O Alferes e o Seu Arnês – A Armadura de Duarte de Almeida (P. 1)

Due to this article’s length, I thought it wise to publish the English and Portuguese versions separately. For the English version, please click here.

(Este artigo foi originalmente preparado para a página Repensando a Idade Média, que vos convido a espreitar aqui.)

Hoje, que se comemora mais um aniversário da Batalha de Toro, gostaria de assinalar a efeméride com uma questão: O que faz na Catedral de Toledo o único arnês – ou, melhor dizendo, metade de um arnês –português do século XV que chegou até aos nossos dias? A pergunta não é descabida. Tal como não é descabido perguntarmo-nos quem foi Duarte de Almeida, o mítico Decepado, alferes de D. Afonso V. Tentar responder às duas questões, porém, é operar um exercício de equilibrismo entre o facto e a lenda.

O MITO

Uma alcunha estranha esta, com a sua cota-parte de casual crueldade. Quem nunca tiver ouvido falar da personagem, porém, poderá talvez ter ouvido uma vaga menção a um porta-bandeira que, numa qualquer batalha medieva contra Castela, teria defendido o seu estandarte com garbo, valentia, mas sem mãos – cortadas como tinham sido pelo inimigo.

1 de Março de 1476. Toro, província de Zamora, Castela. O dia amanhece tristonho, com o sabor de chuva no ar, enquanto de cada lado se alinham os exércitos: o castelhano, de D. Fernando II, o Católico, e português, de D. Afonso V. Em causa está, como quase sempre está em conflitos da realeza, uma questão de sucessão ao trono, neste caso o de Castela. Ao centro da linha portuguesa adeja o pavilhão real. O seu guardião, o alferes Duarte de Almeida, prepara–se para o início da refrega. Sabe bem que perder a bandeira real é um sinal de desonra, um sinal de derrota iminente.

Battle Toro.jpg
Representação da Batalha de Toro, por José Daniel Cabrera Peña. Todos os direitos reservados ao artista.

Os arcabuzes castelhanos disparam uma salva inicial. No meio do fumo das armas, a linha portuguesa hesita, agita-se, descompõem-se. Apenas um segundo, que os castelhanos são lestos a aproveitar: o exército castelhano avança freneticamente, com brados de adrenalina  nas gargantas e aço nu nas mãos. A linha portuguesa não aguenta, esboroa-se e recua como uma onda no quebra-mar. A luta em torno da bandeira real é medonha. Duarte de Almeida, envolto na refrega e subitamente abandonado pelos seus companheiros de armas, defende o estandarte com continuada bravura. Um golpe acerta–lhe na mão direita. Duarte vacila, mas segura–se à bandeira com a mão esquerda. Também ela não dura muito tempo incólume. Assoberbado pelos castelhanos, o alferes segura–se ao que pode, mas acaba perder o pavilhão d’El-Rei. Os castelhanos apoderaram-se então da bandeira e Duarte cai, envolto numa torrente inimiga. Teria Duarte morrido dos seus ferimentos? Teria sido capturado pelo inimigo? Quem conta um conto, acrescenta um ponto ou vários, e a partir daqui a história de Duarte de Almeida desdobra-se em múltiplos finais.

