Roupa Masculina IV – As Calças

Due to this article’s length, I thought it wise to publish the English and Portuguese versions separately. For the English version, please click here.

Após a roupa interior, era altura do homem do século XV vestir a segunda camada de roupa: as calças (para as pernas) e o gibão (para o tronco). É altura de vermos como se caracterizavam as calças típicas da segunda metade do século XV.

Origens & Evolução

Para entendermos a evolução das calças seria necessário recuarmos até à Antiguidade, ou talvez antes… mas não o vamos fazer. Para entendermos as calças do século XV, iremos recuar apenas até ao século XIV.

A palavra “calça” deriva do étimo latino “calceus”, que significava “sapato” [1], e as calças do século XIV (masculinas) são essencialmente meias longas. Cobriam a perna dos pés às virilhas – as zonas que as túnicas, saios e briais da época não abrangiam totalmente. Tal como as meias, eram também peças separadas, uma para cada perna, apertadas às bragas ou a um cinto interior através de uma variedade de meios [2] – o mais frequente dos quais era sem dúvida o uso de cordões [3]. Podem apresentar-se com ou sem pé (usando uma simples alça, quase como um estribo, para se prenderem ao pé), e são normalmente usadas com sapatos, mas chegam muitas vezes (nos estratos sociais mais elevados) a ter incorporada uma sola de couro – passando então a chamar-se calças soladas [4]. Questão de moda é também a ponta da calça, que se aguça e imita as pontas das poulaines góticas; assim como o uso de uma cor e/ou material diferente para cada perna, em mi-parti.

Jograis da poesia galego-portuguesa, iluminura do Cancioneiro da Ajuda.jpg
Três músicos em iluminura do Cancioneiro da Ajuda (finais do século XIII).

A partir dos anos 70 do séculos XIV, com o subir das bainhas em direcção à virilha, os homens (particularmente os jovens nobres) mostram cada vez mais calça e – para grande escândalo e consternação de quem de direito [5] – chega a roçar-se a exibição de roupa interior. Esta situação leva à criação de uma peça de tecido triangular – a braguilha – que doravante será incorporada nas próprias calças [6], abrindo-se e fechando-se com recurso a cordões ou agulhetas. Com agulhetas, aliás, se apertam agora as calças – mais longas, cobrindo também os glúteos e o topo das pernas – à saia do gibão.

MSA1
Um grupo de homens do povo no Manuscrito 1 Série Azul das Crónica Geral de Espanha de 1334 (c. 1420). Notem-se a coexistência de calças com braguilha e calças sem braguilha.

No tocante a materiais, a lã é rainha, embora haja menções de calças de seda ou materiais mais finos [7]. Tal como os gibões, poderiam comportar um forro, ou neste caso um meio-forro de linho no topo das calças e na braguilha. Para os mais abastados, as calças podiam também ser decoradas, com bordados ou outras técnicas [8].

Vicente Calças 2
Pormenor do Painel do Infante (c. 1475).

As calças do século XIV são justas à perna, como aliás virão a ser as calças do século XV e seguintes. Não há como não realçar a justeza da perna: o ideal de beleza masculino, patente em toda a iconografia da época, aponta para pernas magras totalmente delineadas pelas calças [9]. Para assegurar que as calças se mantinham coladas aos contornos da perna sem romper e sem criar rugas ou folgas no tecido, o padrão de cada calça era moldado directamente sobre a perna do seu utilizador e a lã era cortada de viés (ou seja, diagonalmente em relação à trama do pano), o que conferia mais elasticidade à peça final [10]. 

As Calças em Portugal

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Santa Clara e o Milagre da Custódia (c. 1486).

Tal como com os gibões, traçar tendências específicas para a nossa época e localização é complicado. Contudo, as nossas fontes iconográficas habituais não parecem sugerir qualquer uso ou especificidade portuguesa em relação às calças tal como se usavam na maior parte dos restantes territórios europeus, pelo que qualquer boa fonte estrangeira será, à partida, utilizável para percebermos o funcionamento desta peça de roupa. A julgar pela nossa iconografia, porém, a cor de calças mais em voga na segunda metade do século XV seria o vermelho – pelo menos para as classes mais abastadas. A isto atestam, como se pode ver acima, dois dos Painéis de São Vicente, assim como o painel central do Tríptico de Santa Clara, à direita, que mostra um guerreiro de gibanete verde com calças vermelhas. De acordo com as nossas bem conhecidas tapeçarias de Pastrana, e para além do vermelho, parecem ter estado em voga os azuis (tal como o azul-ferrete usado por D. Afonso V no Painel do Infante), os castanhos, tons de amarelo-torrado e beiges.

As Calças em Recriação

Eis que a porca torce o rabo. Se há peça de indumentária mais maltratada pela recriação quatrocentista, é sem dúvida as calças. Fiz várias referências à sua justeza – e é ver, por esse mundo fora, supostos recriadores a usá-las largueironas, torcidas junto ao pé e mais enrugadas do que uma passa. Particular atenção deve ser reservada à colocação e tamanho da braguilha – braguilhas decoradas e enchumaçadas são coisas de finais finalíssimos do século apenas, e braguilhas pequeninas. As calças quatrocentistas, bem feitas e bem apertadas, tapam as pernas desde a anca ao pé, sem mostrarem camisa ou bragas (a não ser, porventura, quando nos dobramos para a frente).

