Roupa Masculina V – Calçado

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Com todos os elementos basilares do vestuário tratados, falta-nos apenas tratar de uma parte fundamental do corpo: os pés. Como era o calçado do quotidiano do homem do século XV? 

Materiais e Construção

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O sapateiro Ott Norlinger (1476), retratado no Hausbuch der Mendelschen Zwolfbruderstiftung de Nuremberga.

O couro é uma as matérias-primas mais versáteis de toda a Idade Média. É o material por excelência dos cintos, bolsas e, fundamentalmente, do calçado.  O couro mais acessível à raia-miúda para fazer sapatos seria o couro vacum, bem untado [1]. Embora os couros pudessem ser tingidos, dificilmente os homens do povo fariam uso de couros que não nas suas cores naturais, ou, se coloridos, pretos esbatidos e castanhos — as duas cores de mais fácil obtenção. A seguir ao couro vacum vinha a pele de carneiro [2], e depois o cordovão, amplamente difundido entre o povo, obtido a partir de “pele de cabra macerada e não curtida” [3] e tingida numa miríade de cores – sendo vermelhos sempre favoritos. No topo da escala dos materiais vinham as peles finas, de gamo ou de cervo, reservadas aos mais endinheirados [4].

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Pormenor de atilhos interiores no Ecce Homo do Mestre de Schotten (ca. 1469-1475).

Depois de desenhadas sobre o couro, de forma a fazer render o máximo de material possível, as peças do sapato medieval eram transferidas para cima de um molde em madeira e cosidas com fio de linho encerado. O sapato era então virado, de dentro para fora, ocultando as costuras no interior [5]. O sapato medieval, mais fino do que os sapatos modernos – particularmente na sola -, funciona de certa forma como uma meia em couro, permitindo muito maior liberdade de tacto ao pé. Consequentemente, também se degrada mais rapidamente, e requer substituição mais regular.

Diferentes Tipos, Diferentes Nomes, Diferentes Ocasiões

Como quase todos os objectos da época, os sapatos obedeciam a um escalonamento social – em termos de decoração, em termos de requinte (ou falta dele), e em termos de morfologia. Os diferentes registos históricos de que dispomos – inventários, tabelamentos de preços, iconografia – permitem-nos ter uma ideia bem formada sobre os vários tipos de calçado disponíveis ao homem do século XV. Tendo dito isto, e à boa e velha maneira medieval, verifica-se alguma confusão entre fontes históricas e os trabalhos académicos que as analisam: os borzeguins, por exemplo, encontram-se listados em tabelas de preços e disposições municipais juntamente com outro calçado raso (vulgo sapato), mas aparecem descritos tanto como sapatos como como um subtipo de bota; os chapins ora nos surgem como simples calçado de rua, ora em jeito de elegante sandália. Ao listar os diferentes tipos de sapato, portanto, anotarei as discrepâncias de nomenclatura que fora apanhando. Caveat lector!

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Todo um universo de calçado. Da esquerda para a direita: sapatos, borzeguins, botas, sapatos, pontilhas. Pormenor do quadro A Flagelação de Cristo, de Jaume Hughet (ca. 1450).

Socos

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Socos no degrau e servilhas nos pés. Pormenor da “Avareza” no Roman de la rose  (ca. 1490-1500).

Para o pobre camponês de Quatrocentos, era mais económico investir em toscos mas muito resistentes socos de madeira – com um corpo totalmente em madeira, ou com uma sola em madeira à qual se pregava um topo de couro. Custear socos parece ter exigido um pagamento similar a um bom par de sapatos [6], contrariando no entanto a necessidade de substituição.

Sapatos

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Sapato de finais do século XIV, encontrado no rio Tamisa. Museu de Londres, A3661.

