Armamento Quatrocentista Português II – A Lança

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A lança. É sem dúvida a arma mais comum nas Tapeçarias de Pastrana, a arma mais comum do arsenal português, uma das armas mais icónicas de toda a Idade Média, e uma presença constante no Portugal medievo. Mas o que caracteriza a lança quatrocentista Portuguesa?

Uma Arma Antiquíssima

Lanças 1.png
Um mar de hastes e de ferros: o exército afonsino em marcha. Pormenor da tapeçaria Entrada em Tânger (c. 1480).

É uma das armas mais antigas da Humanidade, e uma das mais simples: na sua essência, uma superfície perfurante afixada ao topo de uma haste de dimensão variável – consoante fosse para ser usada em combate corpo-a-corpo, ou atirada.

A lança medieval portuguesa e o seu método de uso é uma herança das lanças visigóticas mas também das azagaias muçulmanas. Regra geral, consiste, primeiramente, numa haste de madeira – habitualmente freixo, mas também carvalho [1] – de secção circular ou octogonal, com cerca de 1.5 a 2 metros de comprimento. No topo desta haste é afixada uma cabeça de ferro forjado ou aço. Na outra ponta, a haste podia ser rematada por uma peça de ferro chamada conto, um componente de reforço e de estabilização, que permite fincar a lança no chão [2].

As cúspides (cabeças) da lança quatrocentistas apresentam uma enorme variedade de tipologias, desde à cabeça em forma de folha, maior ou menor, ao simples espigão de perfil triangular ou em diamante:

Lança 2
Ponta de lança, séculos XIV-XV (?). Ferro, 31.5 x 5cm, 207g.  Lisboa, Museu Militar (MML. Nº 18/530).
Lança 1
Ponta de lança, séculos XIII-XIV. Ferro, 27.1 x 4.3cm, 224.4g. Castelo de Vide, Secção de Arqueologia da Câmara Municipal (PC 206).
Lança 3
Ponta de lança, séculos XIII-XIV. Ferro, 18.8 x 3.4cm, 116.8g. Castelo de Vide, Secção de Arqueologia da Câmara Municipal (PC 207).
Lança 4
Ponta de lança, séculos XIV-XV (?). Ferro, 35 x 4.3cm, 490g. Alenquer, Museu Hipólito Cabaço (s/Inv).

Conto Alabarda
Pormenor do conto de arma de haste (neste caso uma bisarma) no Painel do Arcebispo dos Painéis de São Vicente de Nuno Gonçalves (ca. 1470) [fotografia própria].
Como podemos ver por estes achados [3], a fixação da lança ao seu cabo podia ser feita de várias maneiras diferentes: simples rebitagem, atravessando um ou dois rebites no alvado (a cavidade em que se insere a haste) da lança (como no primeiro exemplo); fixação por espiga, possuindo a cabeça da lança um espigão central que perfura o topo da haste para o encabamento (como no segundo exemplo); e fixação com recurso a “faixas de preensão” [4] ou linguets (languets) [5], que reforçam e complementam a rebitagem simples da cabeça (como no terceiro exemplo, apesar das faixas se terem aqui partido). O conto, mais simples (cone ou espigão de ferro, como o reproduzido à direita) ou mais trabalhado, parece ter sido rebitado ao fundo do cabo.

As Lanças de Pastrana

As cúspides das lanças presentes nas tapeçarias apresentam pouca ou nenhuma variação entre si. Observando e medindo as representações, sabe-se que os cabos têm cerca de 2-2.5 metros de cabo, ou 3 metros no caso de lanças de cavalaria ou lanças com bandeiras. No topo destes comprimentos de cabo encontra-se fixada uma cabeça de lança de cerca de 25-30cm de comprimento, estruturalmente muito parecida ao primeiro exemplo mostrado acima mas de silhueta mais ovalada, como o segundo. Esta fisionomia, que se pode conjecturar ser caracteristicamente ibérica [6], continua a existir pelo menos até ao início do século XVI, a julgar pela sua presença tal-qual nas obras de Cristóvão de Figueiredo (um dos nossos grandes pintores renascentistas), como o pormenor reproduzido abaixo – pese embora a dificuldade, senão a impossibilidade, de determinar a prevalência de uma determinada tipologia sobre todas as outras [7].

