos o problema. O problema era que Ceuta, bastião isolado em África, era o único local para onde uma nobreza portuguesa habituada à guerra a podia ir praticar. Guerra com Castela, não a houve até 1475; o clima interno em Portugal, tirando o incidente de Alfarrobeira, foi grosso modo pacífico durante todo o século XV. Só em Marrocos havia feitos de armas a fazer, e fizeram-se: exemplo disso são as sucessivas campanhas em África, as cidades que se vão tomando, os desastres que se operam. Entre os grandes marcos bélicos vivem-se as pequenas escaramuças, os saques, o toca-e-foge da cavalaria ligeira. Com o rei na metrópole, quem arma cavaleiros em África? Por força lógica e logística, o delegado real no local: o capitão de Ceuta, D. Pedro de Meneses [5], e os capitães que se lhe seguem. É certo que são necessários homens no local,  e o grau de cavaleiro tem uma implicação muito prática (de que darei conta adiante). Mas as façanhas de guerra são muitas, os protagonistas idem, e as investiduras desvalorizam-se e tornam-se quase um pro-forma, um bónus de carreira que recompensa o serviço militar no além-mar.

Assim se chega a uma das vias principais, senão a principal, de atingir a cavalaria em Portugal no século XV. Em Marrocos armam-se cavaleiros a torto e a direito, pelo mais pequeno motivo – de tal forma que certos fidalgos se recusam a ser investidos por situações consideradas menos prestigiantes do que o desejado [6]. 

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Representação estereotipada de Afonso V de Portugal, o cavaleiro que mais cavaleiros fez, no Grand Armorial de la Toison d’Or.

“A mor parte da gente destes regnos”

Para além da via do sangue e da via marcial, havia ainda outro caminho de acesso à cavalaria. Afinal de contas, os serviços à Coroa estavam longe de se esgotarem na traulitada à mourama. Por isso, e numa época de cada vez maior complexificação administrativa e económica, também atingem o grau de cavaleiros muitos homens de letras, funcionários régios, cargos administrativos do reino e até (o horror! O desplante!) mercadores e burgueses de nomeada. A grande nobreza queixa-se destes verdadeiros “trampolins” sociais; o rei ignora e nada faz. Mentira, faz pior ainda: Afonso V distribui benesses como quem espera que o mundo acabe amanhã, e durante o seu reinado cria cavaleiros “em sobeja e desordenada regra” [7]. E um cavaleiro – qualquer cavaleiro – tem de ser pago pelos seus serviços.

Guardava-se em Lisboa um livro com o nome de todos os cavaleiros do reino. Servia este livro para duas coisas: confirmar o estatuto de cavalaria de uma dada pessoa, obviamente, e saber a quem devia o rei pagar um dado montante (uma “contia” ou uma “tença”) para assegurar que o cavaleiro dispunha de equipamento devido na altura de fazer a guerra e se mantinha em dignidade. Entre vários outros tipos de benesse e de mercês que só a cavaleiros se davam (para além de um soldo em campanha), é simples entender o resultado prático desta política : com tanto cavaleiro registado no livro, os cofres do reino mal davam para tanta bolsa. E que faz um novo-rico com um fluxo constante de dinheiro? Quem tem dinheiro gasta-o, esbanja-o, endivida-se. Faz triste figura de si mesmo quando é chamado para a guerra e mal tem meios para se levar a si, quanto mais soldados à sua conta. Ou, pior, nem dinheiro teria antes da sua escalada social, pelo que as contias e as tenças não dão para o gasto.  Dizem os grandes a Afonso V, nas cortes de 1472, a tentarem evitar estes cavaleiros pobretanas, esta “fidalguia de usurpação”: “Senhor, vossa alteza vê quanto é dissoluta a cavalaria em vossa terra e quanta despesa se vos delos segue (…) Vossa mercê queira em esto prover (…) que qualquer que fizer cavaleiro homem que não tenha conhecidamente por hu manter o estado da cavalaria do seu lhe dê per onde a mantenha, porque o direito da cavalaria assi o quer (…)” [8]. Cavaleiro que é cavaleiro tem de manter as aparências (já para não falar das obrigações), coisa difícil de fazer sem dinheiro na carteira.

