Armadura Quatrocentista Portuguesa I – Celada e Babeira

Due to this article’s length, I thought it wise to publish the English and Portuguese versions separately. For the English version, please click here.

Houvesse caso para eleger o elmo mais icónico do século XV, a escolha recairia, com alguma probabilidade, sobre a celada. Por terras lusitanas, tal como além-Pirinéus, a celada disseminou-se no exército de Quatrocentos e rapidamente suplantou o tipo de elmo até então preferido dos portugueses – o bacinete. O que caracteriza a celada portuguesa da época, e o que a separa de outros modelos europeus?

Celadas: Uma Breve Introdução

Este tópico já foi abordado com toda a mestria e acuidade pelo sempre fantástico Ian LaSpina, numa das apresentações do seu canal Knyght Errant [1], cuja visualização não tenho como deixar de recomendar. Para aqueles de nós que não dominam o Inglês ou que preferem numa nova abordagem, apresento esta minha versão.

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Pormenor de capitel no Palácio Ducal de Veneza (ca. 1340-1360).

Embora a palavra celata surja registada pela primeira vez apenas em 1407 [2], é muito provável (para não dizer certo) que a peça que o termo designa anteceda este registo por algumas décadas, tendo por base a existência de obras como os capitéis das arcadas góticas do Palácio Ducal em Veneza – um pormenor dos quais se reproduz à direita [3] – ou o altar da Catedral de Pistóia, em Itália, um pormenor do qual que se reproduz abaixo. Particularmente elucidativo neste segmento do frontal do altar é a coexistência dos elmos comuns do período – um chapéu-de-armas, por exemplo, e bacinetes  – com algumas protecções de cabeça curiosas nos dois guerreiros em primeiro plano.

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1 – Possíveis modelo de proto-celada; 2 – Bacinetes; 3 – Chapéu-de-armas. Pormenor do frontal do Altar de São Tiago na Catedral de Pistóia, por Leonardo di Ser Giovanni e Francesco Niccolai (1361-1371).

O que difere neste novo modelo? Comparados aos típicos bacinetes, estes elmos apresentam um casco muito mais justo aos contornos do crânio, sem a elevação traseira da nuca que o bacinete costuma apresentar. Por serem concebidos para não se emparelharem com qualquer espécie de camal ou gorjal de malha [4], a lateral do elmo avança para cobrir uma maior área das bochechas e maxilar, e a zona do pescoço curva-se num pequeno rebordo saliente para deflectir golpes. Podiam, como LaSpina refere, incorporar um bico-de–viúva pronunciado sobre a testa (algo que iremos encontrar ainda em modelos mais tardios). Deste modelo prototípico, surgido em Itália, desenvolveram-se dois subtipos: a barbuta, que não vamos aqui abordar – por ser um elmo de utilização quase exclusivamente italiana, e certamente não portuguesa [5] -, e a celada propriamente dita.

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Pormenor do Retábulo de São Jorge, em Xérica (Valença) , obra do círculo de Marçal de Sax (ca. 1420). Observe-se o guerreiro à esquerda, com a sobrecota verde, ou o guerreiro directamente ao centro.

A celada espalha-se pela Europa: França, em primeiro lugar, pelo menos a partir de 1419 [6]; depois o Sacro-Império Romano-Germânico, pelo menos desde 1425 [7]; Inglaterra, pelo menos desde 1430 [8]. Em Espanha temos registos visuais de celadas a partir da década de 1420, como podemos observar na imagem à esquerda.

Com o passar do tempo, a celada altera-se: já em finais de século XIV se adoptam viseiras [9], à semelhança dos bacinetes, mas a nuca prolonga-se ainda muito para baixo, apanhando parte do pescoço, pelo que a viseira fica assente a meio da face do elmo, empregando-se já uma babeira para proteger o fundo da face e queixo. É a partir de meados do século que a linha de pescoço sobe para ir de encontro à linha de fundo da viseira, formando as duas um contínuo ao nível do maxilar e cristalizando assim o formato-padrão da celada – embora a celada sem viseira continuasse a ser utilizada ao longo de todo este período,e  após. Estes modelos coexistiram durante alguns anos, mas o novo modelo rapidamente suplantou o antigo.