Os modelos mais comum de sapato do século XV são os sapatos, com algum cano como sem cano praticamente nenhum. Podiam ser decotados no peito do pé e apertados sob o tornozelo – alguns autores defendem que a este tipo de sapato se chamaria borzeguim, embora estejam em clara minoria face a quem o considera um tipo de bota (ver abaixo). As biqueiras dos sapatos são habitualmente pontudas, ao gosto da época, embora se encontrem também com biqueiras mais arredondadas, dependendo da bolsa de cada um e da moda du jour. Os sapatos eram apertados por simples cordões ou atilhos de couro ou fivelas. Havia um tipo específico de sapato, chamado gramaia, tido em boa conta pelos mais favorecidos: Apesar da semelhança entre uns e outros, as tabelas de preços de calçado quatrocentistas demonstram claramente uma expressiva diferença de preço entre as gramaias e os simples sapatos [7] – embora não nos seja possível determinar, hoje em dia, o que é que essa diferença representava em termos práticos.

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Vários sapatos na tapeçaria Entrada em Tânger (ca. 1475). Note-se o pormenor dos dedos salientes contra o couro, que demonstra a finura dos materiais usados.

Pontilhas

As pontilhas, ou sapatos de ponta, são o sapato elegante da época por definição. Em comparação com o sapato regular, a única diferença concentra-se acima de tudo na biqueira aguçada – a pontilha – que dá ao nome ao modelo. A ponta de couro era enchumaçada com material vário: musgo, lã cardada, pêlo de animais vários [8]. No final do século XV, não era já tão comum a ponta encontrar-se virada para cima, ao contrário de décadas anteriores; encontra-se geralmente a direito, apenas ligeiramente arrebitada na ponta.

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Sapatos (esquerda) e pontilhas (direita) no Traité de la forme et devis comme on peut faire les tournois de René I d’Anjou (ca. 1460).

Botas, Botins e Borzeguins

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Pormenor das botas de D. Afonso V no Painel do Infante dos Painéis de São Vicente (ca. 1470).

O botim do século XV – também chamado de osa – , na sua configuração mais simples, acrescenta apenas algum cano ao típico sapato. Mantém a justeza ao pé e a possibilidade de biqueira redonda ou pontuda. Também como os sapatos, os botins seriam apertados por cordões de couro ou fivelas, lateralmente ou à frente.

A bota alta mantém a mesma morfologia no pé, mas é muito mais solta no cano – as representações coevas mostram os cordões ou fivelas a puxar o material em excesso contra a perna. A bota alta é apanágio da nobreza. Não se trata apenas de uma questão de custo, que uma peça tão grande e trabalhosa certamente tinha [9]: a bota de cano alto é o melhor calçado para montaria, e surge associado de forma indelével à figura do cavaleiro ligeiro na Europa – mais especificamente o ginete, em Portugal [10].

Temos, por fim, o borzeguim. Como já mencionei, parece por vezes haver algumas incertezas em relação ao termo [11], já que borzeguim tende a significar uma bota até ao joelho – apesar de ser geralmente listado junto de sapatos rasos. Ao contrário de outros tipos de bota, os borzeguins parecem ter sido feitos de cordovão macio, incrivelmente justos ao contorno da perna [12]. Por esse motivo, os borzeguins quase nunca apresentavam cordões ou fivelas – embora pudessem ser apertados por atilhos na lateral, para assegurar um maior ajuste ao contorno inferior da perna. Podia ir desde o topo do tornozelo até ao topo da perna, como já se tinha mencionado, e apresentar-se de rebordo revirado. São, enfim, o sapato caro e de bom gosto por definição [13].

Servilhas e Pantufos

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Possíveis pantufos no Ecce Hommo da oficina de Fernando Gallego (ca. 1480-1500).

Peças de calçado algo misteriosas, as servilhas ou pantufos são essencialmente chinelos ou sandálias – solas de madeira com alças ou biqueiras de couro. É difícil determinar de que modo diferiam as servilhas e os chapins, por exemplo. Já os pantufos parecem ter sido os antepassados da moderna pantufa ou chinelo de trazer por casa. Tanto uns como outros eram no entanto usados sempre em conjunto com o demais calçado, tanto em ambiente doméstico como na rua.

Chapins

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Pormenor de chapins no quadro O Casal Arnolfini (ca. 1434).