Convém por fim mencionar os escudeiros e os vassalos. Já referi, atrás, que os havia da clássica nobreza de sangue. Nesta época surgem também muitos escudeiros que o não são, de entre o povo: cavaleiros-vilões a quem o título assenta bem, ou burgueses endinheirados que assumem a distinção não se sabe bem por alma de quem. Não estão à espera do dinheiro das contias. A esta camada interessam sobretudo os privilégios sociais e fiscais do “rótulo” – isenções de pagamentos e de certas obrigações-, a que deitam mão assim que podem.

Não admira portanto que, em 1482, D. João II desabafasse com os capitães de Marrocos sobre os desatinos cavaleirescos do país (a maior parte deles culpa do pai), dizendo: “A mor parte da gente destes regnos são cavaleiros” [9]. Exagero, claro está, mas com a sua razão de ser.

 

[1] Vejam-se as estimativas em Sousa, A. (2007). A Monarquia Feudal (1096-1480). História de Portugal, Volume IV. Rio de Mouro: Círculo de Leitores, pp. 145-147.

[2] Lopes, F. (1977). Crónica del Rei Dom João I da boa memória. Parte Segunda. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, cap. XXXIV, p. 71. Fernão Lopes acrescenta, adiante, que estes cavaleiros não eram todos oriundos da nobreza, como seria de esperar.

[3] Lopes, F. (1977), op. cit., cap. CLXXIV, p. 374.

[4] Zurara, G. (1915). Crónica da tomada de Ceuta por el rei D. João I. Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, cap. XCVI, p. 25.

[5] Veja-se Duarte, L. M. (2003). “África”. Em Teixeira, N., e Barata, M. Nova História Militar de Portugal. Volume 1. Rio de Mouro: Círculo de Leitores, p. 414.

[6] “Os jovens dão-se ao luxo de recusarem ser armados cavaleiros, depois de uma peleja, porque ela não lhes pareceu suficientemente heróica, e porque era certo e sabido que, poucos dias depois, haveria nova oportunidade”, em Duarte, L. M. (2003), op. cit., p. 415.

[7] Veja-se a afirmação no primeiro dos Capítulos Gerais do Povo das Cortes de 1472-1473, em Dias, D. (2014). As Cortes de Coimbra e Évora de 1472-73 – Subsídios para o estudo da política parlamentar portuguesa [Dissertação de Mestrado]. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, p. 124.

[8] Capítulos Gerais da Nobreza, em Dias, D. (2014), op. cit., p. 110.

[9] Chaves, A. (1983).  Livro de Apontamentos (1438-1489). Lisboa: Imprensa Nacional da Casa da Moeda, p. 170.

 

BIBLIOGRAFIA

Chaves, A. (1983).  Livro de Apontamentos (1438-1489). Lisboa: Imprensa Nacional da Casa da Moeda

Dias, D. (2014). As Cortes de Coimbra e Évora de 1472-73 – Subsídios para o estudo da política parlamentar portuguesa [Dissertação de Mestrado]. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Lopes, F. (1977). Crónica del Rei Dom João I da boa memória. Parte Primeira. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda

Sousa, A. (2007). A Monarquia Feudal (1096-1480). História de Portugal, Volume IV. Rio de Mouro: Círculo de Leitores

Teixeira, N., e Barata, M. (2003). Nova História Militar de Portugal. Volume 1. Rio de Mouro: Círculo de Leitores

Zurara, G. (1915). Crónica da tomada de Ceuta por el rei D. João I. Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa

FONTES VISUAIS

Anónimo (segunda metade do século XV). Grand Armorial de la Toison d’Or. Paris: Bibliothèque nationale de France, Ms-4790 réserve

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