Um Conjunto Básico (Masculino) – Parte II | A Basic Kit (For Men) – Part II

Agora que já examinámos os elementos mínimos necessários à recriação, vejamos alguns items que, apesar de à primeira vista parecerem pouco importantes, dão uma dimensão profunda aos nossos retratos históricos sem, no entanto, causarem grandes danos da carteira.

Dados – Um dos grandes vícios medievais. Apesar de repetidamente proibidos pela lei [1], os jogos de azar sempre gozaram de grande popularidade no mundo medievo, particularmente entre os estratos mais baixos da sociedade. Quase sempre feitos de osso, mais raramente em madeira.

Cartas de Jogar – O advento da imprensa não teve repercussões apenas no mundo do livro. O mundo do jogo foi também revolucionado com a disseminação de baralhos de jogar relativamente baratos, feitos com impressão em bloco.

Moedas – É infeliz que não haja, até à data, qualquer reprodução de qualquer moeda quatrocentista portuguesa. Moedas na bolsa são mais do que necessidades lógicas; são também elementos de caracterização. As moedas que trazemos na carteira dizem muito sobre uma personagem: reais brancos (a moeda-base da economia tardo-quatrocentista) para a maior parte do povo, reais grossos para alguns elementos mais abastados, e os pequeninos ceitis de cobre para as classes mais desfavorecidas. Moedas estrangeiras são também uma possibilidade, e também elas podem contar histórias sobre uma persona: moedas castelhanas, resultado de uma peregrinação a Santiago de Compostela, por exemplo; moedas inglesas ou francesas, para mercadores ou personas mais aventureiras que se tenham juntado a uma qualquer expedição militar estrangeira; moedas do Sacro Império, de Itália, da Flandres, para marinheiros e os seus muitos portos de paragem…

Emblemas e Insígnias – Não parecem ter sido tão comuns por cá quanto noutras paragens (Inglaterra, por exemplo), mas ainda assim terão existido no Portugal medieval [2] – emblemas seculares, por um lado, ou insígnias de peregrino, como é o caso da famosa vieira de Santiago. Um emblema é uma forma extremamente fácil e barata de dar história e profundidade a uma persona. São maioritariamente feitos de peltre (uma liga de estanho com cobre e chumbo), embora possam ser feitos noutros materiais.

Paternosters e Rosários – O português de Quatrocentos é crente por defeito. Paternosters (Pais-Nossos) e rosários (a diferença encontra-se no número de contas, que traduz uma reza específica) são, por isso, companheiros de todas as horas. Feitos de contas de madeira, osso, vidro, coral e outros materiais, com ou sem borlas e franjas nas pontas, há-os de todo o tipo para todas as carteiras.

Adaga – Segundo a documentação da época [3], a maior parte das pessoas em Portugal tinha sempre consigo uma adaga ou faca, para defesa pessoal ou funções utilitárias, para além do talher atrás listado. Não sendo uma parte essencial do conjunto (dada a existência de facas), parece ter sido tão ubíqua que se torna quase indispensável. Adagas “colhonas”, com cabo em madeira, eram os modelos mais comuns, assim como adagas de rodelas. Adagas de “orelhas” estão reservadas à nobreza ou aos estratos mais afluentes da sociedade.

E pronto. Ir agregando um ou vários dos items desta segunda lista aos da primeira assegura que uma persona não fica estática, que não se esgota numa simples mudança de roupa. Muitos outros items se poderiam mencionar como acessórios, dependendo da “especialização” de cada persona – óculos e respectivas caixas, tinteiros portáteis de couro para escribas, livros de razão para mercadores, missais para o clero, ferramentas para artesãos… -, mas o essencial é começar com uma boa base, e construir a partir dela. Boa recriação!

 

[1] Veja-se, a título de exemplo, o Título XXXXI do Livro V das Ordenações Afonsinas, disponível em http://www1.ci.uc.pt/ihti/proj/afonsinas/l5pg148.htm .

[2] A isso atestam achados como a insígnia de peregrino, do século XIII, encontrada no castelo de Silves. Veja-se Barroca, M. J. e  Monteiro, J. G. (Coords.) (2000). Pera Guerrejar – Armamento Medieval no Espaço Português. Palmela: Câmara Municipal de Palmela, p. 319.

[3] Recomenda-se a leitura do interessantíssimo, e muita vezes hilariante artigo de Luís Miguel Duarte, “Armas de Guerra em Tempo de Paz”, na obra supracitada.

 

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Now that we have looked at the bare minimum for reenactment, let us look at some items that, though seemingly insignificant at first glance, lend added depth to our portrayals without necessarily breaking the bank.

Dice – One of the great medieval vices. Although repeatedly forbidden  by law [1], gambling has always enjoyed great popularity in the medieval world, particularly among the lower strata of society. Almost always made of bone, more rarely made of wood.

Playing Cards – The advent of the press wasn’t just felt in literature. Gaming was also  revolutionised by the dissemination of relatively inexpensive playing cards made in block printing.

Coins – It is unfortunate that there is, to date, no available replica of any 15th century Portuguese coin. Coins in the purse are more than logical needs; they are also elements of characterisation. The coins we carry in our wallets say a lot about our persona: reais brancos (the base currency of the late 15th century Portuguese economy) for most everyone, reais grossos for some of the wealthier among them, and little copper ceitis for the disadvantaged. Foreign coins are also a possibility, and they can also tell a story: Castilian coins, the result of a pilgrimage to Santiago de Compostela, for example; English or French coins, for either merchants or more adventurous personas who have joined in foreign military expeditions; coins from the Holy Empire, from Italy, from Flanders, for sailors and their many ports of call …

Badges and Insignia – Though perhaps not as common around these parts as elsewhere in Europe (England, for example), badges were nonetheless worn in medieval Portugal [2] – secular badges, for example, or pilgrim badges, as is the case of the famous scallop of Saint James. A badge is an extremely easy and inexpensive way of deepening a persona’s history. They are mostly made of pewter, although they can be made from other materials.

Paternosters and Rosaries – 15th century Portuguese are believers by default. Paternosters and rosaries (the difference lies in the number of beads, which translates to a specific prayer) are therefore constant companions. Made of beads of wood, bone, glass, coral and other materials, with or without tassels at the ends, they exist in every variation for every type of wallet.

Dagger – According to contemporary documents, most everyone in Portugal at the time had a dagger or knife, for personal defence or more utilitarian uses, in addition to previously mentioned items of cutlery. Wooden-handled ballock daggers were the most common model available, along with simple rondel ​​daggers. “Ear-daggers” are for the only for the noble and for the rich.

And there we are. Adding one or more of the items in this second list to those of the first one ensures that a persona does not become static, i.e., that it is not a simple change of clothes, or a costume. I could mention many other items, depending on each persona’s particular set of skills – glasses and their cases, portable inkwells, account books for merchants, missals for the clergy, tools for artisans … – but the essential is to start with a good foundation, and build up. Happy reenactment!

 

[1] See, for example, Title XXXXI of Book V of the Ordenações Afonsinas (Afonsine Ordinances), available at http://www1.ci.uc.pt/ihti/proj/afonsinas/l5pg148.htm.

[2] As per findings like the 13th century pilgrim badge found in Silves’ castle. See Barroca, M. J. and Monteiro, J.G. (Coords.) (2000). Pera Guerrejar – Armamento Medieval no Espaço Português. Palmela: Câmara Municipal de Palmela, p. 319.

[3] I highly recommend the interesting and oftentimes hilarious essay by Luís Miguel Duarte, “Armas de Guerra em Tempo de Paz”, in the abovementioned volume.

 

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