Armamento Quatrocentista Português III – A Adaga de Rodelas

Due to this article’s length, I thought it wise to publish the English and Portuguese versions separately. For the English version, please click here.

Arma versátil, ferramenta do dia-a-dia, símbolo de estatuto. As adagas são das mais antigas e recorrentes componentes do arsenal de qualquer guerreiro – e, durante a Idade Média, companheiras habituais do povo, em todos os degraus da escada social. A adaga que nos ocupa hoje é a adaga de discos ou de rodelas. Recomendo vivamente a leitura do do artigo “Spotlight: The Rondel Dagger” de Alexi Goranov, do qual esta publicação é, de certa forma, uma versão condensada – tirando, claro está, quaisquer informações sobre modelos portugueses em específico.

Origens Bicudas – Um (Muito) Breve Apanhado Geral

É curioso sabermos pouco ou nada sobre adagas em geral antes dos séculos XI-XII, e razoavelmente pouco antes do século XIV. Sabemos que as havia: temos delas registo, temos achados arqueológicos  [1].

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A mais antiga representação conhecida de uma adaga, um scramasax peculiar, ou simplesmente uma espada muito curto? Detalhe do “Relevo Guido” no interior da Grossmünster de Zurique  (ca. 1120).

Ainda assim, há pouquíssimas representações de adagas em contexto militar até ao início do século XIV.  Após essa data, contudo, temos já muitos registos visuais delas – e de que maneira, adoptadas como são por todas as classes sociais e numa diversidade fantástica de estilos, um dos quais é aquele que agora abordamos.

As adagas de rodelas surgem um pouco por toda a Europa medieval – Inglaterra, França, Sacro Império, Escandinávia…. e, claro está, a Península Ibérica. De acordo com as pesquisas de Ada Bruhn de Hoffmeyer, estas adagas começam a surgir na iconografia ibérica no século XIII [2], mais ao menos ao mesmo tempo que surgem noutras nações europeias. As Cantigas de Santa Maria de Afonso X incluem, segundo ela, algumas das melhores representações de adagas de rodelas do século XIII, “worn by civilians” [3].

Uma Adaga Para Ti, Uma Adaga Para Mim

Mas em que consistem adagas de rodelas, exactamente? O termo “adaga de rodelas” (ou, mais correctamente, de discos) deriva das guardas da adaga, em forma de disco.

As adagas de discos foram concebidas para apunhalar. Prova disso são as suas pontas vertiginosamente embicadas, por vezes até reforçadas para assegurar o maior grau possível de penetração. Retiveram, apesar disso, gumes funcionais (um ou dois, dependendo do tipo de adaga). As lâminas deste tipo de adaga variavam consideravelmente em tamanho e forma: de pequenas a relativamente longas, de gume único, de secção triangular, a gumes duplos  – e até “on a rare occasion thin, square blades foreshadowing the emergence of the stiletto” [4]. Não obstante as variações em lâmina, contudo, o uso destas adagas mantinha-se exactamente o mesmo.

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Adaga de rodelas de gume único (ca. 1400-1430), encontrada no Tamisa. Note-se a lâmina de secção côncava, com um pequeno ricasso no topo. A madeira do punho é uma substituição moderna. Royal Armouries, X.1.
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A adaga “Borgonhesa” de Maximiliano I (ca. 1490-1500), Kunsthistorisches Museum Wien, KHM A48.

Mas é o punho que separa a adaga de rodelas de todas as outras. No século XIII, os punhos deste tipo de adagas eram cilíndricos e lisos, “likely made from a single piece of wood, horn or bone. The grips of the higher-quality daggers were almost always fluted, spirally carved, or engraved” [5], e esta tendência para decorar ( e sobre-decorar) de acordo com as posses do seu utilizador prolongou-se no século XIV e, muito particularmente, no século XV.  O uso disseminado da adaga e as suas variações de forma complicam bastante a tarefa de criar diferentes “estilos” e tipologias para esta arma, como é habitual para objectos da época. Goranov assinala a existência de dois possíveis “estilos”: a adaga de rodelas inglesa, “with grip pierced by hollow rivets” [6] e a adaga borgonhesa: “These were developed in the 15th century and are characterized by a pommel rondel that has a domed or mushroom-shaped, often fluted top, straight or convex, but always carved, grips of wood or horn and sometimes brass for decoration” [7]. Deve-se esta última designação ao facto de este tipo de adagas surgir sobejamente representado em arte borgonhesa/flamenga, com particular destaque para tapeçarias e iluminuras. As tapeçarias de Pastrana, tecidas em Tournai, mostram várias adagas de rodelas – apesar de, como todas as peças das tapeçarias, estas adagas representarem o que efectivamente se usava em Portugal na altura.