O HOMEM

Como em tudo, há um homem por detrás da lenda. E é curioso o quão pouco sabemos sobre ele – um suposto herói português – de tal maneira que não sabemos sequer de quem era filho, ou quando terá nascido ao certo. Em relação à ascendência, o ilustre historiador Anselmo Braamcamp Freire há muito que destruiu a hipótese, ainda assim amplamente difundida, de que tenha sido um tal de Pedro Lourenço de Almeida. Braamcamp Freire lança-se na conjectura de que tenha sido, em vez disso, um tal de João Fernandes de Almeida. [1]. Também para o nascimento será necessário fazer algumas suposições, com base nalguns dos dados soltos que Braamcamp Freire coleccionou: a primeira vez que Duarte aparece em registo histórico é em 1461, marcado como cavaleiro da casa real, e sabe-se que terá recebido doações por bons servidos prestados como alferes-menor em Marrocos, em 1464, durante a malfadada expedição de D. Afonso V a Tânger [2]. Seria ainda vivo em 1502, segundo Braamcamp Freira [3], mas em 1509 já teria falecido [4]. “Virtus in medium est”, costuma dizer-se. Se Duarte tiver sido investido como cavaleiro imediatamente antes de 1461, teria pelo menos 15 ou 16 anos a esta data, o que o faria ter nascido em 1445. Falecido após 1502, teria perto de sessenta anos à data da morte. Considerando alguma margem de manobra, sugiro o intervalo de 1420-1445 como data provável do nascimento do alferes [5].

E após estas datas, infelizmente, ficamos sem muito por dizer em relação a Duarte de Almeida. Não por escolha, mas por omissão histórica. Dos poucos detalhes que temos – o casamento e a possível esposa, por exemplo, ou uma possível casa sua que houve em tempos em Santarém –, já Braamcamp Freire deles falou de maneira exímia. Detalhes militares também não abundam: à excepção da menção breve da Crónica de Duarte de Meneses, e de sabermos que terá participado na conquista de Arzila [6], nada mais sabemos sobre a prestação de Duarte de Almeida antes de Toro. Nesta vida cheia de incógnitas, o que sabemos com alguma certeza é a façanha que se encontra na base de toda a lenda. Ficam-nos os traços gerais do conto, e é tudo.

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Brasão da família Almeida, do Livro do Armeiro-Mor (1509).

O acto de heroicidade do “alferes pequeno” [7] aparece registado tanto por fontes portuguesas quanto castelhanas, pelo que não há motivo para colocar a sua veracidade em causa. No entanto, permanecem as dúvidas em relação aos ferimentos que teria sofrido. Teria ficado efectivamente sem mãos, como reza a lenda, e forçado a defender a bandeira com os dentes [8]? Fontes tanto portuguesas quanto castelhanas dividem-se neste ponto, embora não contestem a existência de lesões – o que seria de esperar numa batalha. Duarte de Almeida, moribundo, é feito prisioneiro e levado para Zamora para convalescer [9]. E aqui surge o último dos mitos: o que teria acontecido ao valente alferes após a sua recuperação? São múltiplos os cronistas que afirmam que teria acabado na pobreza [10], o que as investigações de Braamcamp Freire demonstraram ser pura falsidade [11]. Certo é que, depois de Toro, Duarte de Almeida é essencialmente consignado à posição de anotação histórica, perpetuador de um ramo da nobre família dos Almeidas que a pouco e pouco acabou por definhar.

 

CONTINUA NA PARTE II – O ARNÊS E OS SEUS MISTÉRIOS

 

[1] Convincente e interessante conjectura, diga-se de passagem; sem no entanto deixar de ser uma conjectura. Veja-se Braamcamp Freire, A. (1921). Brasões da Sala de Sintra, Volume I. Coimbra : Imprensa da Universidade, pp. 320-322.

[2] “[C]omeçou elRey de decer pera fundo per aquella lomba, (…) seu estendarte foy abatydo e fora tomado senom fora a bondade de Ruy de Sousa (…) e desy o alferez que era homem fidalgo e nobre e nom lhe falleceo coraçom e força pera sosteer aquelle trabalho o qual auya nome Duarte dAlmeyda”, em Zurara, G. (2012). Crónica de D. Duarte de Meneses. Edições Vercial.

[3] Braamcamp Freire, A. (1921). Brasões da Sala de Sintra, Volume I. Coimbra : Imprensa da Universidade, p. 333.

[4] Idem, p. 335.

[5] Não ajuda que Braamcamp Freire tenha identificado uma sucessão de outros Duartes de Almeida contemporâneos do nosso alferes – veja-se Brasões da Sala de Sintra, Volume I, pp. 336-337. Irei deixá-los de lado destas considerações, tal como ele fez.

