“Vergas”, “Alões”, E Outras Expressões | “Vergas”, “Alões”, And Other Words

À conta de algum interesse nascente pelos primeiros anos do século XV, reli recentemente o excelente artigo “Armas para Ceuta (1420). Contribuição para o estudo do armamento português no início do século XV”, do pesquisador português Tiago Machado de Castro. O artigo, que examina um inventário de armas enviado para Ceuta em 1420, contém alguns itens misteriosos – palavras cujo uso há muito se alterou, ou cuja descrição não parece bater com elementos defensivos nossos conhecidos – mas contém, acima de tudo, uma valiosa lição: a necessidade de fazer estudos comparativos com fontes estrangeiras em tudo o que a armamentos medievais diz respeito.

Esta necessidade foi suscitada pela apresentação que é feita de um par de itens listados na página 51: “item outra peça rassa con seus allões e con duas vergas no peyto e huma argolla pequena em ellas” e “item outra peça com seus allões com faldra descama deanteira e com huma veste e duas vergas de ffeerro e no cabo huma argolla pequena“.

As “peças” aqui descritas são classificadas pelo investigador como sendo couraças, o que me parece ser a apreciação correcta. As dificuldades começam na descrição dos seus elementos constituintes , descrição essa que o investigador, por uma razão ou outra, não efectuou tão exaustivamente quanto seria desejável. Se alguns permanecem um mistério (o caso das argolas, por exemplo), há outros dois que se me afiguram de solução mais fácil quando confrontados com étimos, registos e artefactos estrangeiros: as “vergas” e os “alões”.

Comecemos pelas “vergas”. A palavra verga descreve uma “vara flexível e delgada”, ou uma “barra maleável e delgada de metal”, e vergar significa “dobrar em arco, curvar”. Tiago Machado de Castro não se lhes refere directamente, mas parece-me deixar subentendido, quando se refere que à “existência desses ferros e argolas integrados ou acoplados à peça central, remetem para pontos de fixação de outras partes do aparelho (braçais, etc.) e assim configura-se que se trata de um elemento central do arnês e onde se fixam as outras peças” [1] que estas vergas serão um elemento de apoio ou estrutura do arnês como um todo e não elementos de função defensiva. Se olharmos para uma couraça típica da época, porém, é-nos imediata a existência de um elemento singular, uma barra (de ferro ou aço) delgada e curva, em forma de V.

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Peito, costas e fraldão – Couraça da Ruestkammer do Castelo de Churburg, Triol do Sul, Itália (ca. 1410-1420).

Este elemento, designado por stop-rib em Inglês, é colocado no topo do peito de um combatente para deter golpes de espada apontados à garganta [2]. A simples designação “vergas”, aliada à sua localização na peça e predominância no período [3], parece-me apontar para esta explicação – que nada tem a ver com fixações de outros elementos.

Já nos “alões”, Machado de Castro oferece uma hipótese de explicação: “Podemos estar perante um aumentativo de alas, no sentido de “asas” ou “elemento lateral da armadura”, o que neste contexto sugeriria um complemento a esta peça de proteção [sic] do tronco” [4], embora a enfraqueça duplamente ao não oferecer quaisquer fontes para sustentar esta ideia e, pelo contrário, apresente uma definição de “alão” que nada tem a ver com armamento.

Eis o exercício de comparação novamente a dar os seus frutos: Machado de Castro estava perfeitamente correcto no seu palpite inicial – asas, ou “wynges”, é como são designadas as protecções laterais de uma couraça num inventário de 1423 dos bens de Henry Bowet, Arcebispo de York [5]; considerando que “alão”/”ala” e “asa” partilham raízes etimológicas, não será difícil ver como nos chegou, traduzido ou emprestado, o termo.

Outros termos neste inventário seriam de mais difícil explicação (as “argolas” – possíveis fivelas de ligação entre o peito da couraça e a panceira [6]?  Correntes (retention chains), resquícios de equipamento do século XIV, tal como Machado de Castro parece aventar? [7]), mas para estes em específico verifica-se que a sua resolução seria relativamente fácil através do confronto com documentos e artefactos estrangeiros.