No que às bainhas diz respeito, as das adagas de rodelas, tais como as de outras adagas do período, eram justas ao corpo da arma e feitas de couro liso ou trabalhado. As bainhas das adagas de rodelas divergem de outras bainhas por apresentarem ocasionalmente uma boca feita para acomodar o disco inferior da adaga (como se pode ver pelo exemplo abaixo).

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Bainha decorada para adaga de rodelas, em madeira e couro, supostamente italiana (ca. 1500), Metropolitan Museum of Art, 25.135.105.

 

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Ponteira de latão do Castelo de Belmonte (séculos XIV/XV).  I.P.P.A.R./Câmara Municipal de Belmonte, CBE 95.IV.44/45.(3).1

À bainha da adaga eram muitas vezes adicionadas ponteiras de metal, como reforço [8]. Tal como as bainhas, estas ponteiras variavam em nível de detalhe, desde pequenos pedaços de metal até ponteiras intricadas em bronze, prata ou ouro. Nem às modestas ponteiras em latão faltava decoração. Exemplo perfeito destes simples mas belíssimos esquemas decorativos é a ponteira quatrocentista encontra no castelo de Belmonte, que pode ser vista à esquerda [9].

Tal como todas as outras tipologias de adaga medieval, as adagas de rodelas usavam enfiadas no cinto ou dele suspensas, fosse atrás, a jeito da mão direita (para serem desembainhaAs with all other late medieval daggers, rondels were worn tucked in, or suspended from, the wearer’s belt, either at the back, near the right hand side (so they could be quickly drawn in combat), or slung at the front. The Pastrana tapestries invariably depict them worn at the back, at the ready to deliver a killing blow.

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Esquerda: Pormenor da tapeçaria Cerco de Arzila (ca. 1475); Centro: Pormenor de La geste ou histore du noble roy Alixandre, fol. 48v (ca. 1450-1500); Direita:  Pormenor do quadro São Vicente na Fogueira de Jaume Huguet (ca. 1455-1460).

Uma Adaga Pouco Habitual?

A língua portuguesa faz distinção entre dois tipos de objectos : adaga (com uma multitude de variações medievais: adagua, dagua, adarga, dagaa, daga [10]) e punhal, centrando-se a distinção no facto de as “adagas” terem lâminas longas, de gume duplo,  e serem armas “civis”; ao passo que os “punhais” eram visto como mais pequenos e de gume único, feitos para uso militar [11]. Tendo em conta a miríade de perfis e tamanhos de lâmina, de punhos e de decoração das adagas do século XV, esta distinção parece algo desprovida de sentido prático.

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Pormenor da tapeçaria Cerco de Arzila (ca. 1475).

A adaga de rodelas é um exemplo perfeito de porque é que esta distinção não funciona. O facto de este tipo de adaga se ter desenvolvido quase exclusivamente com o intuito de penetrar armaduras rapidamente nos levaria à conclusão de estas serem acima de tudo armas para uso militar – o que explicaria, em grande medida, a sua ubiquidade nas Tapeçarias de Pastrana. Este tipo de adagas é extremamente versátil – apunhalar, sim, mas também cortar e sulcar, de acordo com manuais de treino da época. Até bater em alguém com o pomo ou corpo de uma adaga embainhada podia ser considerado como um golpe eficaz [12].

Contudo, embora “they are thought of mostly as military weapons and often are associated with the knightly classes (…). It is worth noting that there are illustrations of commoners wearing rondel daggers, and there are crudely constructed extant originals, which suggests that these daggers were not entirely reserved for the aristocracy” [13]. De facto, tal como todos os outros objectos da Idade Média,  as adagas podiam ser, e frequentemente eram, usadas apenas como símbolos de estatuto [14]. No século XV português, como na maior parte das nações europeias da época, a adaga estava em todo o lado, companheira de todas as horas. No seu artigo “Armas de Guerra em Tempo de Paz”,  Luís Miguel Duarte adverte-nos para que “Nunca se perca de vista a dimensão económica – o custo das armas – e a dimensão social – o prestígio que acarreta exibir determinado tipo de armamento. Há uma relação directa entre a fortuna de cada um e as armas de que se serve (…)” [15]. As adagas são praticamente uma componente do guarda-roupa básico da época, de tal forma que quase se esfumam na sua qualidade de armas por direito próprio [16].

