A Celada em Portugal – Notas Adicionais

Due to this article’s length, I thought it wise to publish the English and Portuguese versions separately. For the English version, please click here.

Desde a publicação do meu artigo sobre a celada em terras lusas (que podem consultar aqui), tenho vindo a encontrar algumas peças adicionais que ajudam a reforçar algumas das ideias que apresentei e que abrem novos caminhos de pesquisa, novas questões a colocar.

Para começar, os Painéis de São Vicente – uma vez mais. Por mero acaso, deparei-me com uma imagem (abaixo) partilhada pelo Museu de Lamego aquando de uma exposição de 2014 sobre as análises científicas do políptico. O que nela se pode  observar  é que, no lugar hoje ocupado pelo Infante D. Henrique no Painel dos Cavaleiros, Nuno Gonçalves teria inicialmente esboçado um guerreiro com a cabeça protegida por uma celada sem viseira. Melhor: este guerreiro foi ele próprio reformulado uma vez, ainda antes de ter sido abandonado em prol da imagem do Infante. O resultado é a existência de não uma, mas sim duas celadas de estilos diferentes, sobrepostas no mesmo espaço. Sem certeza de qual teria sido o risco inicial, o que se vê é uma celada maior, de casco redondo e sem viseira, com uma borda profundamente marcada, e rebites pronunciados – ou seja, uma celada de estilo dito italiano. No interior desta é possível ver-se muito distintamente o casco menor de outra celada com um perfil em bico, extremamente semelhante ao das celadas de influência borgonhesa que mencionei na publicação inicial.

Celada 3.png
Imagem de análise radiográfica ao Painel dos Cavaleiros. Todos os direitos pertencem ao(s) autor(es) da investigação e ao Museu de Lamego.

O que esta descoberta nos traz é, pelo menos no caso das celadas sem viseira, a confirmação do seu uso em Portugal de acordo com os retratos da Tapeçarias. Se as Tapeçarias se poderiam considerar potencialmente “contaminadas” pelos padrões artísticos e culturais da Flandres, dificilmente se poderá aplicar o mesmo raciocínio aos Painéis, elaborados como foram in Regnum Portugalliae. Por conseguinte, se estas peças se usavam em Portugal de forma comprovada, temos aqui mais um elemento que atesta à fiabilidade das Tapeçarias enquanto retrato do equipamento português de 1471.

Também na temática das celadas pastranenses, desta feita com viseira, veja-se a efígie de Don Juan Núñez Dávila, falecido em 1469. Este soberbo artefacto, embora não seja português, articula-se com a corrente ibérica de que tanto as Tapeçarias como os Painéis fazem parte – a isso atestam a panceira em “rabo-de-peixe”, por exemplo, ou o uso da dupla fralda de malha, que também se encontram em duas outras efígies da Catedral de Ávila (as de Sancho Dávila e Don Pedro González de Valderrábano). Foquemo-nos no elmo aos pés da jacente.

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Jacente do túmulo de Don Juan Núñez Dávila, na Catedral de Ávila (1469).

Dois factos interessantes em relação a esta celada. O primeiro é a sua semelhança com várias das celadas das tapeçarias – veja-se o exemplo em baixo, as semelhanças entre a articulação da viseira, o recorte do reforço de testa integrado, a colocação do rebites e a forma do casco e cauda.

Celadas 6
Esquerda: Celada com viseira, na tapeçaria Assalto a Arzila. Direita: Pormenor da celada da jacente de Don Juan.

O segundo é-nos legado pelo testamento de Don Juan ele próprio, em que se lê “(…) que luego en el año que fallesciere me hagan un bulto de alabastro mucho bueno con sus almohadas de alabastro, armado con las armas que agora se usan e con las mangas e faldas que parescan de malla de jazerán dorado y la espada y espuelas ansí mismo dorado y un paje a los pies con unas espuelas doradas en la mano y una celada francesa con sus bollones dorados e un dragón sobre el que está echado el dicho paje [itálicos meus]” [1].