Cabeça de Lança Gregorio Lopes
Pormenor de cabeça de lança no quadro Martírio de Santo Hipólito de Cristóvão de Figueiredo (ca. 1530) [fotografia própria].
Desengane-se no entanto quem pense que o uso da lança se restringe à peonagem. Como é patentemente visível nas tapeçarias, a lança – neste caso bem mais longa – é a arma característica da cavalaria medieval [8]. Para a cavalaria portuguesa, a lança poderia não só ser colocada firmemente debaixo do braço (a lança dita couchée) como, também, ser arremessada em andamento – uma táctica herdada das cavalarias mourisca e andaluza, que obrigaria não só a treino específico [9] como ao uso de uma sela especial.

Sempre à Mão

Diz-nos Luís Miguel Duarte (investigador da Universidade do Porto) que, de acordo com a sua pesquisa, a lança era uma das armas por excelência do quotidiano medieval português. Fosse para defender a integridade física ou doméstica, para resolver alguma quezília com um vizinho, ou até para figurar nas (para mim) melhores “caças à multa” da História portuguesa [10], a lança marcava presença assídua no quotidiano civil, juntamente com as facas e as adagas.

No campo de batalha, como referido na breve introdução deste artigo, é a arma por excelência do exército português medieval (como o era, aliás, de praticamente todos os exércitos durante a Baixa Idade Média [11]). Embora não possua o romantismo da espada e do escudo, ou o exotismo de uma maça ou uma acha, a versatilidade da lança – lançamento, bloqueio, golpe, perfuração -, aliada ao seu baixíssimo custo e fácil produção, asseguram a sua popularidade e ubiquidade – não só junto da soldadesca mas, também, dos arsenais privados, concelhios e régios [12]. Uma arma tão omnipresente traduz-se, também, na existência de toda uma indústria de armeiros dedicados à produção de “ferros de lança”, como a isso atesta a pesquisa feita por Sousa Viterbo no seu A armaria em Portugal : noticia documentada dos fabricantes de armas brancas que exerceram a sua profissão em Portugal [13]. A lança é, assim, não só um factor-chave na organização militar do reino mas, também, um importante motriz económico.

A Lança em Recriação

Apesar de ser relativamente fácil fazer ou adquirir uma lança, convém ter atenção a algumas cautelas quando acrescentamos uma ao nosso arsenal pessoal. Como de costume, a pesquisa é fundamental: embora as lanças sejam relativamente semelhantes por toda a Europa, devemos sempre ter certeza de que o que estamos a arranjar se encaixa no que foi usado a determinado ponto da História. Devemos, para além disso,  ter a certeza de que a ponta da lança em si é feita correctamente – afinal de contas, ferros de lança não são peças chatas de ferro, com um formato vagamente cuniforme. Têm arestas centrais e perfis que devem estar presentes para funcionarem devidamente enquanto armas, mesmo quando são feitas rombas por razões de segurança. Colar uma lança a uma haste deve sempre ser complementar, e não um substituto, para uma rebitagem adequada – guias para a qual abundam em linha.

Em relação às hastes, deve-se prestar muita atenção na escolha da madeira e na sua preparação [14]. Algumas hastes à venda actualmente são feitas de duas metades de madeira coladas, supostamente para evitar que a haste fique torta com o passar do tempo. Não tenho qualquer experiência com este tipo de haste, mas foi-me dito que são propensas a fragmentarem-se e a descolarem se ficarem molhadas. Para aqueles de nós que não têm espaço para armazenar em casa uma arma de 2,5 metros de comprimento, as hastes desmontáveis – feitas de dois ou mais pedaços aparafusados – são uma possibilidade, mas devem ser evitadas sempre que possível.

