Roupa Masculina I – Bragas | Male Clothing I – Braies

As peças mais íntimas de qualquer conjunto de indumentária masculina quatrocentista, em conjunto com a camisa, são as bragas – ou, como se passaram também a designar nesta época, fraldilhas (cf. Oliveira Marques, 2010, p. 59). É por elas que começamos a nossa visão geral da roupa quatrocentista.

Origem & Evolução

A origem do termo braga está ligada aos Gauleses, que usavam, à época do Império Romano, calças a que os Romanos deram o nome de braccae. Posteriormente adoptadas pelo exército romano, na forma de calções de lã, as braccae espalharam-se por todas as regiões do Império (acabando, por vias travessas, por dar origem ao nome da cidade de Braga [1]). Foi pela herança romana que chegaram à Idade Média.

Braies 3
Esquerda: detalhe do “Sarcophagus Ludovisi” (c. 250-260 d.C.), mostrando Godos usando braccae; Centro: Camponês com bragas longas, pormenor da Bíblia Morgan (c. 1250); Direita: pormenor do Saltério de Luttrell (c. 1320-1340).
Martírio_de_São_Vicente_atado_à_coluna_(c._1470)_-_Nuno_Gonçalves
Pormenor do quadro Martírio de São Vicente Atado à Coluna, de Nuno Gonçalves (c. 1470).

Até ao século XV, as bragas assumiam a forma de calções longos, feitos de linho bragal (um linho tosco ) [2]. No final do século XIV, porém, começa o encurtar da peça: do joelho passam para meio do topo da perna, no início do século XV, assemelhando-se aos nossos boxer shorts; a meio do século atingem as dimensões dos modernos boxers briefs curtos; no período que nos interessa, 1470-1480, tomam uma forma muito curta, próxima da da comum cueca, com mais ou menos tecido e cobertura de calças.

Um excelente exemplar deste tipo de braga/fraldilha é o que se pode observar na imagem à direita. Estas bragas, provavelmente feitas a partir de uma peça única de linho cosida dos lados, apresentam uma configuração mais ou menos rectangular, com uma “bolsa” na dianteira, sobre a qual se apertam. Com ou sem bolsa dianteira – como as minhas bragas, que apresento abaixo – este parece ter sido o modelo mais comum de roupa interior, embora outros modelos fossem também possíveis – modelos mais próximo das nossas cuecas de banho, por exemplo, assim como outras variações, encontram-se em iconografia coeva um pouco por toda a Europa [2]. Não parece, segundo creio, ter havido qualquer espécie de distinção social nas várias variações das bragas/fraldilhas, mas tão somente questões de conforto pessoal.

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Pormenor de iluminura “Jovens aprendendo a nadar” (Jeunes gens apprenant à nager dans les fossés d’une ville), das Antiguidades dos Judeus (c. 1480).

As Bragas em Recriação

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As minhas bragas, feitas pelo Luciano Verzola, da empresa Medieval Design. O desenho é, como se pode observar, extremamente simples (e, diga-se de passagem, pouco atraente ao olhar moderno).

Hoje em dia há dificuldade em encontrar linho menos fino, portanto dificilmente haverá diferenças entre as bragas de recriadores da aristocracia e as bragas de recriadores do povo. Não sendo o tecido uma consideração de maior, muito cuidado se deve no entanto ter com a escolha de bragas próprias para o período de 1470-1480. Embora geralmente (mas não sempre!) estejam escondidas, fazem toda a diferença na forma como as calças são apertadas e agem sobre o corpo. Acima de tudo, tem de ser evitado o modelo de bragas antiquado, em jeito de boxers. Havendo tantas nuances, as bragas/fraldilhas oferecem várias possibilidade de escolha, inteiramente ao critério de quem as usa.

 

[1] Veja-se https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/o-significado-de-braga/13275.

[2] Oliveira Marques, A. (2010), p. 52. A este respeito consulte-se o sempre recomendável guia de vestuário da Companhia de São Jorge. Para mais informações sobre o linho bragal, consulte-se Sequeira, J. (2014). O Pano da Terra: Produção têxtil em Portugal nos finais da Idade Média. Porto: U. Porto Edições.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS

Oliveira Marques, A. (1971). Daily Life in Portugal in the Late Middle Ages. Madison: University of Wisconsin Press.

Oliveira Marques, A. (2010). A Sociedade Medieval Portuguesa – Aspectos do Quotidiano. Lisboa: Esfera dos Livros.

Sequeira, J. (2014). O Pano da Terra: Produção têxtil em Portugal nos finais da Idade Média. Porto: U. Porto Edições.

Thursfield, S. (2001). Medieval Tailor’s Assistant: Making Common Garments 1200 -1500. Bedford: Ruth Bean Publishers.

Willett, C., e Cunnington, P. (1992). The History of Underclothes. New York: Dover Publications.

FONTES VISUAIS

(ca. 250-260 d.C.) Sarcófago Ludovisi [relevo em mármore]. Retirado de https://i0.wp.com/www.tableintime.com/wp-content/uploads/2011/09/RomansDefeatBarbariansPalAltempsLowB-web.jpg

Antiguidades dos Judeus (ca. 1480). Paris, Bibliothèque nationale de France, 14.

Bíblia Maciejowski (ca. 1250). Nova Iorque, Pierpont Morgan Library, M.638.

Saltério de Luttrell (ca. 1320-1340). Londres, British Library, Ad. MS 42130.

