Armadura Quatrocentista Portuguesa II – A Adarga

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Um símbolo de confronto, mas também de contacto. Uma peça rude e singela, mas também nobre e ornada. Arma de combate, peça de lazer. A adarga é tudo isto, e muito mais. Neste artigo vamos explorar a fundo esta peça tão única do arsenal ibérico do século XV.

Descrição e Origens

A adarga, cujo nome provém do termo árabe daraq (escudo) [1],  é uma peça de equipamento típica magrebina,  criada pelos Bérberes e amplamente usada por eles tanto no norte de África como na Península Ibérica.  É um escudo leve, “feito em pele de vaca, ónagro ou antílope, e não em madeira”[2], ao contrário dos escudos europeus; pele essa colada e cosida, e potencialmente endurecida. A típica adarga apresenta, na parte traseira, uma pega constituída por duas pequenas tiras de couro para serem seguradas com a mão. Nos pontos de fixação destas tiras ao corpo do escudo são colocadas borlas e/ou chapas decorativas.

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Adargas na Cantiga 181 no Códice Rico das Cantigas de Santa Maria (ca. 1280).

Apesar de os primeiros daraq peninsulares serem circulares [3], o escudo a que damos de forma plena e segura o título de adarga surge apenas no século XIII. A adarga dessa época tem a forma aproximada de um coração, afunilando em direcção ao fundo. As primeiras e melhores representações desta tipologia encontram-se nalgumas iluminuras das Cantigas de Santa Maria de Afonso X, de meados do século XIII (acima). Vê-se aqui claramente o formato, as típicas borlas decorativas pendentes, e ainda o tradicional esquema de cores – brancos e vermelhos – com que se tingiam os couros exteriores das adargas [4].

Não se sabe bem o que terá potenciado uma alteração de formato, mas pelo menos a partir de inícios do século XIV a adarga passa  a adquirir o seu característico formato bi-oval [5], que manterá até ao seu abandono completo.

Santiago Matamouros
Adargas muçulmanas no alto-relevo Santiago combatendo os Mouros (ca. 1317-1332)

 

Adarga from Granada - 15th century - Kunsthistorisches Museum, Vienna.png
Adarga nazarí (ca. 1490?), Kunsthistorisches Museum Wien, HJRK_C_195.

Juntamente com a azagaia, a adarga era uma das peças de equipamento características da cavalaria moura na Península Ibérica, presente no arsenal muçulmano ibérico até à queda do reino nazarí de Granada em 1492. Uma das mais antigas adargas (se não a mais antiga) que se conservaram até hoje é, aliás, uma belíssima adarga nazarí que terá provavelmente sido tomada como troféu de guerra após a conquista de Granada, e que as vicissitudes do destino depositaram em Viena, no Kunsthistorisches Museum. O reverso da peça – visível ao seu utilizador – apresenta-se profusamente decorado com os arabescos e padrões geométricos tão típicos da arte muçulmana, em conjunto com uma invocação de Alá correndo ao longo de todo o bordo. Por aqui se vê que, apesar da sua singeleza exterior, a adarga muçulmana podia em certos casos (e em certas classes) mostrar-se ricamente ornada [6]. 

A Adarga Cristã

S Jorge
São Jorge e o dragão. Pormenor de iluminura do Breviário de Martim de Aragão (ca. 1398-1403)

É difícil precisar quando é que a adarga foi adoptada pelos reinos cristãos. A julgar por alguma iconografia coeva (como o exemplo à direita), parece mais do que legítimo dizer-se que se terá dado “uma aculturação da adarga no equipamento militar cristão, sobretudo, a partir de finais do século XIV” [7]. Parece-me lícito supor que este processo de adopção tenha começado no leste da Península – nas áreas de contacto com Granada – e alastrado para oeste. Dada a sua presença maioritariamente em mãos de santos, no entanto, torna-se difícil avaliar o uso concreto da adarga nos reinos cristãos da Península. Quem faria uso delas nessa primeira fase, e quando, e em que circunstâncias? Onde e como se produziam? Impossível dizer, neste momento. É preciso avançar até meados do século para começarmos a ver, na arte castelhana e aragonesa, a adarga em uso pela soldadesca.