Não é de estranhar que as celadas de Pastrana sejam similares a esta “celada francesa con sus bollones dorados”, já que, como explicitei no artigo sobre as celadas em Portugal, elas se inserem no grupo das celadas franco-borgonhesas. E isso leva-nos a uma última observação, de natureza mais conjectural: como se articulam as caudas das celadas de Pastrana com as suas viseiras?

É usual em celadas com viseira que a borda inferior da viseira assente no mesmo plano que a borda inferior da celada. É, aliás, esta a configuração que podemos ver na celada de Don Juan, acima. Nas celadas das Tapeçarias, no entanto – pese embora o facto de as viseiras serem representadas erguidas -, o bordo inferior da celada parece curvar-se para lá dos limites inferiores da viseira, cobrindo dessa forma uma maior superfície do pescoço e nuca.

Celadas 5
Celadas com viseira. Pormenores das tapeçarias Desembarque em Arzila (esquerda) e Tomada de Arzila(centro e direita).

Esta característica é observável em várias celadas, tanto existentes como representações, desde cerca de 1450 aos primeiros anos do século XVI.

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Esquerda, topo: pormenor de iluminura do manuscrito Guiron le Courtois, BNF Français 356, 77v (ca. 1450). Centro, Topo: pormenor da tapeçaria flamenga Tarquinius Priscus (ca. 1475). Direita, topo: pormenor do Solothurner Fechtbuch (primeiros anos do século XVI). Esquerda, fundo: celada franco-borgonhesa (ca. 1460), Metropolitan Museum of Art, 29.150.13. Centro, fundo: celada alemã (ca. 1485-1510), Castelo Žleby, ZL 6691. Direita, fundo: celada italiana (ca. 1500-1520), The Wallace Collection.

Será esta mesma curva que encontramos nas celadas pastranenses? Ou, melhor dizendo: será esta curva uma estilização de perspectiva nas tapeçarias, fruto de estilos medievais de composição gráfica; ou será que, à semelhança das representações e artefactos atrás apresentados, havia uma tendência portuguesa para o uso de celadas com uma nuca/cauda prolongada? Fica a questão, juntamente com estes apontamentos.

 

[1] Ruiz-Ayúcar, M. (1987). La ermita de Nuestra Señora de la Vacas de Ávila, y la restauración de su retablo, p. 25.

 

BIBLIOGRAFIA

Ruiz-Ayúcar, M. (1987). La ermita de Nuestra Señora de la Vacas de Ávila, y la restauración de su retablo. Ávila: Institución Gran Duque de Alba.

FONTES VISUAIS

(ca. 1475). Desembarque em Arzila [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Disembarkation_in_Asilah_(Desembarco_en_Arcila)

(ca. 1475). Tarquinius Priscus [lã e seda]. Tapeçaria. Zamora: Museu da Catedral. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Assault_on_Asilah_(Asalto_de_Arcila)

(ca. 1475). Tomada de Arzila [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Assault_on_Asilah_(Asalto_de_Arcila)

(ca. 1469). Túmulo de Don Juan Núñez Dávila [estatuária em alabastro]. Ávila: Catedral de Ávila. Retirado de https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/23/Sepulcro_de_Juan_Núñez_Dávila%2C_Catedral_de_Ávila.jpg

Guiron le Courtois (ca. 1420). Paris, Bibliothèque nationale de France, BNF Français 356. Disponível em-linha em http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b8514422s/f1.planchecontact.r=.langEN

Solothurner Fechtbuch (início do século XVI). Solothurn: Zentralbibliothek, Codex S.554

Gonçalves, N. (ca. 1470). Panéis de São Vicente [óleo e têmpera em madeira]. Lisboa: Museu Nacional de Arte Antiga. Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Painéis_de_São_Vicente_de_Fora#/media/File:Lagos40_kopie.jpg

AGRADECIMENTOS

Ao Callum Tostevin-Hall pelo estimulante debate sobre a cobertura de pescoço das celadas de Pastrana, e ao Virgil Oldman pela ajuda a encontrar o número de inventário da celada de Žleby.

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