Túmulo e Jacente de D. Fernão Teles de Meneses

Due to this article’s length, I thought it wise to publish the English and Portuguese versions separately. For the English version, please click here.

No decorrer do meu trabalho de campo para doutoramento, tive a oportunidade de visitar há alguns dias a igreja do Mosteiro (também conhecido como Palácio) de São Marcos, em Coimbra, onde se encontra o magnífico jacente de D. Fernão Teles de Meneses. Aqui coloco ao vosso dispor algumas das fotografias que tirei ao cavaleiro, e também breves notas sobre a sua vida.

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Perspectiva geral do túmulo de D. Fernão Teles de Meneses.

BREVE NOTA BIOGRÁFICA

D. Fernão Teles de Meneses, também conhecido como Fernão Teles ou Fernão Silva, foi o 4º senhor dos domínios de Unhão, Gestaçô, Cepães, Meinedo e Ribeira de Soaz. Era filho de Aires Gomes da Silva, 3º senhor de Vagos, e de D. Beatriz de Menezes.

Com 17 anos, Fernão participou na Batalha de Alfarrobeira, que opôs o jovem rei D. Afonso V ao antigo regente, o Infante D. Pedro. Participou ao lado do pai e do irmão mais velho, ambos do lado do Infante, o que fez com que perdesse o direito à herança paterna. Entre 1452 e 1454 esteve por terras de Ceuta com o irmão, ao serviço da coroa. O serviço parece ter obtido os seus frutos: obteve a doação de juro e herdade dos lugares de Unhão, Cepães e Meinedo, nas mesmas condições com que tinham sido do seu pai, além da terra de Soaço e alguns terrenos em Santarém. Foi, para além disto, alcaide do Castelo de Sintra, cargo a que renunciou a 6 de Abril de 1461.

Fernão Teles de Meneses foi participante assíduo nas campanhas em Marrocos. Tomou parte na conquista de Alcácer-Ceguer em 1458 e nas duas tentativas falhadas de tomar Tânger em1463. Em 1464 partiu para a Catalunha, em serviço de recrutamento para exército de D. Pedro, rei de Aragão. Com tropas portuguesas e castelhanas, o fidalgo participou em vários combates próximos Barcelona e Gerona. Por entre confrontos com a Generalitat, é nomeado capitão-geral da zona dos Pirinéus, governando as vilas de Camprodon, São João das Abadessas, Ripoll, e os castelos de La Guardia, La Roca e Blanca; e mais tarde capitão-geral da província do Ampurdão e do Bispado de Gerona. Após a morte de D. Pedro, regressa a Portugal em 1469 e em 1471 encontra-se no exército afonsino que conquista Arzila, operação em que se destaca com garbo e valentia. Os cargos e as honrarias sucedem-se: em 1474, consta dos registos históricos como governador da casa da Princesa Joana; em 1475, D. Afonso V concede-lhe posse de todas as ilhas que Fernão descobrir no Atlântico. Em 1476, o fidalgo participa também na Batalha de Toro.

É peculiar que, para tão extensa e destacada carreira militar, D. Fernão Teles de Meneses acabe por vir a falecer em 1477, vitimado por uma pedra lançada numa briga de rua em Alcácer do Sal. Um fim tristemente irónico para um dos melhores e maiores cavaleiros portugueses de todo o século XV.

O TÚMULO E O JACENTE

O túmulo de Fernão Teles de Meneses foi instalado na igreja do Mosteiro de São Marcos, instituído em 1448 pela sua mãe, D. Beatriz de Meneses (que também se encontra ali tumulada, junto ao altar). É obra de um dos maiores escultores góticos do século XV português, Diogo Pires-o-Velho, e um dos expoentes máximos da arte tumular em Portugal. 

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O jacente arnesado.

O jacente do cavaleiro, completamente arnesado e coberto com uma cota de armas, encontra-se inserido sob um arcossólio em forma de baldaquino, muito ao gosto italiano. O nível de detalhe técnico da execução do conjunto – arca feral, baldaquino e jacente – é absolutamente fenomenal.

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Pormenor dos avambraços do jacente, com  lâminas secundárias dos codais e representação estilizada de dobradiças junto ao pulso.
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As armas do cavaleiro, gravadas nas mangas da cota de armas.
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Pormenor da garganta. Notem-se os atilhos do colarinho do gibão fielmente reproduzidos por entre a malha metálica.

Apesar disso, devem ressalvar-se alguns pequeninos pormenores errados ao nível do funcionamento da armadura retratada, nomeadamente codais demasiado justos ao braço, ou ligeiros desvios das habituais proporções das joelheiras em relação a armamentos reais, por exemplo.

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Apesar da sua forma elegante e atraente, os codais necessitariam de ser menos fechados e justos ao braço para serem totalmente funcionais.
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Vista lateral da joelheira e da sua asa. A placa de joelheira em si apresenta-se ligeiramente mais redonda e suave do que deveria ser na realidade. Atente-se novamente nos gonzos estilizados do coxote e da greva.
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Pormenor dos sapatos de ferro do cavaleiro.

É necessário salientar a pequenez, quase picuinhice, destes detalhes: apesar deles, a efígie de D. Fernão Teles de Meneses continua a ser uma excelente representação do equipamento dos cavaleiros portugueses no terceiro quartel de Quatrocentos.

BIBLIOGRAFIA

Moreno, H. (1980). A Batalha de Alfarrobeira. Antecedentes e Significado Histórico. Coimbra: Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra

Dias, P. (1982). A arquitectura de Coimbra na transição do Gótico para a Renascença. 1490-1540. Coimbra: EPARTUR-Edições Portuguesas de Arte e Turismo, Lda

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