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Pormenor do quadro São Tiago combatendo os Mouros (início do século XVI)

 Mais leve do que o habitual escudo de madeira, “a eleição da adarga está ligada, sobretudo, ao seu peso ligeiro e fácil transporte, o que permitia à infantaria maior mobilidade mas sem prescindir de defesa. É popular  entre os soldados que a usam e preferem, por ser simples, eficaz e pouco dispendiosa”[8]. Apesar da semelhança morfológica, a iconografia cristã sugere  duas pequenas alterações à adarga cristã. A primeira é o descarte, não total mas frequente, das borlas/chapas decorativas na frente da adarga. A segunda, muito mais importante, é a alteração da empunhadura: em paralelo com a pega de mão da adaga magrebina, há indicações dos séculos XV e XVI que revelam um alargar das alças para serem usadas como num escudo de madeira – uma alça para passar o braço, outra para segurar na mão, com almofadagem para o antebraço [9]. Podemos observar este método de embraçamento, por exemplo, no quadro português São Tiago combatendo os Mouros (à direita) ou A Traição de Cristo de Fernando Gallego (ca. 1460-1488). Na Ressurreição do conjunto de oito painéis têxteis conhecidos como Sargas de Oña, provenientes do mosteiro de San Salvador de Oña, pode ainda ver-se uma forma de enbraçamento muito mais europeia, com as alças dispostas ao longo do eixo central vertical do escudo. Perdia-se assim a mobilidade giratória da adarga, (uma das suas maiores valências), podendo no entanto ganhar-se em estabilidade.

É com esta morfologia – com ou sem alterações – que, no último quartel do século, a adarga se torna o escudo por definição do ginete, esse corpo de cavalaria ligeira ele próprio adaptado da cavalaria muçulmana na Península e no Norte de África. De retábulos a murais e até a altos relevos no Alhambra de Carlos V, a adarga torna-se, enfim, uma das mais distintivas marcas da representação militar da Ibéria quatrocentista.

A Arma do “Outro”

Mas a adarga não deixa também de ser um elemento característico das representações de soldados granadinos. “Estas armas, na esmagadora maioria dos casos analisados, servem como o principal meio utilizado pelos artistas para frisar uma distinção entre os exércitos cristãos e muçulmanos. Pois, se é verdade que os exércitos mouros recorrem a outras tipologias de defesas exteriores, estas não se reflectem nas fontes iconográficas, já que apenas as adargas são incluídas, com excepção das pinturas da conquista de Maiorca e de algumas personagens das Tapeçarias de Pastrana” [10].

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Esquerda: Pormenor do quadro Ecce Homo de Nicolás Francés (ca. 1434); Centro: pormenor do retábulo dos Santos Abdon e Senén de Jaume Hughet (ca. 1460); Direita: pormenor do retábulo de Santo Estevão de Paul Vergós (ca. 1491-1492). Todas as fotografias por Bonifacio Esteban. Todos os direitos reservados ao artista.

Verifica-se também uma certa tendência para, desde meados do século XV até meados do século XVI, incluir a adarga em representações dos soldados na Ressurreição de Cristo ou em representações hagiográficas (vejam-se os exemplos acima). Esta tendência encontra-se presente tanto na pintura peninsular como na pintura flamenga. Além do Verfremdungseffket já assinalado, é conferida na iconografia coeva um cunho “exótico” ou “arcaizante” à adarga, comum a outras peças de equipamento defensivo estrangeiras ou obsoletas.  Parte deste cunho terá com grande probabilidade a ver com a sua origem muçulmana: a adarga é o símbolo do “infiel”, do “inimigo de Cristo” e, por conseguinte, aplicável (juntamente com outros símbolos) aos Romanos das cenas bíblicas, ou aos inimigos da Cristandade em geral. Assinala com clareza ao leitor treinado o papel representado por quem a porta. 

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Pormenor do painel central do Trípico da Ressurreição de Hans Memling (ca. 1490).