Mas como seriam as adagas de rodelas em Portugal? Como em muita coisa, dada a nossa falta de fontes: simplesmente não sabemos. Guardam-se alguns fragmentos, aqui e acolá, espalhados em museus, mas regra geral encontram-se demasiado degradados para serem úteis. Temos, contudo, um exemplo (moderadamente) bom de uma adaga de discos do século XV, encontrada por detrás de uma casa quatrocentista em Silves:

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Adaga de discos e ponteira, ferro/aço (?) e liga de cobre (ca. 1400-1500), Museu Municipal de Arqueologia de Silves, SILV. 3-Q1/C2-13.

Apesar de não ser o mais bem preservado dos achados, esta adaga dá-nos algumas boas informações. Mesmo tendo em conta que o disco do topo da empunhadura se perdeu, os dois discos metálicos no fundo do punho sugerem que o disco de guarda teria sido constituído por uma camada de madeira comprimida entre as duas camadas de cobre. [17]. Tal como a famosa adaga A.726 dagger da Wallace Collection, o punho da adaga seria constituído por dois painéis, muito provavelmente de madeira, rebitados à espiga, assim como uma lâmina de gume único, de tamanho médio a longo. Este achado sugere alguma afinidade com gostos ingleses e/ou borgonheses, em consonância com outras peças de armamento e vestuário portuguesas da época. Creio ser seguro presumir que, pelo menos até certo ponto, quaisquer modelos de adagas que se usassem na Borgonha ou em Inglaterra seriam também bastante apreciados por cá.

A Adaga de Rodelas em Recriação

Peculiarmente, a adaga de rodelas é dos poucos itens que é quase impossível de ter completamente errados em recriação. Note-se: o que não falta são adagas de rodelas rascas (tenho-vos debaixo de olho, Marhsal Historical), que devem ser evitadas a todo o custo! Tendo dito isso, contudo, o conceito da adaga é de certa forma tão simples que mesmo uma adaga de rodelas rasca se torna no mínimo funcional, até tolerável, com alguns pequenos ajustes. Já o mesmo não se pode dizer das bainhas com que estas adagas se fazem usualmente acompanhar, bainhas essas que são por norma terríveis tanto em qualidade como em construção.

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Uma “Twisted Rondel Dagger” moderna, feita por Leo Todeschini (Tod Cutler). Todos os direitos reservados ao artista.

Uma adaga, seja de que tipo seja, tem de ser tão correcta quanto as restantes roupas e outros acessórios. Investir numa boa adaga, de um fabricante reputado, é essencial. A minha adaga de rodelas, de inspiração borgonhesa (veja-se acima o modelo), foi adquirida ao artesão Tod Cutler, que não tenho como não recomendar. Apesar de ser um modelo-padrão, a minha escolha baseou-se nestes (admitidamente poucos) achados que partilhei – reparem nos discos, com as suas camadas de madeira e metal. Invistam numa boa adaga, e nunca hão-de precisar de outra (e digo precisar. Porque querer, vão querer ter muitas).

 

[1] Veja-se, por exemplo, os dois espécimes em Barroca, M. J. e Monteiro, J. G. (Coords.) (2000). Pera Guerrejar – Armamento Medieval no Espaço Português. Palmela: Câmara Municipal de Palmela, pp. 339-340.

[2] Brunn de Hoffmeyer, A. (1972). Arms & Armour in Spain: A Short Survey, Volume 1. Madrid: Editorial CSIC – CSIC Press, p. 200.

[3] Idem, ibidem, p. 79.

[4] Goranov, A. (2004). Spotlight: The Rondel Dagger. Retrieved from https://myarmoury.com/feature_spot_rondel.html

[5] Idem, ibidem.

[6] Idem, ibidem.

[7] Idem, ibidem.

[8] Segundo Ward-Perkins, “Metal dagger chapes were only used on the sheaths of military daggers or of the more elaborate forms of civilian dagger. The great majority of surving leather sheaths belonged to ordinary knives or knife-daggers and these have no metal terminal”. Em Ward-Perkins, J. (1940). London Museum Medieval Catalogue. London: H.M. Stationery Office, p. 284.

[9] Esta ponteira tem muito em comum com outras ponteiras encontradas um pouco por toda a Europa. Veja-se por exemplo o Tipo II de Ward-Perkins em ibidem, p. 285.

[10] See Agostinho, P. (2012). Vestidos para matar: o armamento de guerra na cronística portuguesa de quatrocentos. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, p. 123.

