Personas & Conjuntos | Kits & Personas

A primeira coisa que um aspirante a recriador tem de fazer é delimitar-se a si próprio. Ninguém pode fazer tudo, afinal de contas (não há nem tempo, nem meios). Esta delimitação é feita através de uma escolha de parâmetros relativamente simples: um recriador tem de se limitar a uma geografia, uma época, e um contexto social específico. Isto é a base de uma persona histórica.

Embora não seja 100% indispensável a um recriador, desenvolver a fundo uma persona histórica, ou seja, de uma identidade histórica alternativa para recriação, é um grande auxílio para assegurar que estamos a retratar a época escolhida de forma fiel e autêntica. Que pode uma pessoa de determinada classe ou época vestir? Que pode usar como acessórios? De que maneira se comporta uma pessoa de 1470? Como vive, como trabalha, como se alimenta, em que crê? Quanto mais detalhadas as perguntas que colocamos à persona que criamos, mais necessária será a pesquisa que fazemos, mas também mais rigorosa a nossa caracterização e as escolhas de equipamento que nos são permitidas.

Como exemplo prático, eis a biografia que esbocei para a minha persona:

O meu nome é Antonio Lopo. Sou um dos pequenos homens-bons de Leiria. Os meus pais pereceram na última peste de 1468 [1], pelo que herdei a casa de um sobrado, com lagar e um reduzido olival, que exploro com recurso a mãos contratadas. Como comerciante de azeite (vendido a cerca de 40 dinheiros o alqueire, na região) [2] com um mínimo de posses, estou listado como acontiado pelo concelho, e portanto obrigado a ter armas e a servir militarmente. Embora esteja, pelos meus terrenos, na categoria de acontiado de cavalo raso, não tenho meios suficientes para manter cavalo, pelo que o concelho da vila pediu ao governador d’El-Rey dispensa da minha montada, tal como se fazia nos concelhos de Lisboa, Porto e Tavira [3], estando no entanto obrigado a apresentar arnês e armas.

Pode parecer coisa pouca, mas é mais do que suficiente para delimitar convenientemente o meu equipamento. Para um homem jovem nesta classe média e nesta época, por exemplo, dita toda a pesquisa que o vestuário consiste num gibão, numas calças com braguilha, numa camisa e num par de bragas (roupa interior). A isto se acrescenta  um chapéu (um sombreiro, por exemplo; uma caraminhola ou, em caso de extravagância máxima, um capeirote), e uma jórnea, ou um tabardo, ou um casaco. Sendo alguém minimamente abastado, faria uso de tecidos de boa qualidade (lãs, portanto, e linhos) no vestuário, mas não de tecidos ricos (sedas, brocados) ou pormenores decorativos caros (debruns a pele, por exemplo, que demais a mais são tidos como ilegais pelas leis sumptuárias da época).  Teria acessórios bem-feitos mas sem grandes luxos (ou seja, nada de decorações extravagantes de ouro ou de prata, reservadas às classes altas pelas leis supracitadas). O próprio calçado seria moderadamente simples, sem grande aparato: sapatos mais rasos de couro, botas ou borzeguins.

E isto apenas em relação ao vestuário. Na vertente militar, a minha condição económica não me permitiria nunca adquirir um arnês branco, por exemplo (fato de armadura completo), ou armas de demasiada qualidade. Do mesmo modo, sendo um português leiriense, delimita-se também a escolha de armamento disponível (sendo Portugal um grande centro de importação de armamentos da Flandres, de influência francesa e italiana, dificilmente se conseguiriam arranjar peças no chamado estilo Gótico ou Alemão, cheias de caneluras – excepto para os mais abastados).

Como se pode ver, em apenas algumas linhas é possível conceber uma persona rica o suficiente em pormenor para nos permitir avançar sem medos com um projecto de recriação. Mas não é necessário todo este esforço logo de início para conceber uma persona – bastam apenas algumas perguntas simples. Assim, em jeito de formulário:

Qual o meu nome?

Que idade tenho?

Qual a minha classe social?

Qual a minha ocupação?

De onde venho?

Estas questões básicas podem depois ser complementadas por outras, mais complexas:

Que nível de educação tenho?

Em que acredito?

Como é que a minha ocupação/trabalho me afecta?

Outras perguntas se poderiam adicionar, mas com estas oito perguntinhas apenas tem-se tudo o que é necessário para criar uma persona histórica coerente, e lançar as bases de uma boa pesquisa.

Por fim, é sempre bom recordar que uma persona não é estática – cresce e desenvolve-se connosco. E, caso nos fartemos (ou arranjemos meios para tal), podemos sempre criar novas personas para novos tempos ou novos eventos.

Boa sorte, e boa recriação!

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The first thing an aspiring reenactor has to do is to limit himself. No-one can do everything, after all (there’s neither the time nor the means). This limitation is achieved through a relatively simple choice of parameters: a reenactor has to limit himself to a specific geography, a time, and a specific social context. This is the basis of a historical persona.