É importante ressalvar que, ao contrário do que normalmente se pensa, a adarga não era totalmente desconhecida para lá dos Pirinéus. Prova disso é a sua presença nalguma iconografia estrangeira [11], particularmente flamenga [12] (o que não é de estranhar tendo em conta os laços comerciais e culturais entre a Península e a Borgonha). Apesar disso, e como equipamento defensivo em si mesmo, a adarga não parece ter gozado de qualquer sucesso fora da Península.

“Proues cousas”? – A Adarga em Portugal

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Soldado armado de dardo e adarga. Pormenor da tapeçaria Desembarque em Arzila (ca. 1475).

No caso português, a adarga parece ser uma contradição plena. É peculiar ver como a cronística portuguesa de Quatrocentos se lhe refere – mal e pobremente, em sentido tanto literal quanto metafórico. As referências à peça contam-se literalmente pelos dedos de uma mão: cinco instâncias no total,  das quais uma na Crónica de D. João I e quatro na Crónica de Duarte de Meneses [13]. Numa dessas referências, a adarga é parte integrante de um conjunto de armas descartadas pelos mouros, um conjunto de “proves cousas”, armamentos sem valor. Paulo Agostinho faz uso desta escassez de menções, e desta última nota em particular, para sugerir o “pouco valor que as adargas vulgares teriam aos olhos dos Portugueses” [14]. De igual forma, Inês Araújo, no seu estudo sobre as Tapeçarias de Pastrana, aponta que “As referências à adarga na cronística portuguesa do século XV são escassas (…) Também na Carta de Quitação ao almoxarife do Armazém Régio de Lisboa de 1455, não foi registada a existência de qualquer adarga. Quer isto dizer que o exército português praticamente não utilizava adargas?” [15]

Peculiares afirmações de Paulo Agostinho, interessante pergunta de Inês Araújo. A resposta a ambas parece ser sugerida por outros elementos – iconográficos, por um lado, e documentais, por outro.  Por um lado, para além da sua forte presença castelhana e aragonesa, a adarga surge em várias das poucas obras de arte que nos chegaram do século XV e de inícios do século XVI – as Tapeçarias de Pastrana, claro, mas também o magnífico Tríptico de Santa Clara, os frescos de Santa Marinha, ou a Ressurreição de Cristo de Gregório Lopes. Surgem em contexto bíblico, sim, mas integradas com armamentos europeus – ou seja, sem um Verfremdungseffket vincado, o que sugere a sua habitualidade no meio português.

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Esquerda: Pormenor do painel central do Tríptico de Santa Clara (ca. 1486); Centro: pormenor de um fresco na igreja de Santa Marinha, em Vila Marim (finais do século XV – início do século XVI); Direita: pormenor do quadro Ressurreição de Cristo de Gregório Lopes (ca. 1539-1541).

Mas talvez mais importante do que isso é a presença explícita de adargas em posturas concelhias (como é o caso de uma vereação portuense de 29 de Junho de 1475 [16]) ou em inventários de armamento local (como é o caso das duas adargas listadas no Caderno das Armas que se acharam na villa da Redinha e seu termo, de cerca de 1545 [17]). O que este cenário (fragmentário) parece indicar é a presença regular da adarga no quotidiano português – e daí decorre, por força lógica, o seu uso em batalha.  A sua não-inclusão na Carta de Quitação de 1455 poderá dever-se a outro factor: a adarga, por mais útil que

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Adarga mexicana (segunda metade do século XVIII), Metropolitan Museum of Art, 14.25.752.

seja, não deixa de ser uma “proue cousa” – um equipamento de defesa leve, descartável, económico, que o combatente pode ter em casa, manter e trazer por si próprio, em vez do normal escudo ou do pavês, mais elaborados e guardados em arsenal.

E falando em escudo: é necessário ressalvar uma possível uma influência da adarga na morfologia do velho escudo europeu, já que nas Tapeçarias vemos vários exemplares (e até algumas adargas) com o antigo formato em coração. Uma continuidade bizarra, também ela uma potencial linha de investigação.

 

Apesar de tudo isto, a adarga parece ter sido completamente descartada por parte do exército português nos meados do século XVI. Não tenho meio de poder avançar com um porquê. Em Espanha, manteve-se ainda militarmente em uso durante vários séculos [18], principalmente nos domínios espanhóis do Novo Mundo, onde se tornou uma das peças típicas da cavalaria ligeira espanhola [19].