[11] “Daga (designação actual: adaga): arma branca, pontiaguda e com dois gumes (pelo menos junto à ponta), mais comprida e mais larga do que um punhal”. Em Monteiro, J. G. (1998). A Guerra em Portugal nos finais da Idade Média. Lisboa: Editorial Notícias, p. 538.

[12] Duarte, L. (2000). “Armas de Guerra em Tempo de Paz”, in Barroca, M. J. and Monteiro, J. G. (Coords.) (2000). Pera Guerrejar – Armamento Medieval no Espaço Português. Palmela: Câmara Municipal de Palmela, p. 196.

[13] Goranov, A. (2004), ibidem.

[14] Nas palavras de Bashford Dean: “(…) como arma concebida como adorno, a adaga facilmente se incorporava no vestir de todas as classes, fossem elas civis ou militares. Assim se tornou, nas palavras de Chaucer (c. I390), “gaie” and “harneysed well.” (…) Durante séculos, a adaga granjeou fama de objecto de luxo entre soldados e os ricos homens do povo. No seu desenho e decoração empregaram-se os grandes artistas, cujos desenhos e gravações ainda hoje existem, em muitos casos (…) [tradução minha]  (“(…) as an arm designed for adornment, the dagger could readily be brought into the scheme of the costume of all classes, military or civil. It thus became, as Chaucer says (c. I390), “gaie” and “harneysed well.” (…) For many centuries the dagger found wide favor among wealthy civilians and soldiers as an object of luxury. The greatest artists were employed to design and to decorate it, whose drawings and engravings in numerous cases still exist (…)”). Em Dean, B. (1929). Catalogue of European Daggers 1300-1800. New York: The Metropolitan Museum of Art, p. 5. Apesar de antigas, estas palavras mantêm-se actuais.

[15] Em Duarte, L. (2000). ibidem, p. 191.

[16] Em Duarte, L. (2000). ibidem, pp. 195-196.

[17] Barroca, M. J. and Monteiro, J. G. (Coords.) (2000), ibidem, p. 341.

BIBLIOGRAPHY

Agostinho, P. (2012). Vestidos para matar: o armamento de guerra na cronística portuguesa de quatrocentos. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra

Barroca, M. J. e Monteiro, J. G. (Coords.) (2000). Pera Guerrejar – Armamento Medieval no Espaço Português. Palmela: Câmara Municipal de Palmela

Brunn de Hoffmeyer, A. (1972). Arms & Armour in Spain: A Short Survey, Volume 1. Madrid: Editorial CSIC – CSIC Press

Dean, B. (1929). Catalogue of European Daggers 1300-1800. New York: The Metropolitan Museum of Art

Duarte, L. (2000). “Armas de Guerra em Tempo de Paz”, in Barroca, M. J. e Monteiro, J. G. (Coords.) (2000). Pera Guerrejar – Armamento Medieval no Espaço Português. Palmela: Câmara Municipal de Palmela, pp. 173-202

Edge, D. and Paddock, J.(1988). Arms and Armor of the Medieval Knight. New York: Crescent Books.

Ward-Perkins, J. (1940). London Museum Medieval Catalogue. London: H.M. Stationery Office

VISUAL SOURCES

(ca. 1475). Siege of Asilah [wool and silk]. Tapestry. Pastrana: Parish Tapestry Museum. Retrieved from http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Siege_of_Asilah_(Cerco_de_Arcila)

(ca. 1475). Disembarkation in Asilah [wool and silk]. Tapestry. Pastrana: Parish Tapestry Museum. Retrieved from http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Disembarkation_in_Asilah_(Desembarco_en_Arcila)

(ca. 1475). The Taking of Tangier [wool and silk]. Tapestry. Pastrana: Parish Tapestry Museum. Retrieved from http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/The_taking_of_Tangier_(Toma_de_T%C3%A1nger)

(ca. 1475). Assault on Asilah [wool and silk]. Tapestry. Pastrana: Parish Tapestry Museum. Retrieved from http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Assault_on_Asilah_(Asalto_de_Arcila)

La geste ou histore du noble roy Alixandre, roy de Macedonne (ca. 1450-1500). Paris, Bibliothèque nationale de France, BNF Français 9342. Retrieved from https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b6000083z/f106.item

Hughet, J. (ca. 1455-1460). Saint Vincent at the Stake [oil on wood]. Barcelona: Museu Nacional d’Art de Catalunya

ONLINE SOURCES

Goranov, A. (2004). Spotlight: The Rondel Dagger. Retrieved from https://myarmoury.com/feature_spot_rondel.html

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