Cabos de vassoura são, obviamente, pecado capital.

 

[1] Martins, M. G. (2014). A arte da guerra em Portugal: 1245 a 1367. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, p. 222.

[2] Veja-se Agostinho, P. (2013). Vestidos para matar: o armamento de guerra na cronística portuguesa de quatrocentos. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, p. 165.

[3] Todas as fotografias são parte integrante do catálogo Pera Guerrejar – Armamento Medieval no Espaço Português, pp. 354-358, e foram por mim editadas para efeitos de exposição neste espaço. Os direitos pertencem aos seus autores originais.

[4] Barroca, M. J. e Monteiro, J. G. (Coords.) (2000), p. 355.

[5] Ver Lanza (Spear). Disponível em: https://www.armizare.org/armizare/the-weapons-of-armizare/lanza-spear/.

[6] Segundo Donald J. La Rocca: “The [Pastrana] spearheads take the form of a leaf shaped, double edged and pointed oval. The few rare spearheads of this type that survive are considered Spanish and from the fifteenth century [fig. 14], attributions that are corroborated by their inclusion in the tapestries” (p. 38).

[7] “Conhecem-se diversos tipos de lâminas: largas, estreitas, pontiagudas e em forma de folha de oliveira, alongadas, em forma triangular, umas fixas à haste através de um espigão ou através de um alvado, algumas com farpas, etc. As variantes eram, como se vê, imensas”, em Martins (2014), p. 222. Não obstante, parece ser possível tecer-se alguma continuidade visual entre obras pouco distantes entre si: Das Tapeçarias, de 1475; para as lanças no painel Santa Clara e o Milagre da Custódia, do tríptico de Santa Clara no Museu Nacional Machado de Castro, de 1486; para o supramencionado Martírio de Santo Hipólito de Cristóvão de Figueiredo, de 1530. É curioso que, apesar da escassez de arte portuguesa quatrocentista, várias das representações de lanças sigam o mesmo exacto padrão.

[8] Nicholson, H. (2004). Medieval Warfare. Basingstoke: Palgrave MacMillan, pp. 102–103.

[9] Dom Duarte, no capítulo XIII do seu Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela, recomenda que a todos os que queiram aprender a arremessar a lança “cõuem que huse primeiramẽte de pee” (1843, p. 95), descrevendo seguidamente, em detalhe, o processo de arremesso da arma e as competências a serem adquiridas antes de se transpor a técnica para o dorso de um cavalo.

[10] A caricata descrição destes episódios: “(…) a Coroa desde cedo recomendou aos súbditos que, sempre que escutassem gritos ou sinais de “arroido” e, por maioria de razão, sempre que ouvissem bradar Aqui d’El Rei, saíssem rapidamente para a rua para estremar os contendores. Como se adivinha, quem é sobressaltado a meio da noite por barulho de luta, ou não sai da cama, ou se sai, vai armado. Acontecia porém que, serenados os ânimos, o alcaide e os seus homens aproveitavam para fazer uma razia nas armas dos que entretanto haviam aparecido” (em Duarte, L. (2000). “Armas de Guerra em Tempo de Paz”, p. 185). Esta razia implicava o confisco permanente da arma e, muito provavelmente, uma multa, o que sem dúvida terá propiciado algumas sortidas nocturnas da parte de alguns alcaides mais excessivamente zelosos.

[11] “Mais do que a espada, a lança era a arma mais utilizada pelos exércitos medievais, sendo considerada a mais importante arma de haste deste período, facto comprovado pela profusão com que este termo é utilizado nas crónicas quatrocentistas portuguesas” (Araújo, 2012, p. 140).

[12] Atente-se na enorme quantidade de ferros de lança presentes na Carta de Quitação do Arsenal Régio de Lisboa de 1455, transcrita no volume Armeiros e Armazéns nos Finais da Idade Média – em particular a listagem sumária no quadro sinóptico, ponto 2.1.3., p. 48.