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Duas celadas com viseira e uma celada aberta. Iluminura do volume francês Guyron le Courtois, BNF Français 356, 189r (ca. 1420).

Variações Regionais

A dispersão da celada e a sua adopção por parte de diferentes culturas levou naturalmente a adaptações e preferências locais ou regionais, através de um determinado repertório de características presentes – parcial ou totalmente – em peças originárias desses regiões, ou para elas produzidas. Elenquemos (algumas d)as mais comuns:

Estilo Italiano
Celada milanesa de exportação (ca. 1460), Royal Armouries, II.168.

Celadas Italianas/Milanesas – O estilo italiano de celada, denominado “milanês” por causa dos grandes centros armeiros de Milão, apresenta um casco redondo, com ou sem cristas, e uma cauda curta. Tinham maioritariamente viseiras de face inteira com um reforço de testa  integrado, embora celadas sem viseira fossem também muito populares, fosse por razões de custo (para a soldadesca) ou de visibilidade (para qualquer soldado com armas de longo alcance, por exemplo).

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Celada alemã (ca. 1480-1490), Royal Armouries, IV.427

Celadas Alemãs/Góticas – Este estilo de celada, surgido nas décadas de 1450/1460 [10], é menos curvilíneo e redondo que o estilo italiano. Apresenta ora viseiras – de face inteira ou de meia-face – bastante angulosas, ora um casco fechado que se estende até ao queixo, na frente do qual se rasgam aberturas para a visão. A sua característica mais saliente é porém a cauda: longa, quando comparada à cauda das celadas ditas italianas, projectando-se sobre a nuca. Embora a início estas caudas fossem extensões do casco do elmo, adoptaram-se mais tarde caudas maiores e mais flexíveis feitas de uma ou mais placas [11] – vulgarmente denominadas “caudas de lagosta”.

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Celada anglo-borgonhesa (ca. 1460), Herbert Art Gallery & Museum, AR.1962.54.

Celadas Anglo-Borgonhesas/Franco-Borgonhesas – A celada Anglo-Borgonha ou Franco-Borgonhesa é um estilo de certa forma intermédio que se aproxima de ambas os estilos atrás mencionados. Possui a cauda curta e o casco redondo do estilo milanês, que conjuga com um casco habitualmente alongado em bico e uma volumetria mais sinuosa que as típicas formas italianas. São algumas das celadas mais raras actualmente. Aquela que aqui se reproduz à esquerda, de Coventry, é tida como o único exemplar do seu tipo no Reino Unido.

É possível encontrar celadas italianas elaboradas em estilos alemães, e vice-versa; e as preferências de cada comprador contrariavam por vezes as tendências gerais da sua região. Outras variações regionais existem – as celadas escandinavas, por exemplo, com os seus cascos globosos -, mas é necessário ainda um trabalho de investigação e coordenação que procure tipificar todos os tipos de celada de que dispomos.

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Babeira castelhana (?)  (ca. 1490), Art Institute of Chicago, 1982.2527

Celadas e Babeiras

Mencionei não poucas vezes a babeira até agora. A babeira (também chamada de barbote, em Português) é uma peça de protecção do queixo e garganta, afivelada sobre a parte de trás do pescoço e composta por uma ou mais placas articuladas, podendo ou não incluir almofadagem na zona do queixo. Podia articular-se com um gorjal de malha, para assegurar protecção a toda a volta do pescoço. No caso português, tal como no castelhano, a placa central da babeira podia alongar-se sobre o esterno e a placa de topo, sobre a boca, é muitas vezes articulada – no caso castelhano, estas placas eram por vezes dotadas de rasgos para a visão, quando atingiam a linha do olhar [12].