 

[1] Machado de Castro, T. (2015). “Armas para Ceuta (1420). Contribuição para o estudo do armamento português no início do século XV”, in Cadernos do Arquivo Municipal, n. 4, 2ª série, Julho – Dezembro 2015, p. 51.

[2] Referindo-se à couraça, diz Blair: “The V-shaped bar here is called a lisière d’arrêt or simply a stop-rib by modern writers and was designed to prevent an opponent’s weapon from sliding up into the throat”, em Blair, C. (1972). European Armour: circa 1066 to 1700. London: B. T. Batsford Ltd., p. 61.

[3] “For the next seventy years stop-ribs were widely used, not only on the breastplate but also on the arms and legs”, em Blair, C. (1972). European Armour: circa 1066 to 1700. Londron: B. T. Batsford Ltd, p. 61.

[4] Machado de Castro, T. , op. cit., p. 50.

[5] “Uno pectorali alias brestplate in ij. partibus, cum ij. wynghes”, em Way, A. (1862). “Original Documents – The Armour and Arms Belonging to Henry Bowet, Archbishop of York, Deceased in 1423, from the Roll of his Executors’ Accounts”, in Archaeological Journal, n. 19, p. 162.

[6] Podemos ver uma destas possíveis configurações no São Jorge do Políptico Quaratesi, de Gentile da Fabriano, de cerca de 1425. A fivela parte directamente da stop-rib para a panceira.

[7] Curiosa a menção de argolas, se atentarmos à colocação de uma fiada de argolas na armadura para justa de Filipe I, o Belo, de Espanha – propósito das quais me tem até ao momento escapado.

 

FONTES BIBLIOGRÁFICAS

Blair, C. (1972). European Armour: circa 1066 to 1700. London: B. T. Batsford Ltd.

Machado de Castro, T. (2015). “Armas para Ceuta (1420). Contribuição para o estudo do armamento português no início do século XV”, in Cadernos do Arquivo Municipal, n. 4, 2ª série, Julho – Dezembro 2015, pp. 39-63. Disponível em linha em: http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/fotos/editor2/Cadernos/2serie/4/4_art2.pdf

Way, A. (1862). “Original Documents – The Armour and Arms Belonging to Henry Bowet, Archbishop of York, Deceased in 1423, from the Roll of his Executors’ Accounts”, in Archaeological Journal, n. 19. London: Royal Archaeological Institute.

FONTES ICONOGRÁFICAS

da Fabriano, G. (ca. 1425). Políptico Quaratesi [têmpera em madeira]. Florença: Galleria degli Uffizi

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In the light of my newfound interest in the early years of the 15th century, I have recently read the excellent article “Weapons to Ceuta (1420). Contribution to the study of Portuguese weaponry in the beginning of the XV century” by the Portuguese researcher Tiago Machado de Castro. The article, which transcribes and analyses an inventory of arms and armour sent to Ceuta in 1420, contains some mysterious items – words whose meaning has long since changed, or whose description does not seem to correspond to any items of defence that we know of -, but, above all, it contains a valuable lesson : the need to make comparative studies with foreign sources as far as medieval weaponry is concerned.

This need was prompted by a pair of items listed on page 51: “Item outra peça rassa con seus allões e con duas vergas no peyto e huma argolla pequena em ellas” and “item outra peça com seus allões com faldra descama deanteira e com huma veste e duas vergas de ffeerro e no cabo huma argolla pequena”.

The ‘peças’ (pieces) described here are classified by the investigator as being breastplates, which seems to me to be a correct appraisal. The trouble is their specific components, the description of which Machado de Castro, for whatever reason, did not perform as exhaustively as it would be desirable. Though some remain a mystery (the case of ‘argolas’ (rings] for example), two others that seem to me to be easibly identified when compared to foreign words, records and artefacts: the ‘vergas’ and the ‘alões’.