Adargas de Torneio

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Adarga de canas (século XVIII), Museu dos Coches.

À parte do seu uso bélico, porém, a adarga figurou em jogos marciais e equestres – os chamados “jogos de canas” ou “juegos de cañas”[20] – ao longo dos séculos XV a XVIII. A este motivo se deve, talvez, uma boa parte das adargas que ainda se conservam na Real Armería de Madrid. As “canas”, como eram conhecidas por cá, eram um jogo de duas equipas, cristãos contra mouros, cada uma equipada a rigor . Consistia o jogo em, a cavalo, arremessar canas ao adversário, que teriam de ser deflectidas com a adarga [21]. Era um jogo extremamente popular em Portugal: “Houve canas no casamento da D. Leonor, em 1450, como as houve no do príncipe D. Afonso, em 1490, e em muitas outras festividades” [22].

A popularidade do jogo assegurou a sua sobrevivência até ao século XVIII – e a sobrevivência da adarga por arrasto. Embora, por essa data, as vestes árabes já tivessem sido descartadas, existem vários exemplares de adarga presentes no depósito do Museu dos Coches em Lisboa e na Real Armería em Madrid que confirmam a longevidade da peça, num formato e aspecto praticamente inalterados desde o século XV.

A Adarga em Recriação

É relativamente raro ver uma adarga no campo da recriação – os materiais são caros, particularmente para recriadores peninsulares. Apesar disso, é normal, nas poucas tentativas que se fazem de as retratar, fazerem-se adargas como quem faz um escudo moderno – com uma base de contraplacado cortada em formato apropriado e algum couro nas bordas a mascarar a coisa. Nada podia estar mais errado. Uma adarga é apenas e só um escudo de couro. Tentar adulterar essa realidade é desvirtuar por completo todo o percurso histórico do objecto entre nós. Particular atenção tem de ser dada às peles (e não couros) escolhidos, ao formato e à dureza da peça. Uma adarga não é um pedaço de gelatina: apesar da sua flexibilidade, não é suposto abanar por todos os lados.

 

[1] Segundo Nickel, H. (2014). “About the Adarga: A shield of two faiths, three continents, four cultures and seven centuries”. In La Rocca, D. (Ed.). The Armorer’s Art: Essays in Honor of Stuart Pyhrr.  Woonsocket: Mowbray Publishing, p. 13. Há no entanto outras raízes possíveis a considerar, todas elas árabes. Sobre esta questão, veja-se Agostinho, P. (2012). Vestidos para matar: o armamento de guerra na cronística portuguesa de quatrocentos. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, p. 46.

[2] Araújo, I. (2012). As Tapeçarias de Pastrana – Uma Iconografia da Guerra. Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa [Tese de Mestrado], p. 116. Não posso deixar de ressalvar a adarga quinhentista que existe no Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque, feita em metal. Não se sabe exactamente qual a sua origem ou propósito, mas dificilmente seria utilizável em batalha. Considerando os fiapos de tecido que ainda apresenta, é muito possível que fosse uma adarga de torneio ou cerimonial.

[3] “This first adargas were circular, as we can see represented in some twelve century codex like the Biblia de León and the Beato de Gerona. During the thirteenth century the name is maintained but the shield loses its rounded shape and is made of two oval plates or ellipses with their longer sides overlapping, as represented in the Cantigas de Santa Maria ( 1281- 84 )” em Salazar, T. (25 de Janeiro de 2006) « The Feather Adarga of Philip II and the Escorial Miter», Nuevo Mundo Mundos Nuevos [Online], Workshops, disponível em http://journals.openedition.org/nuevomundo/1468 ; DOI : 10.4000/nuevomundo.1468

[4] Além dos tons castanhos ou amarelados típicos da pele animal, as adargas mçulmana típicas parecem ter sido “usually bleached white and occasionally stained red” em Nickel, H. (2014), op. cit., p. 14. De facto, esta consistência cromática parece ter-se mantido mesmo em representações cristãs do equipamento granadino -como a tal atestam, por exemplo, o Ecce Homo de Nicolás Francés (ca. 1434),

[5] Soler del Campo, Á. (2000). “El Armamento Medival Islâmico en la Península Ibérica”. In Barroca, M. E Monteiro, J. (Coords.) (2000) Pera Guerrejar. Armamento Medieval no Espaço Português. Palmela: Câmara Municipal de Palmela, p. 30.

