O Santo Esquecido

Due to this article’s length, I thought it wise to publish the English and Portuguese versions separately. For the English version, please click here.

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Uma das muitas representações de São Vicente. Pormenor de quadro (proveniência incerta).

Hoje, como a cada vigésimo segundo dia de Janeiro, assinala-se o dia de São Vicente, o verdadeiro padroeiro da cidade de Lisboa (ao contrário de Santo António – mas isso será uma outra história) e um dos mais antigos santos de veneração portuguesa. No entanto, pergunte-se a qualquer pessoa nas ruas de Portugal, e ninguém sabe quem o santo é – e muito menos que se comemora a efeméride.

Quem é São Vicente, e porque importa para nós – Portugueses no geral, recriadoes quatrocentistas em particular – recordá-lo?

Um Santo de Hispania

Não há fontes coevas sobre a vida do santo. As fontes mais próximas dele de que dispomos são Prudêncio, considerado o maior poeta cristão da Antiguidade tardia, que divulga os tormentos de Vicente no seu Liber Peristephanon, e alguns sermões de Santo Agostinho.

Estamos no século III da era cristã e, em Roma, Diocleciano é imperador. O futuro santo Vicente nasce já nos finais do século na Hispania Tarraconensis, mais precisamente em Osca (Huesca, na actualidade), uma cidade próxima de Saragoça.

Vicente passa grande parte da vida em Saragoça, onde recebe a sua educação em religião e letras pelas mãos do Bispo Valério – o mesmo bispo que o viria a ordenar diácono. Valério, empecilhado nas suas funções por um defeito de fala, confia ao jovem Vicente o cargo de seu porta-voz pessoal, e manda-o em pregação pela diocese.

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Pormenor do quadro Flagelação de São Vicente, do Mestre de Castelsardo (ca. 1500-1510).

Mas este não é ainda o Império Romano de Constantino, benevolente para com os cristãos. Está-se ainda na época das grandes perseguições e purgas anti-cristãs. Diocleciano ordena justamente uma dessas brutais perseguições em todo o Império, incluindo a Península Ibérica. Na Hispania, o governor Daciano é encarregado de levar a cabo essa empreitada. O que se segue é uma história de linearidade tão simples quanto cruel: chegado Daciano a Saragoça, o Bispo Valério e o seu porta-voz são capturados e enviados para Valência, onde são encarcerados e torturados. Com o intuito de persuadi-los a negar a fé cristã e aceitar o culto dos deuses pagãos, Daciano manda-os chamar à sua presença. A tentativa, aguçada com ameaças de tortura, cai por terra: nem Valério nem Vicente aceitam a proposta do governador. Valério, poupado pela sua idade, é desterrado. Vicente, cuja atitude desafiante irritou Daciano, é condenado ao suplício – incluindo ter sal espalhado nas suas feridas, ser torturado no cavalete (uma armação em forma de aspa), e ser queimado vivo com ferros – e à morte. Vicente falece, martirizado, a 22 de Janeiro do ano 304.

Ondas e Corvos

O cadáver de Vicente foi largado num ermo para ser comido pelos animais. É aqui que a História se começa a esfumar nos meandros da Lenda. Reza a história que o corpo, em vez de ser comido, foi salvo por uma ave – um corvo. Daciano mandou então que atirassem o corpo ao mar, atado a uma mó. Nem assim se livrou do jovem, pois não tardou a que o corpo de Vicente tornasse a dar à costa. Diz-se que terá sido sepultado por uma viúva de Valência, fora das muralhas da cidade, e mais tarde transladado para a catedral.

Nem assim pôde Vicente, já santo de fama (conhecido para lá da Península Ibérica), descansar. Com o fim do Império Romano, a Península sofre uma invasão muçulmana, e a perseguição aos cristãos é uma vez mais retomada [1]. Os devotos do santo decidem colocar o corpo de Vicente num barco rumo a Oeste, que acaba por naufragar junto ao Promontorium Sacrum, que se passou a chamar Cabo de São Vicente. Aí se edificou uma ermida, para guardar as relíquias do santo. Faltava ainda uma última viagem a Vicente.

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Os corvos velando o corpo de São Vicente. Ilustração do Livro de Horas de D. Manuel.

Portugal, século XII. D. Afonso Henriques, no meio dos seus afazeres, terá tomado conhecimento da história de S. Vicente e mandou resgatar o corpo do santo, que se encontrava à altura em território árabe, e enviá-lo para Lisboa. Segundo a lenda, o barco com os despojos do mártir foi sempre acompanhado por dois corvos, um à proa e outro à popa, protegendo o santo até Lisboa, onde chegou em 1176.

São Vicente em Lisboa e Portugal

Com mais ou menos corvos, certo é que as relíquias foram efectivamente transferidas de Sagres para uma igreja fora das muralhas de Lisboa – São Vicente de Fora (por se encontrar fora das muralhas da cidade). À época, era São Crispim o padroeiro olisiponense [2]; mas a veneração de São Vicente por parte dos habitantes da cidade foi de ordem tal que cedo se proclamou o santo como padroeiro de Lisboa. O barco e os corvos da lenda foram adoptado como símbolos da cidade, e assim permanecem.

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Martírio de São Vicente Atado à Coluna, de Nuno Gonçalves (ca. 1470).

Apesar da dispersão de algumas da suas relíquias (há pedaços do corpo do santo em Espanha, França, Itália…), crê-se que a maior parte do santo ficou definitivamente por Lisboa. Perderam-se algumas parcelas, quando o túmulo que as alojava foi esmagado durante o terramoto de 1755, mas ainda hoje se conservam na Sé de Lisboa as restantes.