[13] Francisco Marques de Sousa Viterbo (1845-1910) foi, entre outras coisas, um dos primeiros grandes hoplologistas em Portugal.

[14] Veja-se a este respeito a interessante discussão em http://myarmoury.com/talk/viewtopic.32345.html

FONTES BIBLIOGRÁFICAS

Agostinho, P. (2013). Vestidos para matar: o armamento de guerra na cronística portuguesa de quatrocentos. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra

Araújo, I. (2012). As Tapeçarias de Pastrana – Uma Iconografia da Guerra. Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa [Tese de Mestrado]

Barroca, M. J. e Monteiro, J. G. (Coords.) (2000). Pera Guerrejar – Armamento Medieval no Espaço Português. Palmela: Câmara Municipal de Palmela

Duarte I de Portugal (1843). O Leal Conselheiro e Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela. Lisboa: Typographia Rollandiana.

Duarte, L. (2000). “Armas de Guerra em Tempo de Paz”, em Barroca, M. J. e Monteiro, J. G. (Coords.) (2000). Pera Guerrejar – Armamento Medieval no Espaço Português. Palmela: Câmara Municipal de Palmela, pp. 173-202

Hewitt, J. (1855).  Ancient Armour and Weapons in Europe: From the Iron Period of the Northern Nations to the End of  the Thirteenth Century. Oxford and London: John Henry And James Parker. Disponível em: https://www.gutenberg.org/files/46342/46342-h/46342-h.htm

Lepage, J.-D. (2014). Medieval Armies and Weapons in Western Europe: An Illustrated History. Jefferson, E.U.A.: McFarland

Martins, M. G. (2014). A arte da guerra em Portugal: 1245 a 1367. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra

Monteiro, J. G. (2001). Armeiros e Armazéns nos Finais da Idade Média. Viseu: Palimage Editores

Nicholson, H. (2004). Medieval Warfare. Basingstoke: Palgrave MacMillan

Lanza (Spear). Disponível em: https://www.armizare.org/armizare/the-weapons-of-armizare/lanza-spear/

La Rocca, D. (2011). “Afonso ‘the African’ and his Army: The Pastrana Tapestries as a Visual Encyclopedia for the Study of Arms and Armour”. In Ibarra, M. A. de B. (2011). The Invention of Glory: Afonso V and the Pastrana Tapestries, pp. 29-41

Viterbo, F. (1907). A armaria em Portugal : noticia documentada dos fabricantes de armas brancas que exerceram a sua profissão em Portugal. Lisboa: Academia Real das Sciencias de Lisboa

FONTES ICONOGRÁFICAS

(ca. 1475). Cerco de Arzila [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Siege_of_Asilah_(Cerco_de_Arcila)

(ca. 1475). Desembarque em Arzila [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Disembarkation_in_Asilah_(Desembarco_en_Arcila)

(ca. 1475). Entrada em Tânger [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/The_taking_of_Tangier_(Toma_de_T%C3%A1nger)

(ca. 1475). Tomada de Arzila [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Assault_on_Asilah_(Asalto_de_Arcila)

(ca. 1486). Tríptico de Santa Clara [óleo e têmpera em madeira]. Coimbra: Museu Nacional Machado de Castro. Disponível em https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/9d/Tríptico_de_Santa_Clara_Sec_XV_Museu_Machado_de_Castro.jpg

Figueiredo, C. (ca. 1530). Martírio de Santo Hipólito [óleo e têmpera em madeira]. Lisboa: Museu Nacional de Arte Antiga

Gonçalves, N. (ca. 1470). Painéis de S. Vicente de Fora [óleo e têmpera em madeira]. Lisboa: Museu Nacional de Arte Antiga. Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Painéis_de_São_Vicente_de_Fora#/media/File:Lagos40_kopie.jpg

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