A Celada em Portugal

A julgar pela predominância do bacinete na Carta de Quitação do Arsenal Régio de Lisboa, de 1455 [13], a celada parece ter vingado em Portugal apenas a partir da segunda metade do século XV. As crónicas oficiais, de Fernão Lopes e de Gomes Eanes de Zurara, são também escassas no que toca a referências a celadas. No entanto, nos cerca de 20 anos que separam o inventário da Carta e a execução das Tapeçarias parece ter-se dado um completo virar de maré: o bacinete desaparece por completo do exército afonsino, e a celada (juntamente com o chapéu-de-armas, ou “barreta”[14]) torna-se a protecção de cabeça predominante entre os nossos guerreiros.

Como explicar esta chegada tão tardia da celada a terras lusas? Se tivermos em linha de conta não só a importação que se fazia de armas da Flandres – onde a celada era já habitual no início do século XV -,  como também a coexistência com Castela, onde já se usavam celadas desde pelo menos a segunda década do mesmo século, as fontes atrás mencionadas adquirem contornos peculiares. Por um lado, não foi só por terras lusas que a celada coexistiu em minoria durante muito tempo com o bacinete [15]. Por outro,  e segundo Paulo Simões Agostinho, é possível que os cronistas portugueses empregassem vários termos – incluindo bacinete – para se referirem aos primeiros tipos de celada [16]. Desse modo, tal como a celata original se possa ter referido a um tipo transicional de bacinete, também uma quantidade dos bacinetes listados na Carta de Quitação possa corresponder a modelos ainda prototipais, ou iniciais, da celada (aquelas a que Paulo Agostinho se refere, erroneamente, como “celadas italianas” [17]). Este raciocínio, embora praticamente impossível de comprovar, parece-me válido. Igualmente válida poderá ter sido a actualização em massa do equipamento militar português em preparação da invasão, à semelhança do que acontecera em 1373 por ordem de D. Fernando [18]. Uma encomenda de grandes dimensões, colocada junto de armeiros da Flandres e de Itália, explicaria alguma da uniformização estilística que encontramos nestas representações.

De chegada mais tardia ou não, certo é que não temos por ora maneira de apurar a existências da celada em terras de Portugal antes de 1438, e menos maneira temos de saber exactamente que configuração assumiam. Não há (do meu conhecimento) quaisquer celadas extantes em Portugal, nem tampouco jacentes ou representações pictóricas que antecedam as Tapeçarias. Resta-nos o “retrato de grupo” afonsino como forma de análise desta peça de equipamento em particular.

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Cavaleiro arnesado com celada e babeira, pormenor da tapeçaria Cerco de Arzila.

Para poder tecer considerações sobre as celadas representadas, porém, seria necessário um estudo estatístico de cada uma destas protecções de cabeça retratada em cada uma das Tapeçarias – por forma a apurar a existência de determinados padrões ou características comuns. Até hoje não se fez, infelizmente, este tratamento… pelo que me vi forçado a elaborá-lo, com a valiosa ajuda do meu amigo Martim Gervais – a quem ficam os meus mais sinceros agradecimentos e, obviamente, crédito pela colaboração.

Usámos, para este processo de análise, o método de divisão das tapeçarias em quadrículas empregado por Inês Araújo na sua tese de mestrado [19]. Cada celada presente em cada quadrícula foi devidamente identificada através de um rol de características – a presença de viseiras, a presença de babeiras, a morfologia do casco, os diversos formatos de rebites, entre outras. A lista completa de elementos analisados será publicada em breve neste espaço, após a devida “limpeza” do ficheiro e confirmação dos dados expostos, mas dispomos de dados suficientes para formar uma ideia razoavelmente clara sobre a típica celada portuguesa de 1471.