[6] Conta-nos Gomes Eanes de Zurara que, ferida uma escaramuça entre os homens de D. Duarte de Meneses e alguns mouros, as forças cristãs capturaram “.xx. cauallos com outros muytos arreos de grande ualor .s. spadas, terçados, sellas, freos, dargas, roupas, todo cousas specyaaes, por que nom soomente em aquellas que parecyam de fora, mas ainda nos ferros das cilhas eram achados lauores de prata“, em Zurara, G. (2012). Crónica de D. Duarte de Meneses. Edições Vercial, p. 170.

[7] Araújo, I. (2015). “Um imaginário bélico da baixa idade média: modelos de representação do guerreiro muçulmano na iconografia ibérica”. Em Hamsa. Journal of Judaic and Islamic Studies, 2, p. 39. Disponível em http://www.hamsa.cidehus.uevora.pt/hamsa_n2/publications_n2/03Imaginario_belico.pdf

[8] Araújo, I. (2012), op. cit., pp. 116-117.

[9] ‘Old habits die hard, though, and these adargas “taken over” by Christians have their handgrips spaced apart so that the fighter could slip his forearm at the wrist into the left loop and hold on to the one on the right with his fist. This way, by not grasping both loops together in the Moorish fashion, he achieved the Western time-honored “braced” position for the attack with couched lance, but gave up the flexibility the defense with an adarga would have offered. In the universal military mindset, tradition always wins over practicality,’ em Nickel, H. (2014), op. cit., p. 18. Sobre esta questão, veja-se também Fallows, N. (2010). Jousting in Medieval and Renaissance Iberia, p. 277-278.

[10] Araújo, I. (2015), op. cit., p. 39.

[11] Destaque para as pitorescas adargas, pintadas com a normal heráldica dos escudos europeus, empunhadas por alguns soldados num navio no manuscrito  Conquête et les conquérants des Iles Canarie de ca. 1405 (BL Egerton 2709). O manuscrito francês retrata a expedição de Jean de Bettencourt, um fidalgo normando, às Ilhas Canárias em 1402. A expedição normanda terá parado na Galiza e em Cádis a caminho das ilhas para reabastecer – e, porventura, adquirir algum equipamento, incluindo as adargas que vemos retratadas.

[12] O pintor flamengo Hans Memling parece ter ficado particularmente fascinado pelo exotismo da adarga nas cenas da Ressurreição, já que a inclui consistentemente numa série de obras suas,: Cenas da Paixão de Cristo (ca. 1470; Turim: Galeria Sabauda), Advento e Triunfo de Cristo (ca. 1480; Munique: Alte Pinakothek), Trípico da Ressurreição de Cristo (ca. 1490; Paris: Musée du Louvre) e Tríptico Greverade (ca. 1491; Lübeck: St. Annen-Museum).

[13] Agostinho, P. (2012). Vestidos para matar: o armamento de guerra na cronística portuguesa de quatrocentos. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, p. 46.

[14] Idem, ibidem, p. 48.

[15] Araújo, I. (2012), op. cit., p. 117.

[16] Barcareno, H. (1979). “A manutenção da ordem pública no Porto quatrocentista”. Em Revista de História, 02, 1979, p. 368. Disponível em https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/13186

[17] Duarte, L. (2000). “Armas de Guerra em Tempo de Paz”, em Barroca, M. J. e Monteiro, J. G. (Coords.) (2000). Pera Guerrejar – Armamento Medieval no Espaço Português. Palmela: Câmara Municipal de Palmela, pp. 189-190.

