A Evolução da Guarda “Portuguesa” – Breve Nota | The Development of the “Portuguese” Guard – A Brief Note

Numa recente visita ao Museu Nacional de Arte Antiga, deparei-me com duas estátuas que nos podem ajudar a mapear o desenvolvimento da guarda dita portuguesa (da qual já falei aqui) ao longo do século XV.

Na minha publicação sobre a espada portuguesa operei, por falta de dados, um enorme salto temporal. Afirmei, citando: “Durante cerca de 60 anos, não há registo da disseminação, entre nós, de qualquer modelo de espada que se possa classificar como peculiarmente nacional”. E talvez ainda assim seja. No entanto, há que chamar a atenção para a os supramencionados artefactos: um São Paulo de 1440-1450, da oficina do Mosteiro da Batalha, e uma Santa Catarina de cerca de 1460 atribuída ao Mestre João Afonso. Ambas as peças são originárias da colecção pessoal do Comandante Ernesto Vilhena (1876-1967), o mais importante coleccionador de arte estatuária em Portugal na primeira metade do século XX.

São Paulo
São Paulo, das oficinas do Mosteiro da Batalha.
Santa Catarina
Santa Catarina (ca. 1460), por João Afonso.

Comparando o São Paulo, que podemos observar à esquerda (numa péssima fotografia minha) , com a Santa Catarina à direita, é possível observar semelhanças na pose, no cunho artístico, no estilo. O que nos interessa, no entanto, são as espadas portadas pelas duas figuras – ou, mais precisamente, as suas guardas.  É curioso notar que, apesar dos anos que as separam, ambas apresentam um anel de guarda extremamente semelhante e a mesma exacta configuração, em forma de escudo, da chappe – a componente, originalmente de couro, afixa à zona de contacto entre o guarda-mão e a lâmina da arma [1].

Uma segunda observação diz respeito ao guarda-mão. Apesar de praticamente desaparecido, no caso do São Paulo, há um vestígio que nos permite conjecturar uma possível curvatura na direcção da lâmina, curvatura essa que está bem patente no guarda-mão remanescente na Santa Catarina e que iremos encontrar mais tarde, de forma muito exagerada, nos trabalhos de Nuno Gonçalves.

Guarda Portuguesa 2
Esquerda: A guarda quebrada do São Paulo da Batalha; Centro: A guarda da Santa Catarina. Note-se a ponta do guarda-mão; Direita: pormenor de guarda-mão da guarda dita “portuguesa” no Painel do Arcebispo dos Painéis de São Vicente.

Poderá isto ser revelador de alguma tendência nacional para, a meio do século XV, adoptar habitualmente o anel de guarda e o guarda-mão arqueado na produção de espadas? Ou terá sido apenas um modelo comum dentro das oficinas do Mosteiro, nas quais o próprio João Afonso se formou, e que por coincidência se veio a coordenar com preferências estilísticas futuras? Como sempre, e apesar destas pequenas pistas, as respostas em definitivo escapam-se-nos.

 

[1] Não se sabe muito bem para que terá servido a chappe. Ewart Oakeshott postula que tenha servido “partly, no doubt, as an embellishment and partly to prevent rain from running into it [a bainha]”  (Oakeshott, p. 229).

FONTES BIBLIOGRÁFICAS

Oakeshott, E. (1960). The Archaeology of Weapons: Arms and Armor from Prehistory to the Age of Chivalry. Massachusetts: Courier Corporation.

FONTES ICONOGRÁFICAS

Oficinas do Mosteiro da Batalha (ca. 1440-1450). São Paulo [calcário policromado]. Lisboa: Museu Nacional de Arte Antiga.

Afonso, J. (ca. 1460). Santa Catarina [calcário policromado]. Lisboa: Museu Nacional de Arte Antiga.

Gonçalves, N. (ca. 1470). Painéis de S. Vicente de Fora [óleo e têmpera em madeira]. Lisboa: Museu Nacional de Arte Antiga. Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Painéis_de_São_Vicente_de_Fora#/media/File:Lagos40_kopie.jpg

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On a recent visit to the National Museum of Ancient Art, in Lisbon, I came across two statues that might help us map the development of the so-called Portuguese guard (which I have already mentioned here) throughout the 15th century.

In my post on the Portuguese sword, and due to a lack of data, I said, quoting: “For about 60 years, there are no records of any prevailing sword type that could be said to be peculiarly Portuguese”. And while that might still be the case, I need to draw your attention to the aforementioned artefacts: a Saint Paul from 1440-1450, from the workshops of the Monastery of Batalha, and a Saint Catherine from about 1460 attributed to Master João Afonso. Both pieces came from the personal collection of Commander Ernesto Vilhena (1876-1967), the most important collector of sculptures in Portugal in the first half of the 20th century.

São Paulo
Saint Paul, from the workshops of the Monastery of Batalha (ca. 1440-1450).
Santa Catarina
Saint Catherine, by João Afonso (ca. 1460).

Comparing the Saint Paul on the left (in a very bad picture of mine, for which I apologise), with the Saint Catherine on the right yields some obvious similarities in pose and style – not at all surprising considering their provenance and intended use. What’s interesting to us, however, is the swords both figures holding – or, more precisely, their guards. It is curious to see that, despite the years that separate one piece from the other, they both have an extremely similar finger ring and the same exact shield-like chappe or rain-guard – a piece of leather fitted to the crossguard and overlapping the base of the blade [1].

A second observation concerns the quillons. Although practically gone, in the case of the Saint Paul, there is just enough left to suggest that they were originally curved towards the blade – the same curvature evident in the remaining quillon of Saint Catherine’s sword and that we will find later, in exaggerated fashion, in the works of Nuno Gonçalves.

Guarda Portuguesa 2
Left: The broken guard of the Saint Paul from Batalha; Centre: Saint Catherine’s guard. Notice the shape of  the remaining quillon ; Right: detail of a “Portuguese”-style guard quillon in the Panel of the Archbishop from the Saint Vincent Panels.

Could this be revealing of a mid-15th century tendency of the Portuguese to routinely adopt finger rings and curving quillons in their swords? Or was it just a common model within the workshops of the Monastery of Batalha – workshops in which João Afonso himself was apprenticed -, which just happened to coincide with future stylistic preferences? As always, and in spite of these small hints, a definitive answer elude us.

 

[1] There are no certainties regarding the chappe’s function. Ewart Oakeshott postulated that it would have been used “partly, no doubt, as an embellishment and partly to prevent rain from running into it [the scabbard]”, thus earning its second name in English – the rain-guard (Oakeshott, p. 229).

BIBLIOGRAPHICAL SOURCES

Oakeshott, E. (1960). The Archaeology of Weapons: Arms and Armor from Prehistory to the Age of Chivalry. Massachusetts: Courier Corporation.

VISUAL SOURCES

Workshops of the Monastery of Batalha (ca. 1440-1450). Saint Paul [polychrome limestone]. Lisbon: National Museum of Ancient Art.

Afonso, J. (ca. 1460). Saint Catherine [polychrome limestone]. Lisbon: National Museum of Ancient Art.

Gonçalves, N. (ca. 1470). Saint Vincent Panels [oil and tempera on wood]. Lisbon: National Museum of Ancient Art. Retrieved from https://pt.wikipedia.org/wiki/Painéis_de_São_Vicente_de_Fora#/media/File:Lagos40_kopie.jpg

 

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