A importância de São Vicente em Portugal fez-se sentir com especial fulgor nos séculos XV e XVI, ou não fossem testemunhos da devoção ao santo: os quadros de Nuno Gonçalves (os Painéis e o Martírio, reproduzido à direita), no reinado de D. Afonso V; a Torre de Belém, cujo nome e dedicação quinhentista é Baluarte de São Vicente a par de Belém, projectada no reinado de D. João II e erguida no reinado de D. Manuel I; ou o “São Vicente” de ouro, moeda comemorativa de D. João III com o valor de mil réis, continuada por D. Sebastião [3]. Não era apenas um santo acarinhado pela realeza: por Portugal fora espalham-se igrejas a si dedicadas, particularmente em Lisboa e no Algarve; a cada 22 de Janeiro, organizavam-se enormes festas em honra do santo, principalmente em Lisboa (por motivos óbvios). Não era incomum peregrinar-se ao Algarve para visitar o primitivo local de chegada do Santo ao país. São Vicente tomava-se como um dos patronos dos marinheiros, o que, numa nação de navegadores, significaria gozar de tremenda importância nas preces do quotidiano. Porquê, então, o completo desconhecimento a que desde então foi votado?

O Outro Padroeiro

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Uma representação particularmente austera de Santo António, aludindo à sua pregação aos peixes. Excerto da pintura Santo António de Pádua e São Francisco de Assis, de Friedrich Pacer (1477).

A resposta deve-se fundamentalmente a outro santo: Santo António de Lisboa. Nascido na cidade em 1195, falecido em Pádua em 1232 e canonizado, por aclamação popular, apenas um ano após a sua morte, Santo António tornou-se num curtíssimo espaço de tempo uma vedeta entre o panteão católico medieval. Em lado nenhum se tornou tão venerado quanto em Lisboa – o que não deixa de ter a sua ironia, se considerarmos que, aos 15 anos, António fora instruído no Mosteiro de São Vicente de Fora.

Ao contrário de São Vicente, cuja celebração ocorre em pleno Inverno, Santo António é um santo de Verão – sempre uma data mais apetecível. Também ao contrário de Vicente, Santo António é considerado padroeiro de um vasto leque de coisas. Estas duas características, aliadas à sua origem olisiponense, marcaram o declínio de São Vicente em Lisboa e, a pouco e pouco, no resto do país.

São Vicente é hoje um santo praticamente esquecido. As celebrações de 22 de Janeiro ainda ocorrem na Sé de Lisboa, e o santo ainda é o padroeiro da diocese (mas não da cidade – aí Santo António imperou). Como recriadores do século XV, porém, cabe-nos a nós, crentes ou não (eu definitivamente não o sou), guardar memória daquela que foi uma das grandes figuras do ideário medieval português.

 

[1] “Segundo a narrativa portuguesa de reivindicação das relíquias do mártir, de forma a não haver profanação das mesmas, no contexto da destruição das igrejas valencianas perpetrada por Abd-er-rahman, foram trasladadas por devotos para um mosteiro no promontório de São Vicente, no Algarve. Este seria destruído com a vinda dos almorávidas de Marrocos para o Algarve”, em http://www.vozdaverdade.org/site/index.php?id=878&cont_=ver2

[2] http://religionar-variado.blogs.sapo.pt/2940.html

[3] Veja-se a este respeito uma excelente entrada sobre o “São Vicente” e o “Meio Vicente” em http://moedas-comemorativas.blogspot.com/2010/06/sao-vicente.html.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS

Oliveira Marques, A. (2010). A Sociedade Medieval Portuguesa – Aspectos do Quotidiano. Lisboa: Esfera dos Livros.

FONTES VISUAIS

Gonçalves, N. (ca. 1470). Martírio de São Vicente Atado à Coluna [óleo em madeira]. Retirado de https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b5/Martírio_de_São_Vicente_atado_à_coluna_%28c._1470%29_-_Nuno_Gonçalves.png

Livro de Horas de D. Manuel (ca. 1517-1538). Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga.

Mestre de Castelsardo. (ca. 1470). Flagelação de São Vicente [têmpera, estuque e folha d’ouro em madeira]. Retirado de https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f6/Master_of_Castelsardo_-_Flagellation_of_Saint_Vincent_-_Google_Art_Project.jpg

Pacher, F. (1477). Santo António de Pádua e São Francisco de Assis [têmpera em madeira de pinho]. Retirado de https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/a4/Friedrich_Pacher_-_St_Anthony_of_Padua_and_St_Francis_of_Assisi_-_WGA16806.jpg

São Vicente Mártir. Retirado de http://www.diocesedeblumenau.org.br/site/wp-content/uploads/2017/01/S_Vicente_diác_e_mártir.jpg

FONTES EM-LINHA

Butler, A. (1866). Saint Vincent, Martyr. Lives of the Fathers, Martyrs, and Principal Saints. In CatholicSaints.Info. Retirado a 14 Janeiro, 2018 de http://catholicsaints.info/butlers-lives-of-the-saints-saint-vincent-martyr/

Dal-Gal, N. (1907). St. Anthony of Padua. In The Catholic Encyclopedia. Nova Iorque: Robert Appleton Company. Retirado a 16 Janeiro, 2018 de New Advent: http://www.newadvent.org/cathen/01556a.htm

Mershman, F. (1912). St. Vincent. In The Catholic Encyclopedia. Nova Iorque: Robert Appleton Company. Retirado a 14 Janeiro, 2018 de New Advent: http://www.newadvent.org/cathen/15434b.htm

 

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