Os chapins são a resposta medieva à lama e sujidade dos caminhos e vielas da urbe. Assemelhavam-se a sandálias com uma sola alta e grossa de madeira ou cortiça, com uma ou duas tiras de couro nas quais é enfiado o pé calçado [14]. Os chapins são transversais à sociedade, usados por toda a gente desde os pequenos mesteirais aos grandes senhores.

Decoração

O sapato do homem comum pouca ou nenhuma decoração teria, para lá da escolha de uma cor mais fora do normal, ou de uma bonita fivela. Para os estratos superiores da sociedade, no entanto, o sapato era veículo apto a receber toda uma série de formas decorativas – recortes, bordados, estampagens e gravações sobre o couro, forragem em tecidos caros, entre outras [15].

O Calçado em Recriação

Solas. Solas, solas, solas. São sem dúvida o maior problema na recriação de calçado medieval, pura e simplesmente porque os nossos mimados pezinhos modernos estranham a soltura e falta de protecção contra a rugosidade do solo. Solas grossísimas são uma asneira tremenda, ainda mais se pregadas ao resto do sapato. Deve também ser prestado o máximo de atenção ao modelo usado. É frequente tomarem-se por aceitáveis modelos de séculos anteriores – sapatos normandos, sapatos ditos “vikings” –  cuja semelhança com os sapatos e botins do século XV é muito mais do que superficial.

O calçado em recriação é como o calçado moderno: o barato sai caro. Se há departamento onde não se podem fazer poupanças, esse departamento é o calçado. Antes dois bons pares de sapatos nos pés que uma espada catita nas mãos.

[1] Oliveira Marques, A. (2010). A Sociedade Medieval Portuguesa – Aspectos do Quotidiano. Lisboa: Esfera dos Livros, p. 67.

[2] Vejam-se as várias disposições legais sobre preços e materiais de sapatos medievais em Ferreira, S. (2007). Preços e Salários em Portugal na Baixa Idade Média [Tese de Mestrado]. Porto: Faculdade de Letras do Porto, pp. 114-118.

[3] Oliveira Marques, A. (2010), op. cit., p. 67.

[4] Pelo menos com base nas disposições e preços tabelados para o início do século, em Ferreira, S. (2007), op. cit., pp. 114-115.

[5] Sobre a construção do sapato medieval, veja-se Grew, F., De Neergaard, M. (2001). Shoes and Pattens – Museum of London. The Boydell Press: Woodbridge, pp. 46-51.

[6] O soco também poderia ter sido feito com um topo de cordovão. Vejam-se a comparação de valores entre socos e sapatos na postura portuense de 1482: “80 reais
para o par de borzeguins (o mesmo de 1480, na comarca de Entre Tejo e Guadiana) ou socos e de 12 a 32 reais por par de sapatos”. Em Ferreira, S. (2007), op. cit., p. 116. É também possível que, à velha e boa maneira medieval, se assista aqui a alguma coisa confusão de nomenclatura entre socos e chapins, por exemplo.

[7] “O termo gramaia designava um tipo de sapato, distinto da pontilha mas tão caro como ela”. Em Oliveira Marques, A. (2010), op. cit., p. 67.

[8] “Em 1480, num tabelamento ordenado por D. Afonso V para a comarca de Entre Tejo e Guadiana, apenas se referem o cordovão e o carneiro como matérias-primas, sendo que o cordovão continuava mais dispendioso (…) Entre 80 reais do maior par de borzeguins de cordovão e 19 reais de um par de servilhas de carneiro ia uma diferença de 321%”. Ferreira, S. (2007), op. cit., p. 116.

[8] Veja-se Goubitz, O. et al. (2007). Stepping Through Time: Archaeological Footwear from Prehistoric Times Until 1800. Zwolle: Stichting Promotie Archeologie , p. 30.

[9] Ferreira, S. (2007), op. cit., pp. 114-115. Novamente, ficamos limitados ao início da centúria, mas a lógica dita que estas tendências – que ainda hoje se verificam – se tenham mantido ao longo de Quatrocentos.

[10] Daí a sua inclusão em grande quantidade, por exemplo, nas Tapeçarias de Pastrana, ou na estátua jacente de D. Duarte de Meneses.