Although it is not 100% indispensable for a reenactor, developing a historical persona –  that is, an alternative historical identity for reenactment – is a great help in ensuring that we are portraying the chosen time in a faithful and authentic way. What can a person of certain class or age wear? What can you use as far as accessories go? How does a person from 1470 behave? How do you live, how do you work, how do you eat, what do you believe in? The more detailed the questions we put to the persona we create, the more we need the research we do, but the more rigorous our characterization will be, and more accurate the choices of equipment and kit we are allowed.

As a practical example, here is the biography I outlined for myself:

My name is Antonio Lopo. I am one of Leiria’s less important homens-bons [1] . My parents died in the last plague of 1468 [2], so I inherited a two-story house , with a mill and a small olive grove, which I cultivate using hired labour. As an olive oil merchant (sold for about 40 dinheiros [3] the bushel, in the region) [4] with a few belongings to my name, I am listed by the loca council as an acontiado [5], and therefore obliged to have arms and to serve militarily. Although my belongings place me in the category of acontiado a cavalo, I do not have the means to keep a horse, so the council asked the King’s Governor to dispense with my mount, as was done in the councils of Lisbon , Porto and Tavira [6], though I am however required to present a harness and arms.

It may not look like much, but it’s more than enough to properly limit my equipment. For a young man in this sort of middle class and at this time, for example, all research dictates that my clothes are comprised of a doublet, joined hose with codpiece, a shirt and short breeches. To this may be added a hat (a bag hat, for example; a bycocket, a craminhola or, for a bit more extravagance, a chaperon), and a giornea, a livery vest, or a surcoat. Having a little bit of coin to spare meant making use of good quality fabrics (wool, therefore, and linens) in his clothing, but not rich fabrics (silks, brocades) or expensive decorative details (fur trimmings, for example, which were regarded as illegal by sumptuary laws of the time). He would have well-made accessories but no great luxuries (that is, no extravagant decorations of gold or silver, reserved for the upper classes by the above-mentioned laws). The footwear itself would be moderately simple, with no great apparatus: leather shoes, low boots, or simple boots.

And this is only regarding clothing. On the military side, my economic condition would never allow me to acquire a ‘white’ harness, for example (full plate armour), or extremely high quality weapons. Likewise, being a Portuguese lad from Leiria, the choice of available armaments is also limited (Portugal being a major import centre for arms and armour from Italy and Flanders, with French and Italian influences, it would be difficult to get one’s hands on pieces in the so-called Gothic or German style, full of fluting – except for the wealthier).

As we can see, in just a few lines, it is possible to create a persona rich enough in detail to allow us to proceed without fear with a recreation project. Not that this amount of effort is necessary at the outset to create a persona -a few simple questions are more than enough. Thus, summarily:

What’s my name?

How old am I?

What is my social class?

What is my occupation/job?

Where do I come from?

These basic questions can then be complemented by others, more complex ones:

What level of education do I have?

What do I believe in?

How does my occupation/job affect me?

Other questions could be added, but with these eight questions one has only all that is needed to create a coherent historical persona, and lay the groundwork for good research.

Lastly, it is always good to remember that a persona is not static – it grows and develops with us. And if we get bored of it (or find the means for it), we can always come up with new personas for other times or other events.

Good luck, and good reenactment!

[1] Literally the “goodmen, a higher cast of farmers, almost all of them well-to-do landowners, who owned a horse and the arms necessary for going to war and who for this reason were designated cavaleiros-vilões“, in António de Oliveira Marques, in his Daily Life in Portugal in the Late Middle Ages, p. 9. It should be noted that the homens-bons weren’t homens-bons because they owned horse and arms, but rather enough means to afford these items.

[2] http://www.cm-leiria.pt/uploads/writer_file/document/686/20120716111653951552.pdf – página 13

[3] The basis of the Portuguese currency between the 12th and 15th centuries. Like the Roman denarius, twelve dinheiros equalled one soldo, and twenty soldos equalled one libra (pound). Though the dinheiro coin itself was phased out in 1433 by King Dom Duarte, the dinheiro was still used as part of the system for quite a few decades more.

[4] https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/14653/2/tesemestprecos000075145.pdf – página 95

[5] Acontiados, from the noun conta (“count”), were men with enough means to be mandated to serve during wartime, with their own equipment.

[6] https://books.google.com.ua/books?id=Ad6SHXBOlbAC&pg=PA213&lpg=PA213&dq=acontiados+afonso+V&source=bl&ots=AFwB1leWhH&sig=ydIA9f_gkeG9ftI4YTb45OBLtMY&hl=pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwiN5Ia-z9fWAhWEUlAKHXG9BggQ6AEIKzAB#v=onepage&q=acontiados%20afonso%20V&f=false

 

 

 

 

 

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