[6] A exacta natureza do cargo de Duarte de Almeida em Arzila é também ela um mistério. Braamcamp Freire afirma, embora sem menção de fontes: “Dois dias depois da tomada de Arzila (…) não esquece ao africano a recompensa dos serviços de Duarte de Almeida, que decerto haviam de ter sido valiosos na emprêsa, apesar de nela a bandeira real ter sido levada pelo alferes mor conde de Valença” (1921, p. 324). A ser verdade, então o retrato do porta-estandarte que se pode observar na tapeçaria Assalto a Arzila seria o de Henrique de Meneses, 1º Conde de Valença, e não o de Duarte de Almeida, como até então se tem vindo a afirmar tanto em fontes nacionais como estrangeiras.

[7] Góis, D. (1724). Chronica do Principe D. Joam. Lisboa: Officina da Música, p. 300. Tornamos à mesma confusão sobre o cargo exacto de Duarte de Almeida.

[8]  “Uma cutilada corta-lhe a mão direita; indiferente à dor, empunha com a esquerda o estandarte confiado à sua Honra e lealdade; decepam-lhe também a mão esquerda; Duarte de Almeida, desesperado, toma o estandarte nos dentes, e rasgado, despedaçado, os olhos em fogo, resiste ainda, resiste sempre” em Pereira, J. e Rodrigues, G. (1904). Portugal – Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico – Volume III. Lisboa: João Romano Torres, p. 23.

[9] Como apresentei logo de início, há quem afirme, sem motivo algum para o fazer, que o corajoso alferes tenha falecido após a batalha: “La versión más extendida afirma que falleció en combate poco después de que le cercenaran los brazos o las piernas (algo que cree Fernando Fulgosio)”, em Villatoro, M. (2016, 2 de Março). El mítico portugués que defendió su estandarte a dentelladas cuando los españoles le cercenaron de raíz los brazos. ABC Historia. Disponível em https://www.abc.es/historia/abci-mitico-portugues-defendio-estandarte-dentelladas-cuando-espanoles-cercenaron-raiz-brazos-201603020152_noticia.html .

[10] Opinião perfilhada por Duarte Nunes de Leão (século XVI) ou António de Macedo (século XVII), por exemplo, e que se perpetuam ainda hoje.

[11] Exemplo disso são as múltiplas tenças e benesses que lhe são outorgadas, a si e aos seus descendentes, como recompensa pela longa carreira de serviço. Podem não ter sido  montantes suficientes para permitir uma vida de luxo, é certo, mas dificilmente o obrigariam a trocar as armas pelas ferramentas agrícolas, como algumas fontes afirmam. Veja-se Braamcamp Freire, A. (1921), pp. 330-333.

BIBLIOGRAFIA

Braamcamp Freire, A. (1921). Brasões da Sala de Sintra, Volume I. Coimbra : Imprensa da Universidade

Góis, D. (1724). Chronica do Principe D. Joam. Lisboa: Officina da Música

Pereira, J. e Rodrigues, G. (1904). Portugal – Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico – Volume III. Lisboa: João Romano Torres.

Pulgar, H. (1780). Crónica de los Señores Reyes Católicos Don Fernando y Doña Isabel de Castilla y de Aragón. Valencia: en la Imprenta de Benito Monfort (data da primeira edição: 1490).

Villatoro, M. (2016, 2 de Março). El mítico portugués que defendió su estandarte a dentelladas cuando los españoles le cercenaron de raíz los brazos. ABC Historia. Disponível em https://www.abc.es/historia/abci-mitico-portugues-defendio-estandarte-dentelladas-cuando-espanoles-cercenaron-raiz-brazos-201603020152_noticia.html .

Zurara, G. (2012). Crónica de D. Duarte de Meneses. Edições Vercial.

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