[11] Oliveira Marques, A. (2010), op. cit., p. 68.

[12] “Borzeguim – Calçado. Bota de cano alto, que pode chegar até meio da perna, usualmente em couro, que se ata com cordões.”. Em Oliveira, A. e Fernandes, I. (2004). ‘Ofícios e mesteres vimaranenses nos séculos XV e XVI’. Em Revista de Guimarães, 113/114. Guimarães: Sociedade Martins Sarmento, p. 182. A edição de 1913 do Novo Diccionário da Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo vai exactamente na mesma direcção. Veja-se Cândido de Figueiredo, A. (1913). Novo Diccionário da Língua Portuguesa. Lisboa: Livraria Clássica.

[13] “Em 1480, num tabelamento ordenado por D. Afonso V para a comarca de Entre Tejo e Guadiana, apenas se referem o cordovão e o carneiro como matérias-primas, sendo que o cordovão continuava mais dispendioso (…) Entre 80 reais do maior par de borzeguins de cordovão e 19 reais de um par de servilhas de carneiro ia uma diferença de 321%”. Em Ferreira, S. (2007), op. cit., p. 116.

[14]  Veja-se de Oliveira, A. and Fernandes, I. (2004). ‘Ofícios e mesteres vimaranenses nos séculos XV e XVI’. Em Revista de Guimarães, 113/114. Guimarães: Sociedade Martins Sarmento, p. 187.

[15] Um bom resumo destas técnicas, com vários exemplos, em Grew, F., De Neergaard, M. (2001). Shoes and Pattens – Museum of London. The Boydell Press: Woodbridge, pp. 75-89.

BIBLIOGRAFIA

Ferreira, S. (2007). Preços e Salários em Portugal na Baixa Idade Média [Tese de Mestrado]. Porto: Faculdade de Letras do Porto

Goubitz, O. et al. (2007). Stepping Through Time: Archaeological Footwear from Prehistoric Times Until 1800. Zwolle: Stichting Promotie Archeologie 

Grew, F., De Neergaard, M. (2001). Shoes and Pattens – Museum of London. The Boydell Press: Woodbridge

Oliveira, A. and Fernandes, I. (2004). ‘Ofícios e mesteres vimaranenses nos séculos XV e XVI’. In Revista de Guimarães, 113/114. Guimarães: Sociedade Martins Sarmento, pp. 43-209

Oliveira Marques, A. (2010). A Sociedade Medieval Portuguesa – Aspectos do Quotidiano. Lisboa: Esfera dos Livros

Madrazo, C. (1979). Trajes y modas en la España de los Reyes Católicos: II, Los hombres. Madrid: Instituto Diego Velázquez

Madrazo, C. (1962). Indumentaria española en tiempos de Carlos V. Madrid: Instituto Diego Velázquez

FONTES VISUAIS

Anónimo (ca. 1475). Entrada em Tânger [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/The_taking_of_Tangier_(Toma_de_Tánger)

Anónimo (ca. 1490-1500). Roman de la Rose. London: British Library, Harley 4425.

Gallego, F. (1480-1500). Ecce Hommo [óleo em madeira]. Tucson: University of Arizona Museum of Art

Gonçalves, N. (ca. 1470). Panéis de São Vicente [óleo e têmpera em madeira]. Lisboa: Museu Nacional de Arte Antiga. Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Painéis_de_São_Vicente_de_Fora#/media/File:Lagos40_kopie.jpg

Hausbuch der Mendelschen Zwolfbruderstiftung (finais do século XIV a inícios do século XVI). Nuremberga: Stadtbibliothek Nürnberg

Hughet, J. (ca. 1450). Flagelação de Cristo [óleo em madeira]. Paris: Musée du Louvre

Mestre de Schotten (1469-1475). Ecce Hommo [óleo em madeira]. Viena: Schottenstift 

van Eyck, B.  (?) (ilust.) (ca. 1460). Traité de la forme et devis comme on peut faire les tournois. Paris: Bibliothèque nationale de France, Français 2695

van Eyck, J. (1434). O Casal Arnolfini [óleo em madeira]. Londres: National Gallery

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