Um Conjunto Básico (Masculino) – Parte I | A Basic Kit (For Men) – Part I

Uma das maiores dificuldades em começar em recriação histórica, particularmente em Portugal, é saber exactamente por onde começar, ou, o que adquirir, e em que ordem. Há vários conselhos e guias que podemos apanhar em-linha – o guia da Companhia de São Jorge é sem dúvida o mais afamado, e deverá ser um companheiro precioso ao longo de toda a actividade de recriação – mas, até ao momento, nenhum se debruçou ainda sobre a questão dos apetrechos necessários ao comum cidadão de Portugal em 1470-1480 [1]. Esta é a minha tentativa de apresentar esse guia, muito por alto e em duas partes: Roupa (os elementos básicos do vestuário) e Acessórios & Equipamento (apetrechos complementares ao vestuário e à actividade de recriação). Cada peça virá a ser detalhada ao pormenor em publicações futuras. As peças são listadas mais ou menos segundo a ordem pela qual devem ser adquiridas.

ROUPA

Bragas – A peça mais íntima, o equivalente às modernas cuecas (e não aos modernos boxers – esse estilo de bragas pertence a décadas anteriores). Sempre feitas em linho natural.

Camisa – O segundo componente das “roupas interiores”. Sempre em linho natural, mais ou menos larga em relação ao corpo, com abertura simples para a cabeça. Camisas com folhos são totalmente erradas, assim como camisas com cordões.

Atilhos – Um conjunto de atilhos feitos de cordão de lã (ou, raramente, tiras de couro) com pontas em latão ou peltre.

Gibão – O gibão português deve apresentar um colarinho alto ou razoavelmente alto. É fechado por atilhos (evitar os botões, típicos de gibões italianos), e pode apresentar-se totalmente fechado ou entreaberto, deixando ver a camisa. Justo ao corpo, sem folgas, e devidamente cintado. Mangas simples, sem chumaços ou pregas. Em tecido de lã – burel e gustão são também possibilidades para estratos sociais inferiores -, geralmente com forro em linho.

Calças – Calças unas, com braguilha, sempre feitas de lã. Atenção ao posicionamento da braguilha. As calças devem ficar justas, sem pregas ou vincos (exceptuando alguns possíveis vincos na parte de trás do joelho).

Sapatos – Sapatos mais rasos, ou borzeguins, em couro preto, castanho, ou até vermelho. Sapatos com fivelas são muito menos comuns do que sapatos com atacadores de couro.

Cinto – Um cinto simples e delgado, de couro, com fivela apropriada. Evitar dourados – as leis sumptuárias proibiam-nos à época para todas as classes abaixo da aristocracia, embora a lei fosse largas vezes ignorada.

Bolsa – Uma pequena bolsa a pender do cinto, afivelada ou não, geralmente em forma de rim (embora se usassem também outras formas). Quase sempre de couro, mas são também correctas bolsas em tecido.

Chapéu – O chapéu da moda da época é a “craminhola”, um barrete alto. Outros chapéus incluem outros modelos de barretes, sombreiros (bycockets), gorros, “capitanescas” e chapéus de palha. Chapeirões seriam usados maioritariamente por mercadores abastados e nobreza.

Casaco ou Tabardo ou Jórnea – A última das camadas de roupa necessárias ao homem de Quatrocentos permite várias opções. O casaco, sempre de lã, pode ser apertado com botões, colchetes ou atilhos, e ser simples ou ter pregas. O tabardo, tal como a jórnea, tem de ser simples, de lã, com ou sem forro (geralmente com), e sem debruns de pele (proibídos pelas leis sumptuárias).

EQUIPAMENTO

Colher – Normalmente de peltre (mas também pode ser de ferro, corno, ou madeira para estratos inferiores da sociedade). Indispensável, sempre presente na bolsa.

Faca – Uma faca simples, com cabo em madeira, osso, ou placa de corno. Tem de trazer bainha. Pode pender do cinto ou ser trazida dentro da bolsa.

