Roupa Masculina II – Camisa

Due to this article’s length, I thought it wise to publish the English and Portuguese versions separately. For the English version, please click here.

Referi, na primeira publicação desta série, que as peças mais íntimas de qualquer conjunto de indumentária masculina quatrocentista, a roupa dita interior, eram as bragas e a camisa. Vejamos como se apresenta a camisa à época que nos interessa.

Origem & Evolução

Shirt 2.png
Pormenor do 
Martírio de Santo Erasmo de Dieric Bouts, o Velho,
(ca. 1458).

Sabe-se pouco sobre a camisa masculina portuguesa do século XV – talvez porque ela não difira, em grande medida, da camisa ou alcândora [1] de séculos anteriores. Era feita, regra geral, de linho – bragal para estratos mais baixos, linho mais fino consoante se fosse ascendendo na escala social. Uma curiosa particularidade portuguesa (que se estendia, supõe-se, aos restantes reinos da Península) é a influência mourisca nesta peça de indumentária. Não só a camisa poderia, para os estratos sociais mais elevados, ser confeccionada noutros tecidos que não linho – incluindo outros tipos de pano fino [2], tecidos ditos de fantasia, ou sedas[3] -, como poderia também apresentar bordados decorativos [4].

Dada a fragilidade dos materiais, não chegou até nós qualquer espécime de camisa desta época [5]. Torna-se portanto impossível determinar empiricamente a sua construção, ou a existência de  programas decorativos habituais (tanto Portugueses como estrangeiros) [6]. Possuímos no entanto uma quantidade razoável de obras de arte coevas, espalhadas um pouco por toda a Europa e em vários formatos – pinturas (como o excerto acima, à direita), iluminuras (como o excerto em baixo, à esquerda), xilogravuras, etc -, que nos permitem ter uma ideia bastante sólida da construção destas peças de roupa e de algumas tipologias mais ou menos habituais.

Shirt 3
Pormenor do capítulo “A Loucura de Lancelot”, do romance Lancelot du Lac (ca. 1470).

Seguindo o bem-documentado apanhado feito pela Companhia de São Jorge [7], a camisa quatrocentista apresenta uma configuração em T, com mangas feitas de um único rectângulo de tecido (por vezes incluindo um segmento triangular no sovaco para maior mobilidade). Pode ter aberturas laterais junto à bainha, bainha essa que se situa entre os joelhos e o meio da coxa (e nunca tão comprida quanto a representação à esquerda, por exemplo). Quanto à abertura do pescoço, podia ser  circular ou uma simples fenda/abertura pela qual passava o pescoço. À semelhança das bragas, não parece ter havido grande diferença, ao nível do figurino, entre camisas de gente rica e camisas de gente pobre – a distinção efectuar-se-ia apenas nos materiais e na decoração, e não nos diferentes tipos de camisa.

A Camisa em Recriação

Tal como as bragas, importa ter atenção o linho de que as camisas são feitas – começando por nos assegurarmos de o tecido ser integralmente linho, e não uma mistura de linho e algodão (ou, pior, linho e fibras artificiais). Para recriadores mais abastados, que procurem fazer camisas de outros panos, é imperativa a pesquisa rigorosa para o uso de padrões e embelezamentos, bem como de determinado panos [8].

De evitar ao máximo são camisas com qualquer espécie de folhos, rendas, colarinhos, botões ou cordões. Os cordões são particularmente frequentes em camisas para “recriação”, chegando muitas vezes a infiltrar o catálogo de comerciantes respeitáveis. São, no entanto, um completo anacronismo na época que aqui nos ocupa. A última nota de advertência diz respeito a cores: tirando as sedas e tecidos de fantasia de camisas de gente rica, todas as outras deverão ser de linho branco ou cru, sob pena de erro crasso.

 

[1] Oliveira Marques, A. (2010). A Sociedade Medieval Portuguesa – Aspectos do Quotidiano, p. 58.

[2] Oliveira Marques, A. (2010), op. cit., p. 52

[3] Oliveira Marques, A. (2010), op. cit., p. 58

[4] Oliveira Marques, A. (2010), op. cit., p. 58

[5] Ressalve-se, no entanto, a existência de artefactos como a camisa de São Luís (ca. 1270), pertencente ao tesouro da Catedral de Nossa Senhora de Paris, que podem auxiliar-nos a tecer algumas considerações gerais, pelo menos em relação a tipos de ponto usados na época e ao aproveitamento de materiais em modelos posteriores de camisa: “A camisa fúnebre de São Luís mostra-nos que o material excedente retirado do pescoço foi engenhosamente utilizado como adorno para o decote e ensachas para a abertura de braço (a zona de sovaco da manga)” [my own translation] (“The burial shirt of Saint Louis shows that scraps cut from the neckhole were cleverly fashioned into neckline facing and gores for the armscye (the armpit region of the sleeve”, Eustace, 2017).

[6] É possível que esta decoração fosse semelhante à chamada blackwork embroidery. Embora seja hábito datá-la como uma técnica de bordado do século XVI, peças como o Retábulo de São João Baptista presente no Museu Nacional d’Art de Catalunya apontam para uma possível existência já no terceiro quartel do século XV.

[7] Harlaut, M. (2010). Company of Saynt George – Clothing Guide (Men), p. 12.

[8] Para diferentes panos portugueses, existentes à epoca, consulte-se o excelente estudo O Pano da Terra: Produção têxtil em Portugal nos finais da Idade Média, por Joana Sequeira, investigadora da Universidade do Porto.

[9] Os cordões não devem ser confundidos com atilhos simples, para os quais existem alguns registos (pelo menos em Itália). Veja-se, por exemplo, o retrato de Giuliano da San Gallo, de Piero di Cosimo, que mostra o rebordo do colarinho prolongando-se para se tornar em atilhos que fecham a abertura do pescoço, sem puxarem ou criarem pregas no tecido.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS

Harlaut, M. (2010). Company of Saynt George – Clothing Guide (Men)

Oliveira Marques, A. (1971). Daily Life in Portugal in the Late Middle Ages. Madison: University of Wisconsin Press

Oliveira Marques, A. (2010). A Sociedade Medieval Portuguesa – Aspectos do Quotidiano. Lisboa: Esfera dos Livros

Sequeira, J. (2014). O Pano da Terra: Produção têxtil em Portugal nos finais da Idade Média. Porto: U. Porto Edições.

FONTES VISUAIS

Lancelot du Lac (ca. 1470). Paris, Bibliothèque nationale de France, Fr. 116, fol. 598v

de Benabarre, P. (ca. 1480). Retábulo de São João Baptista [óleo e têmpera em madeira]. Barcelona: Museu Nacional de Arte da Catalunha

di Cosimo, P. (ca. 1482-1485). Rettrato de Giuliano da San Gallo [óleo e têmpera em madeira]. Amsterdão: Rijksmuseum.

Bouts, D. (ca. 1458). Martírio de Santo Erasmo [óleo e têmpera em madeira]. Leuven: Sint-Pieterskerk

FONTES EM-LINHA

Eustace, E. (Última actualização: 2017). Sherts, Trewes, & Hose .i. : A Survey of Medieval Underwear. Retirado de http://www.greydragon.org/library/underwear1.html

Pedersen, S. (2016, 16 Novembro). Medieval Men’s Underwear [publicação em blogue]. Retirado de http://www.mackat.dk/postej/2016/11/26/medieval-mens-underwear/

 

 

 

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