E não, não há lugar para calças separadas porque “estou a representar alguém de classe baixa”. Pese embora alguma representação em arte coeva, e um possível ressurgimento nas calças-bragas da última década do século [10], o uso das calças unas e com braguilha é essencialmente universal no nosso período de eleição.

[1] Calça [Etimologia]. (s.d.). Michaelis Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. In Michaelis Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Retirado a 2 de Abril, 2019, de http://michaelis.uol.com.br/busca?id=d4dV

[2] Veja-se Eustace, E. (Última actualização: 2017). Sherts, Trewes, & Hose .i. : A Survey of Medieval Underwear. Retirado de http://www.greydragon.org/library/underwear1.html

[3] Oliveira Marques, A. (2010), p. 59. 

[4] “These footed hose would have been more substantial, with leather soles attached by stitching. Soles were added to hose by shoemakers”, em Coatsworth, E. e Owen-Crocker, G. (2018). Clothing the Past: Surviving Garments from Early Medieval to Early Modern Western Europe. Leiden, Boston: Brill, p. 274. Veja-se também Oliveira Marques, A., op. cit., p. 59. 

[5] “A divulgação das calças, tornadas peças importantes da indumentárias masculina à medida que as saias subiam, teve lugar na segunda e terceira décadas do século XIV. Nobres e plebeus começaram a sair para a rua com as pernas a descoberto, para grande escândalo das “pessoas sérias”. (…)”, em Oliveira Marques, A., op. cit., p. 59.

[6] Oliveira Marques, A., op. cit., p. 60.

[7] Nem sempre com grande sucesso. Veja-se a anotação da página 59, em Oliveira Marques, A., op. cit.

[8] Oliveira Marques, A., op. cit., pp. 59-60.

[9] Veja-se Madrazo, C. (1979). Trajes y modas en la España de los Reyes Católicos: II, Los hombres. Madrid: Instituto Diego Velázquez, p. 67.

[10] Veja-se sobre estas questão de corte Crowfoot, E., Pritchard, F. e Staniland, K. (2006). Textiles and Clothing, C.1150-c.1450. Suffolk: Boydell & Brewer, pp. 185-186. As provas arqueológicas são, infelizmente, pouco numerosas.

[11] Veja-se Madrazo, C. (1962). Indumentaria española en tiempos de Carlos V. Madrid: Instituto Diego Velázquez. Oliveira Marques afirma, no entanto, que as calças-bragas tiveram entre nós pouca expressão (Oliveira Marques, A., op. cit., p. 60.).

BIBLIOGRAFIA

Coatsworth, E. e Owen-Crocker, G. (2018). Clothing the Past: Surviving Garments from Early Medieval to Early Modern Western Europe. Leiden, Boston: Brill

Crowfoot, E., Pritchard, F. e Staniland, K. (2006). Textiles and Clothing, C.1150-c.1450. Suffolk: Boydell & Brewer

Madrazo, C. (1979). Trajes y modas en la España de los Reyes Católicos: II, Los hombres. Madrid: Instituto Diego Velázquez

Madrazo, C. (1962). Indumentaria española en tiempos de Carlos V. Madrid: Instituto Diego Velázquez

Oliveira Marques, A. (2010). A Sociedade Medieval Portuguesa – Aspectos do Quotidiano. Lisboa: Esfera dos Livros

Sequeira, J. (2014). O Pano da Terra: Produção têxtil em Portugal nos finais da Idade Média. Porto: U. Porto Edições.

FONTES VISUAIS

(ca. 1450-1500). Fresco do Bom e  Mau Juiz [fresco]. Monsaraz: Museu do Fresco

(ca. 1475). Cerco de Arzila [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Siege_of_Asilah_(Cerco_de_Arcila)

(ca. 1475). Desembarque em Arzila [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Disembarkation_in_Asilah_(Desembarco_en_Arcila)

(ca. 1475). Tomada de Arzila [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Assault_on_Asilah_(Asalto_de_Arcila)

Anónimo (ca. 1486). Santa Clara e o Milagre da Custódia [óleo e têmpera em madeira]. Coimbra: Museu Nacional Machado de Castro. Disponível em https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/9d/Tr%C3%ADptico_de_Santa_Clara_Sec_XV_Museu_Machado_de_Castro.jpg

Cancioneiro da Ajuda (século XIII). Lisboa: Biblioteca do Palácio Nacional da Ajuda

Crónica Geral de Espanha de 1334 (ca. 1420). Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, Manuscrito 1 Série Azul

Gonçalves, N. (ca. 1470). Panéis de São Vicente [óleo e têmpera em madeira]. Lisboa: Museu Nacional de Arte Antiga. Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Painéis_de_São_Vicente_de_Fora#/media/File:Lagos40_kopie.jpg

FONTES EM-LINHA

Eustace, E. (Última actualização: 2017). Sherts, Trewes, & Hose .i. : A Survey of Medieval Underwear. Retirado de http://www.greydragon.org/library/underwear1.html

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