Das características que mais sobressaem desta análise, a mais saliente (pun intended) será o casco justo ao crânio mas pontiagudo/com terminação em bico, predominante em relação a cascos redondos lisos. A cauda da celada é curta, com as mesmas dimensões aproximadas tanto em celadas com viseira como sem ela. A viseira é uma constante nas celadas das Tapeçarias, embora seja difícil precisar com exactidão o tipo de viseira com que se lida mais frequentemente – se de face inteira, se de meia-face. Em qualquer dos casos, o reforço de testa – integrado ou não na viseira – apresenta-se frequentemente recortado, com dois ou três crescentes entre a articulação da viseira e o ápex da crista central.

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Celadas com viseira. Pormenores das tapeçarias Desembarque em Arzila (esquerda) e Tomada de Arzila (centro e direita).

Celadas sem viseira também as há em grande número, correspondendo às celadas ditas “italianas” ou “venezianas”. Apresentam-se simples, com casco pontudo ou liso, e a mesma cauda curta. Tal como as suas congéneres italianas, apresentam-se frequentemente forradas a tecido – embora seja impossível precisar com exactidão qual o material usado.

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Celadas sem viseira. Pormenores da tapeçaria Cerco de Arzila.
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Cavaleiro arnesado, pormenor da Crucificação de Martín Bernat (ca. 1470-1480).

No que diz respeito à ornamentação, temo-la de tipo vário. Começando pelos rebites – sempre em tom dourado, e dispostos por forma a fixar o forro interior do elmo – encontramos variadas formas decorativas, do simples rebite de cabeça redonda a rebites com cabeça triangular ou em forma de flor. Observam-se também coberturas em tecido – tecidos lisos mas também brocados, veludos e sedas – de vários dos cascos (nunca das viseiras), embora a maior parte das celadas com viseira se apresente em metal nu. Convém por fim salientar a presença de vários penachos, plumas e respectivos encaixes (por vezes sem pluma), assim como borlas e outras formas de decoração do topo do elmo. Também aqui encontramos alguns paralelos em iconografia castelhana, como é o caso de um cavaleiro na Crucificação do artista Martín Bernat de Saragoça (à esquerda). Uma peculiaridade dos porta-plumas portugueses das tapeçarias é o formato “garra de águia/dragão” visível em várias figuras – incluindo o próprio D. Afonso V.

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Celada franco-borgonhesa, (ca. 1460), Metropolitan Museum of Art, 29.150.13.

Uma última nota diz respeito às já mencionadas babeiras. Atrás afirmei que a babeira “ibérica” típica deste período estende-se até à ponta inferior do esterno. Não é esta a morfologia que encontramos nas Tapeçarias. As babeiras do exército afonsino são tendencialmente mais curtas, com placas de queixo justas ao semblante dos guerreiros e lâminas de base arredondadas ou com uma terminação em bico muito suave. Atingem apenas o topo do esterno, no seu limite inferior, não subindo nunca ao nível do nariz ou olhos. Podem também ser compósitas, ou seja, formadas por várias placas articuladas. Nesta configuração, têm bastante em comum com algumas babeiras oriundas da Flandres que se conservam na Real Armería (com as identificações E.245, C.9 e D.15). Para além das babeiras, muitos dos guerreiros das Tapeçarias complementam a protecção da celada com uma “additional defense for the nape of the neck, formed by a short tail made up of overlapping semicircular plates” [20], que o meu colega Martim apelidou de “caudas de pangolim”.

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Celada castelhana (?) (ca. 1490), Musée de l’Armée.

Este apanhado de características globais permite-nos portanto inserir a celada portuguesa arquetipal das Tapeçarias no grupo das celadas Anglo-Borgonhesas/Franco-Borgonhesas. O formato dos cascos é sem dúvida a peça-chave desta identificação, já que constituem uma das marcas por excelência do estilo borgonhês – veja-se a celada franco-borgonhesa acima, à direita [21], ou a supramencionada celada de Coventry. Esta é uma conclusão que se coaduna não só com a influência do Ducado da Borgonha na cultura portuguesa de Quatrocentos mas também com tendências observáveis em Castela. Um caso de admirável similitude é o da celada e babeira (à esquerda) de um conjunto espanhol que se encontra actualmente no Musée de l’Armée em Paris, com a terminação pontuda do casco (com um pico arrebitado, à semelhança dos capacetes d’álem-raia).