[18] Segundo o Diccionario de la lengua castellana de 1726: “Cierto género de escudo compuesto de duplicados cueros, engrudados y cosidos unos con otros, de figura cuasi oval, y algunos de la de un corazón: por la parte interior tiene en el medio dos alas, la primera entra en el brazo izquierdo, y la segunda se empuña con la mano. Usábanlas antiguamente en la guerra contra los moros los soldados de a caballo de lanza. Y aún hasta poco a esta parte se conservaba esta milicia en Orán, Melilla y costa de Granada, y hoy día se conserva en la plaza de Ceuta, aunque en menor número que antes. Servía la adarga para guarecerse de los golpes de la lanza del enemigo. Es voz arábiga, y viene de la palabra Adarraq, que vale embrazar el escudo”. Disponível em http://web.frl.es/DA.html

[19] “En América fueron utilizadas desde los primeros momentos porsu ligereza. Sin embargo es importante llamarla atención sobre su uso en el siglo XVIII como arma reglamentaria por los cuerpos de presidiaes mejicanos. (…) El armamento y composición de estos cuerpos había sido fijado por sendos reglamentos de 1729 y 1772 en los que se recurría a la adarga de cuero como arma defensiva. Estas adargas habían experimentado un cambio sustancial por ser más pequeñas y achatadas pero mantenían la forma bibalva original. En el exterior ostentaban el escudo de España cubriendo la mayor parte del campo”. Em Soler del Campo, A. (2006). “Notas sobre las adargas de la Real Armería: de Al-Andalus a America”. Em Al-Ândalus : espaço de mudança : balanço de 25 anos de história e arqueologia medievais : homenagem a Juan Zozaya Stabel-Hansen. Mértola : Campo Arqueológico de Mértola, p. 224.

[20] Sobre o “juego de cañas”, vejam-se as instruções de Hernan Chacón, em excertos retirados do seu Tratado de la cavalleria de la gineta (1551), em Fallows, N. (2010). Jousting in Medieval and Renaissance Iberia. Suffolk, United Kingdom: Boydell Press, pp. 503-508; e também Truan, J.,  Orthus, M. (2012). “El Juego de Cañas en España”. Em Recorde: Revista de História do Esporte Artigo5 (1), pp. 1–23, com a ressalva de que não perfilho da opinião destes últimos autores em relação à possível origem das “cañas” nos “juegos troyanos”, por me soar completamente inverosímil uma relação tão recuada no tempo e com um interregno tão grande entre o suposto “jogo” original e as canas medievais.

[21] “La más a propósito para cañas ha de ser grande, de medio arriba tiesa y de medio abajo blanda porque se pueda doblar sobre el anca del caballo. La embrazadura en medio de ella y ha de tener dos brazales y una manija y un fiador que venga desde el hombro como tahalí, con su hebilla para acortar y alargar. Se hacen de cartones y de junquillos, a modo de ribetes, de que se guarnecen y han de tener veinte bordes a la redonda por fuera de guarnición y también las suelen forrar de dos antes. Doran las adargas y las platean por dentro; parecen mejor de hierro blancas…”, em de Leguina, E. (1912). Glosario de voces de armería. Madrid: Librería de Felipe Rodríguez,. p. 46

[22] Oliveira Marques, A. (2010). A Sociedade Medieval Portuguesa – Aspectos do Quotidiano. Lisboa: Esfera dos Livros, p. 231.

 

BIBLIOGRAFIA

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Maior

Mestre da Cité des Dames  (ca. 1405). Conquête et les conquérants des Iles CanariesOxford: Bodleian Library,  Egerton 2709

Vergós, P. (ca. 1491-1492). Retábulo de Santo Estevão [têmpera em madeira]. Barcelona: Museo Nacional de Arte de Cataluña

AGRADECIMENTOS

Os meus agradecimentos a James Arlen Gillaspie, que gentilmente me forneceu uma cópia do inestimável artigo de Helmut Nickel; a Santiago de la Peña Miravalles e Martim Gervais, cujo interesse em adargas ajudou a estimular a minha própria pesquisa; e a Sueiro Seisdedos, pelo seu fantástico trabalho em reproduzir estas peças.

 

 

 

 

 

 

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One thought on “Armadura Quatrocentista Portuguesa II – A Adarga

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