Tigela e/ou Prato – De madeira (carvalho, bétula, oliveira), em estilo apropriado à época. Toda a gente trazia os seus talheres, à época; sendo a louça fornecida pelo dono da casa/estabelecimento. Em eventos de recriação, é indispensável que cada pessoa traga também onde comer, e não apenas com que comer

Esta é a lista mais básica possível para um recriador desta época. Mas, como é claro, nem mesmo os mais pobres se ficavam pelo básico – e, em eventos de recriação, pode ser necessário adicionar alguns elementos a esta lista…

[1] Estou a deixar de lado, por ora, elementos da nobreza, do clero, e da classe mercantil abastada, com as suas modas e usos específicos.

Continua na Parte 2, aqui. 

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One of the greatest difficulties in starting out in historical reenactement, particularly in Portugal, is knowning exactly where to start, or, what to acquire, and in what order. There’s plenty of online advice and guides –  the most famous of which undoubtedly is the Companye of Saynt George’s clothing guide,  an inestimable companion through one’s reenactment activities the – but, so far, none have broached the topic of the required equipment necessary to a portrayal of the common man in Portugal in 1470-1480 [1]. This is my brief and general attempt at presenting such a guide, divided in two parts: Clothing (the basic elements of clothing) and Accessories & Equipment (additions to a basic wardrobe and to reenactment activities as a whole). Each piece will be explained in detail in future publications. The items are listed more or less in the order in which they should be acquired.

CLOTHING

Braies – The most intimate piece, the equivalent of modern pants ( and not boxer-style pieces – that style of braies was no longer worn in 1470). Always in undyed linen.

Shirt – The second piece of what in the 15th century constitutes “underwear”. Always in white or off-white linen, a bit baggy in relation to the body, with a simple opening for the head. Pleated shirts are totally wrong, as are shirts with laces/cords at the wrists and/or neck.

Points – A set of points made of woolen lace (or, more rarely, leather straps) with either brass or pewter chapes/aiglettes (tips).

Doublet – The Portuguese doublet should have a tall or fairly tall collar. The doublet is closed by points (avoid buttons, common to Italian doublets), and can be tied tight or loose, showing a bit of shirt. It must be cut in a tight fit, as close to the body as possible. Simple sleeves, no puffed shoulders or pleats. In wool – burel and fustian are also admissible for the lower classes – usualy with a linen lining.

Hose – Always made of wool. Great attention must be paid in placing the codpiece. The hose should be tight, without creases or wrinkles (except, perhaps, at the back of the knee).

Shoes – Simple shoes or very low boots, in tan, brown or even red leather. Shoes with buckles are much less common than shoes with leather laces.

Belt – A simple, slim leather belt with appropriate buckle. Golden fittings are to be avoided – sumptuary laws at the time forbade the use of gold to everyone who was not a noble, although the law was often ignored.

Purse – A small purse hanging from the belt, buckled or not, usually kidney-shaped (although other shapes were also used). Almost always made of leather, but fabric purses are also correct.

Hat – The hat du jour at the time was the “craminhola”, a tall acorn or bag hat. Other hats include caps, bycockets, “capitanescas”. Chaperons were mostly worn by affluent merchants and the nobility.

“Livery” Jacket/Vest or Tabard or Giornea – The last of the garments to complete a 15th century male ensemble allows for several different options. The “livery” jacket/vest, always in wool, can be fastened with buttons, hooks-and-eyes, or points, and be pleated or not. The tabard, like the giornea, has to be simple, made of wool, with or without lining (usually with), and without any fur trimmings (forbidden as they were by sumptuary law).

ACCESSORIES & EQUIPMENT

Spoon – Usually pewter (but they can also be made of iron, horn, or even wood for lower social strata). Indispensable, always present in the purse.

Knife – A simple knife with a handle made of wood, bone, or horn, and with its own sheath. It can hang from the belt or be carried in the purse.

Bowl and/or Plate – Of wood (oak, birch, olive), in an historically appropriate style. Everyone brought their own cutlery with them; tablewares were provided by the owner of the house/establishment. In reenactment events, it is essential that each person also brings something to eat on, and not just with

This is the most basic list possible for a 15th century reenactor. Of course, not even the poorest of the poor stick to the basics – and, in reenactment events, it may be necessary to add some elements to this list …

[1] I am excluding, for the time being, the nobility, the clergy, and the wealthy merchant classes, with their particular fashions, tastes, and customs.

Continues in Part 2, here.

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