Em termos de utilização, por fim,  o uso de dois tipos de celada parece ser diferenciado por razões práticas: a celada “fechada”, com viseira, é empregada pela infantaria de combate corpo-a-corpo, que requer maior protecção da face; enquanto a celada “aberta”, sem viseira, é usada pelos besteiros, arcabuzeiros e bombardeiros, que ficam assim com a visão desimpedida.

A Celada em Recriação

A celada é uma das mais elegantes peças do arsenal bélico da Idade Média. Como tal, requer mãos experientes na sua feitura, por forma a manter a devida fineza de silhueta – que se verifica mesmo em celadas de qualidade inferior. A conjugação com a babeira, que se quer precisa, faz com que haja por vezes incompatibilidades entre peças oriundas de diferentes armeiros, mesmo que cada peça apresente a devida qualidade individualmente. Por estas razões se recomenda vivamente que se adquira a celada e a babeira em conjunto a um artesão experiente, em vez de réplicas baratas oriundas da Índia.

 

[1] Na realidade, uma série de três vídeos complementares: a duologia Helmets: The Sallet, e o vídeo auxiliar Anatomy of a Sallet. As ligações para os três vídeos encontram-se listadas nas respectivas entradas bibliográficas.

[2] O termo aparece registado pela primeira vez no inventário dos Gonzaga, uma das grandes famílias italianas da Lombardia, juntamente com o termo barbuta. Veja-se a este respeito Oakeshott (2012), p. 109, ou Blair (1972), p. 85.

[3] As arcadas góticas do Palácio foram erigidas aquando da reconstrução do edifício, iniciada na década de 40 do século XIV (veja-se Hurst, E. (2015). “Palazzo Ducale”. In Smarthistory, August 9, 2015, accessed August 26, 2018, https://smarthistory.org/palazzo-ducale/). Como elemento estrutural fundamental das novas instalações, a sua implantação não terá ocorrido muito depois do início das obras. Quanto ao tipo de elmo apresentado, contraste-se com os elmos do altar de Pistóia, ou ainda com os que se podem observar em certas iluminuras do manuscrito bolonhês Speculum Humanae Salvationis, elaborado entre 1350-1400.

[4] “For example, we don’t see any indication that they’re worn with a maille aventail, or that they could even be worn with a maille aventail; they don’t have the hardware required to attach one.” LaSpina, I. [Knyght Errant] (2016, 17 de Agosto). Helmets: The Sallet Pt. 1 [Ficheiro de vídeo]. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=OLyEBe6vw4w

[5] Não há, que seja do meu conhecimento, qualquer registo histórico em Portugal que se refira a barbutas. Há, sim, uma referência de Fernão Lopes a um tipo de bacinete usado “com camall de malha com cara posta” cuja protecção se alargava à zona do queixo e que, por símile, se apelidava de barvuda (Agostinho, P. (2014), p. 63). Este termo reporta-se a uma peça de cerca de 1370, no entanto, enquanto que a barbuta só se definiu em Itália algumas décadas mais tarde (veja-se Blair (1972), p. 85). Um e outro modelo não devem ser confundidos.

[6] LaSpina, I. [Knyght Errant], op. cit.

[7] Segundo Oakeshott, “There are two references in the archives of Innsbruck, one dated 1425, the other 1426; the first refers to drei tscheleren and the second to drei tscheleden. Tschelede is clearly a corruption of celata, so it probably applies to the exported products of Milan” in Oakeshott (2012), p. 111.

[8] LaSpina, I. [Knyght Errant], op. cit.

[9] Já no supramencionado manuscrito Speculum Humanae Salvationis se pode observar, no fólio 32v, uma proto-celada com viseira.

[10] Veja-se Blair (1972), p. 106.

[11] “The German sallet developed an extremely long tail, sometimes made flexible by the interposition of three or four narrow lames riveted at the sides like the articulations in a lobster between the skull and the end of the tail” in Oakeshott (2012), p. 291.