Let’s start with ‘vergas’. The word ‘verga’ in Portuguese describes, amongst other things, a ‘thin, flexible rod’ or a ‘thin, malleable bar of metal’, and ‘vergar’ means ‘to bow, to bend’. Tiago Machado de Castro does not talk about them directly , but when he states that “the existence of these iron parts and rings as part of, or attached to, the central piece, hint at points for the attachment of other parts [of the cuirass/harness] , and therefore [this piece] is a central element of the harness, to which other parts are fixed” [1, he seems to imply that these ‘vergas’ are a support or structural element of the harness as a whole, and not defensive pieces in themselves. If we look at a typical cuirass of the era, however,  there’s one component that immediately stands out – a thin, curved, V-shaped bar (in iron or steel).

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Breasplate, back plate and fauld – Cuirass from Churburg Castle’s Ruestkammer, Southern Tyrol, Italy (ca. 1410-1420).

This component, called a stop-rib in English, is affixed to the top of a cuirass to stop sword blows aimed at the throat [2]. The simple designation “vergas”, coupled with its location in the piece and ubiquity during the period [3], seems to me to point towards this explanation – which has nothing to do with fastening additional elements.

As for the “alões”, Machado de Castro offers a potential explanation: “We might be looking at an augmentative of alas, in the sense of asas [wings]” or “side element of the armour”, which in this context would suggest an addition to this piece of chest protection” [4], though he doubly weakens it by not offering any sources to support this idea and, on the contrary, presents instead a definition of “alão” that has nothing to do with armaments.

The comparison exercise once again bears its fruits: Machado de Castro was perfectly correct in his initial guess – wings [asas], or “wynges”, is exactly how side plates on a cuirass are referred to in a 1423 inventory of the goods of Henry Bowet, Archbishop of York [5]; considering that “alão”/ “ala” and “asa” share etymological roots, it wouldn’t be difficult to see how the term came to us, either translated or borrowed.

There are other terms in this inventory that would be rather more difficult to explain (“argolas” [rings] – perhaps straps and their buckles, connecting the chest plate of the cuirass and the plackart [6]? Retention chains, remnants of 14th century equipment? [7]), but for these pieces in particular  would’ve been relatively easy to deciphere through comparison with foreign documents and artefacts.

 

[1] Machado de Castro, T. (2015). “Armas para Ceuta (1420). Contribuição para o estudo do armamento português no início do século XV”, in Cadernos do Arquivo Municipal, no. 4, 2nd series, July – December 2015, p. 51.

[2] Regarding the cuirass, Blair says: “The V-shaped bar here is called a lisière d’arrêt or simply a stop-rib by modern writers and was designed to prevent an opponent’s weapon from sliding up into the throat”, in Blair, C. (1972). European Armour: circa 1066 to 1700. London: B. T. Batsford Ltd., p. 61.

[3] “For the next seventy years stop-ribs were widely used, not only on the breastplate but also on the arms and legs”, idem, ibidem.

[4] Machado de Castro, T. , op. cit., p. 50.

[5] “Uno pectorali alias brestplate in ij. partibus, cum ij. wynghes”, in Way, A. (1862). “Original Documents – The Armour and Arms Belonging to Henry Bowet, Archbishop of York, Deceased in 1423, from the Roll of his Executors’ Accounts”, in Archaeological Journal, no. 19, p. 162.

[6] We can see one of these configurations in the Saint George of the Quaratesi Polyptych, by Gentile da Fabriano, about 1425. The straps goes directly from the stop-rib to the plackart.

[7] The rings are a curious detail, particularly if we look at a row of rings on the jousting cuirass of Philip I, the Handsome, of Spain – the purpose of which has so far eluded me.

 

BIBLIOGRAPHY

Blair, C. (1972). European Armour: circa 1066 to 1700. London: B. T. Batsford Ltd.

Machado de Castro, T. (2015). “Armas para Ceuta (1420). Contribuição para o estudo do armamento português no início do século XV”, in Cadernos do Arquivo Municipal, no. 4, 2nd series, July – December 2015, pp. 39-63.

Way, A. (1862). “Original Documents – The Armour and Arms Belonging to Henry Bowet, Archbishop of York, Deceased in 1423, from the Roll of his Executors’ Accounts”, in Archaeological Journal, no. 19. London: Royal Archaeological Institute.

VISUAL SOURCES

da Fabriano, G. (ca. 1425). Quaratesi Polyptych [tempera on wood]. Florence: Galleria degli Uffizi

 

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