Gonçalves, N. (ca. 1470). Martírio de São Vicente Atado à Coluna [óleo em madeira]. Retirado de  https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b5/Martírio_de_São_Vicente_atado_à_coluna_%28c._1470%29_-_Nuno_Gonçalves.png

FONTES EM-LINHA

Pedersen, S. (2016, 16 Novembro). Medieval Men’s Underwear [publicação em blogue]. Retirado de http://www.mackat.dk/postej/2016/11/26/medieval-mens-underwear/

Sherts, Trewes, & Hose .i. : A Survey of Medieval Underwear. Retirado de http://www.greydragon.org/library/underwear1.html

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The most intimate pieces of any 15th century men’s ensemble, along with the shirt, are the braies (“bragas”) – or, as they were also known over here at the time, “fraldilhas” (see Oliveira Marques, 2010, 59).

Origins & Evolution

The word braie has it origin with the Gauls, who, at the time of the Roman Empire, wore trousers, to which the Romans gave the name braccae. Subsequently adopted by the Roman army, in the form of woolen breeches, braccae spread throughout the Empire (and ended up giving the city of Bracara Augusta (modern-day Braga, in northern Portugal) its name [1]). It was through the Romans and their legacy that they reached the Middle Ages.

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Left: detail of “Sarcophagus Ludovisi” (ca. 250-260 AD), showing Goths wearing braccae; Centre: Peasant with long braies, a detail of the Maciejowski Bible (ca. 1250); Right: detail of the Luttrell Psalter (ca. 1320-1340).
Martírio_de_São_Vicente_atado_à_coluna_(c._1470)_-_Nuno_Gonçalves
Detail of the painting Martyrdom of StVincent, by Nuno Gonçalves (ca. 1470).

Up to the fifteenth century, braies, always made of linho bragal (a type of rough, usually homespun linen ) [2], were more akin to bermuda shorts. At the end of the fourteenth century, however, the braies become shorter: they reach from the knee to the middle of the top of the leg in the early 15th century, resembling our present-day boxer shorts; they reach the size of modern boxer briefs in the middle of the century; and, finally, in the period that interests us (1470-1480), they become very short indeed, close to modern pants, covered in full by the hose.

An excellent example of this type of braies is depicted in the image on the right. These braies, probably made from a single piece of linen sewn on the sides, have a more or less rectangular configuration, with a pouch in the front, on top of which they are fastened tight. With or without front pouch – like my own braies, shown below – this seems to have been the most common model of male underwear, although other models were also possible – models similar to our modern-day speedos, for example, as well as other variations, found in plenty of European iconography [2]. It seems to me that there was no social distinction regarding the kind of braies one used, but merely personal choice and comfort.

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“Young people learning to swim” (Jeunes gens apprenant à nager dans les fossés d’une ville), from Antiquities of the Jews (Antiquités judaïques) (ca. 1480).

Braies in Reenactment

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My braies, made by Luciano Verzola from Medieval Design. The design is, as you can see, extremely simple (and rather unattractive to the modern eye, but that’s by the by).

Nowadays it is difficult to find rough linen, so there will be hardly any difference between reenactment underwear for the upper and the lower classes. Since fabric is not an issue, then, great care must be paid to one’s choice of braies for the period of 1470-1480. Although usually (but not always!) hidden, they make all the difference in the way hose are fastened and rest on the body. Above all, avoid the old-fashioned, boxer short-like braies like the plague. With so many subtle differences between so many different and appropriate models, late 15th century braies allow for a lot of choice, entirely at the discretion of their wearer.

 

[1] See https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perjetos/o-significado-de-braga/13275.

[2] Oliveira Marques, A. (2010), p. 52. See, in this regard, the inestimable Saynt George’s Companye clothing guide. For more information on linen in Portugal, especially linho bragal, see Sequeira, J. (2014). O Pano da Terra: Produção têxtil em Portugal nos finais da Idade Média. Porto: U. Porto Edições.

BIBLIOGRAPHICAL SOURCES

Oliveira Marques, A. (1971). Daily Life in Portugal in the Late Middle Ages. Madison: University of Wisconsin Press.

Oliveira Marques, A. (2010). A Sociedade Medieval Portuguesa – Aspectos do Quotidiano. Lisbon: Esfera dos Livros.

Sequeira, J. (2014). O Pano da Terra: Produção têxtil em Portugal nos finais da Idade Média. Porto: U. Porto Edições.

Thursfield, S. (2001). Medieval Tailor’s Assistant: Making Common Garments 1200 -1500. Bedford: Ruth Bean Publishers.

Willett, C., & Cunnington, P. (1992). The History of Underclothes. New York: Dover Publications.

VISUAL SOURCES

(ca. 250-260 d.C.) Ludovisi Sarcophagus [relief in marble]. Retrieved from https://i0.wp.com/www.tableintime.com/wp-content/uploads/2011/09/RomansDefeatBarbariansPalAltempsLowB-web.jpg

Antiquities of the Jews (ca. 1480). Paris, Bibliothèque nationale de France, 14.

Gonçalves, N. (ca. 1470). Martyrdom of StVincent [oil on wood]. Retrieved from https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b5/Martírio_de_São_Vicente_atado_à_coluna_%28c._1470%29_-_Nuno_Gonçalves.png

Luttrell Psalter (ca. 1320-1340). London, British Library, Ad. MS 42130.

Maciejowski Bible (ca. 1250). New York, Pierpont Morgan Library, M.638.

ONLINE SOURCES

Pedersen, S. (2016, November 16). Medieval Men’s Underwear [blog post]. Retrieved from http://www.mackat.dk/postej/2016/11/26/medieval-mens-underwear/

Sherts, Trewes, & Hose .i. : A Survey of Medieval Underwear. Retrieved from http://www.greydragon.org/library/underwear1.html

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