[12] “With these war-hats was worn the long bevor called a barbote. This was often built up with plates supported on spring-catches reaching to as far as the eyes, to act as a visor, and at the same time extending in a point well down over the chest to afford as much protection as possible to the breast, which would be defended only by a brigandine”. p. 296, Mann. Deste tipo “ibérico” de babeira existem alguns exemplares em Portugal, na colecção privada de Rainer Daehnhardt, por exemplo, ou uma babeira do Museu Militar de Lisboa (MML, nº 21/64), em tudo semelhante a babeiras castelhanas da época (como as do acervo da Real Armería de Madrid).

[13] Segundo o quadro sinóptico da Carta, em Monteiro (2001), p. 45, comparados com 1174 bacinetes “de armazém e da Flandres”  recebidos e um total de 1.317 despendidos, dão entrada nos registos do Arsenal apenas 31 celadas recebidas e 51 despendidas ao longo de todo o decénio.

[14] Para esta questão, veja-se Agostinho (2014), pp. 75-76.

[15] “The bascinet and kettle-hat remained the most popular form of helmet in Germany until c. 1450”, em Blair (1972), p. 102. Este período coincide com o da Carta de Quitação.

[16] Referindo-se neste caso a defesas abertas, vulgo capacetes ou chapéus-de-armas, diz Agostinho que ou a cronística quatrocentista os ignora, “ou os capacetes surgem camuflados por outros nomes (preferindo os cronistas continuar a usar nomes mais tradicionais, como bacinete e celada)” (2014, p. 76). O mesmo raciocínio se poderá extrapolar para as celadas face aos bacinetes – coisa que, aliás, Claude Blair faz ao referir-se às “proto-celadas” italianas: “It is not unlikely that this is the form of helmet to which the Italian word celata was first applied, for it certainly seems to be the precursor of the helmet that was so called later in the 15th century” em Blair (1972), p. 70.

[17] Cita Agostinho: “A celada, segundo G. Stone (STONE, 1999, p. 536), era uma protecção de cabeça muito utilizada, no século XV, em várias regiões da Europa, existindo mesmo dois modelos de celadas bastante diferentes entre si. O primeiro era a celada italiana, peça bastante cingida à cabeça e ao pescoço e sem viseira móvel. Alguns modelos deixavam descoberto o rosto do combatente, mas o modelo mais comum tinha uma abertura frontal em forma de T, que permitia a visão e a respiração sem desproteger em demasia o seu utilizador”. Ora, esta descrição adequa-se à barbuta italiana e não à celada, mesmo na sua variante desprovida de viseira e com bico-de-viúva acentuado. Embora uma e outra se possam considerar aparentadas, não devem ser confundidas. Repare-se também no erro de agrupamento, reduzindo a existência de vários tipos de características regionais que já mencionei a dois únicos grupos (e ignorando que também as celadas usadas em Itália se podiam apresentar com  viseira).

[18] “Segundo relata Fernão Lopes, por ocasião das reformas no equipamento militar que empreendeu em 1373, logo após a assinatura do tratado de Santarém, D. Fernando mandou que as capelinas fossem substituídas por “barvuda com camalhom” (…)”, em Monteiro (1998), p. 536. No caso em análise, é possível que esta actualização, caso tenha ocorrido, possa ter sido estimulada pelo clima de instabilidade da regência de D. Pedro  que culminou na batalha de Alfarrobeira.

[19] Veja-se Araújo (2012), p. 12.

[20] La Rocca (2014), p. 37.

[21] “(…) the pointed bowl is characteristic of sallets illustrated in French and Burgundian manuscripts and tapestries and of several surviving examples preserved in English churches”, em Pyhrr (2000), p. 9.

 

FONTES BIBLIOGRÁFICAS

Agostinho, P. (2012). Vestidos para Matar: O Armamento de Guerra na Cronística Portuguesa de Quatrocentos. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra

Araújo, I. (2012). As Tapeçarias de Pastrana – Uma Iconografia da Guerra. Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa [Tese de Mestrado]. Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Barroca, M. J. e Monteiro, J. G. (Coords.) (2000). Pera Guerrejar – Armamento Medieval no Espaço Português. Palmela: Câmara Municipal de Palmela

Blair, C. (1972). European Armour: circa 1066 to 1700. Londron: B. T. Batsford Ltd.

Calvert, A. (1907). Spanish Arms and Armour. London: John Lane, The Bodley Head. Disponível em-linha em https://www.gutenberg.org/files/47878/47878-h/47878-h.htm

Grancsay, S. (1951). “A Late Medieval Helmet (Sallet)”. In The Journal of the Walters Art Gallery, Vol. 13/14 pp. 20–29. Baltimore: The Walters Art Museum

Demmim, A. (1893). Die Kriegswaffen in ihren geschichtlichen Entwickelungen von den ältesten Zeiten bis auf die Gegenwart. Leipzig : P. Friesehahn

Hurst, E. (2015). “Palazzo Ducale”. In Smarthistory, August 9, 2015, accessed August 26, 2018, https://smarthistory.org/palazzo-ducale/.

La Rocca, D. (2011). “Afonso ‘the African’ and his Army: The Pastrana Tapestries as a Visual Encyclopedia for the Study of Arms and Armour”. In Ibarra, M. A. de B. (2011). The Invention of Glory: Afonso V and the Pastrana Tapestries, pp. 29-41

Mann, J. (1933). “Notes on the armour worn in Spain from the tenth to the fifteenth century” em Archaeologia, V. 83,  pp. 285-305. London: Society of Antiquaries of London

Monteiro, J. G. (2001). Armeiros e Armazéns nos Finais da Idade Média. Viseu: Palimage Editores

Monteiro, J. G. (1998). A Guerra em Portugal nos finais da Idade Média. Lisboa: Editorial Notícias

Oakeshott, E. (2012). European Weapons and Armour: From the Renaissance to the Industrial Revolution. Woodbridge, UK: Boydell Press

Pyhrr, S. (2000). European Helmets, 1450 – 1650. Treasurs from the Reserve Collection. New York: The Metropolitan Museum of Art

Valencia de Don Juan, C. (1898). Catálogo Histórico-descriptivo de la Real Armeria de Madrid. Madrid: Fototipias de Hauser y Menet

FONTES ICONOGRÁFICAS

(ca. 1475). Cerco de Arzila [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Siege_of_Asilah_(Cerco_de_Arcila)

(ca. 1475). Desembarque em Arzila [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Disembarkation_in_Asilah_(Desembarco_en_Arcila)

(ca. 1475). Entrada em Tânger [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/The_taking_of_Tangier_(Toma_de_T%C3%A1nger)

(ca. 1475). Tomada de Arzila [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Assault_on_Asilah_(Asalto_de_Arcila)

Guiron le Courtois (ca. 1420). Paris, Bibliothèque nationale de France, BNF Français 356. Disponível em-linha em http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b8514422s/f1.planchecontact.r=.langEN

Speculum Humanae Salvationis (ca. 1350-1400). Paris, Bibliothèque nationale de France, BNF Français 593.

Bernat, M. (ca. 1470-1480). Crucificação [óleo em madeira]. San Diego: Museo de Arte de San Diego

FONTES VIDEOGRÁFICAS

LaSpina, I. [Knyght Errant] (2016, 17 de Agosto). Helmets: The Sallet Pt. 1 [Ficheiro de vídeo]. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=OLyEBe6vw4w

LaSpina, I. [Knyght Errant] (2016, 21 de Agosto). Helmets: The Sallet Pt. 2 [Ficheiro de vídeo]. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=XssorlVXsv4

LaSpina, I. [Knyght Errant] (2016, 8 de Dezembro). Anatomy of a Sallet [Ficheiro de vídeo]. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=qo517b3kMH0&feature=share

 

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