Armamento Quatrocentista Português I – A Espada Portuguesa

São Paulo Nuno Gonçaves
São Paulo, por Nuno Gonçalves (ca. 1470).

Due to this article’s length, I thought it wise to publish the English and Portuguese versions separately. For the English version, please click here.

Eis um retrato de S. Paulo, completado em cerca de 1470, da oficina de Nuno Gonçalves. A espada que o santo exibe pode ser tomada como o arquétipo da espada portuguesa da segunda metade de Quatrocentos: a lâmina direita, de secção em diamante; “o pomo discoidal e as guardas curvando-se, em voluta, sobre a lâmina (…) as guardas subsidiárias, à maneira de quebra-lâminas, tocam a lâmina da espada”, formando a chamada “guarda portuguesa”[1].

São espadas como estas que vamos encontrar também nas mãos de várias das figuras dos ditos Painéis de São Vicente, da autoria do mesmo Nuno Gonçalves, e empunhadas por vários guerreiros -incluindo o próprio D. Afonso V [2] – nas tapeçarias de Pastrana. Podemos afirmar, sem grande risco de erro, estarmos perante o modelo de espada preferido, ou costumário, das forças portuguesas do período. Aquilo que não podemos fazer, como alguns o fizeram, é afirmar este modelo como pertença ou invenção exclusiva dos Portugueses de Quatrocentos. Mas comecemos pelo princípio.

Uma Origem Obscura

É difícil precisar quando, exactamente, surgiu este modelo de espada entre nós. Ao contrário do que Bashford Dean nos procurou fazer crer, a evolução do armamento não se faz se maneira linear, com divisões diacronicamente distintas e estanques. As características patentes em armas e armaduras são influenciadas por necessidade adaptativa, mas também por modas e preferências pessoais.

Consideremos os elementos individuais acima descritos. Um dos mais peculiares será o das “guardas subsidiárias”, ou seja, anéis para os dedos. Embora a colocação de um dedo sobre a guarda tenha uma longa presença na história das espadas europeias, apenas no final do século XIV parece ter surgido a necessidade de dotar estas armas de um anel de protecção, próprio para este tipo de manuseamento.

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Veja-se por exemplo a seguinte iluminura castelhana, datada de entre 1377 a 1400 [3]. O anel é distintamente visível (bem como uma lâmina peculiar, mas deixarei isso para outra altura), tão visível quanto na famosa espada do Arsenal de Alexandria (também conhecida como o item IX-950 do inventário da Royal Armouries em Leeds, no Reino Unido; para aqueles de vós que necessitam de uma injecção de buro-nomenclaturice nas vossas vidas), feita por volta da mesma altura.

E, porque dois são sempre melhor do que que um, não tardou a que alguém decidisse dotar a sua espada de anéis duplos, como a tal atesta o pormenor de iluminura (à direita) do Missal de Paris da Bibliothèque Mazarine [4], coevo com a outra iluminura atrás apresentada – mas ainda com uma guarda recta, tão típica do século XIV.

O pomo não parece apresentar grandes diferenças de pomos discoidais de épocas anteriores. Nesse aspecto, aliás, o estilo de pomo empregado na espada de guarda portuguesa parece ser algo conservador de tão uniforme, se é que se pode afirmar tal. Quanto ao estilo das guardas, a voluta, embora não haja registo de volutas per se em épocas anteriores, existem vários tipos de guarda virados para a lâmina (tipo 9 da tipologia de guardas de Edward Oakshott, por exemplo [5]). A razão para o seu engrossamento, por terras lusas, permanecerá um mistério.

A Explosão da Guarda Portuguesa

Durante cerca de 60 anos [6], não há registo da disseminação, entre nós, de qualquer modelo de espada que se possa classificar como peculiarmente nacional . A espada presente no túmulo (construído em cerca de 1465) de D. Duarte de Menezes, por exemplo, é de uma tipologia perfeitamente normal em comparação com outras de outros cantos da Europa – lâmina pouco afilada, pomo discoidal, guardas perfeitamente rectas. A partir da década de 60/70 [7], e principalmente com as obras de Nuno Gonçalves, pintor da corte de Afonso V, tudo muda.

É nas décadas de 60/70 que Nuno Gonçalves pinta ou completa os Painéis de S. Vicente. É na década de 70 que Nuno Gonçalves cria o grupo de retratos de santos dos quais o retrato de S. Paulo faz parte. E é também na década de 70 que Nuno Gonçalves (alegadamente) esboça os cartões por detrás das Tapeçarias de Pastrana. Em todas estas obras, a espada de guardas portuguesas assume lugar de destaque.

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Observam-se neste excerto d’A Tomada de Arzila duas destas espadas, cópias exactas uma da outra, iguais também à espada de D. Afonso V na mesma tapeçaria. Os quartões, pouco espessos, apresentam no entanto a mesma distribuição  de volumes que os da espada de S. Paulo. Note-se, para além das características atrás referidas, a existência de um “anel” secundário sobre o ricasso.

As espadas presentas nas Tapeçarias apresentam alguma uniformidade de estilo, talvez fruto da sua repetição em tantos momentos da cena representada, ou da relativa pequenez no meio de tantos outros pormenores. Já no caso dos Painéis, é-nos possível observar divergências estilísticas pormenorizadas em vários modelos. Vejamos alguns.

Paineis 1

No excerto mais à esquerda, do Painel do Infante, temos duas espadas. A da figura ajoelhada apresenta terminais de guarda achatados, com as guardas secundárias ocultadas pelo galhardete que pende do pomo. A espada da figura mais jovem, em pé, tem guardas em voluta ligeira. No Painel do Arcebispo, ao centro, podemos ver uma espada que é cópia quase exacta da de São Paulo. O mesmo acontece com a figura mais à direita do Painel dos Cavaleiros, embora o pomo da sua espada apresente uma tipologia diferente (em forma de “flor” desabrochada, em vez de simples círculo). Já a espada da figura ajoelhada volta a apresentar o típico pomo circular mas, mais uma vez, as guardas achatadas e recortadas.

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Resta-nos apenas um (que eu saiba) um exemplar deste modelo de espada. Refiro-me à espada dita de Pedro Álvares Cabral, encontrada no seu túmulo (e agora parte da colecção privada de Rainer Daehnhardt) [8]. A espada, em muito mau estado de conservação (como se pode observar, à direita), apresenta semelhanças notórias com o modelo mais à direita na imagem dos Painéis – com a excepção do pomo, que assume uma configuração não-circular e mais ornada.

É certo que quer as Tapeçarias, quer os Painéis, são representações glorificadas de realidades de guerra e do quotidiano. Nos Painéis observa-se armamento de figuras ilustres da corte, o melhor que o dinheiro pode comprar; e nas Tapeçarias, conquanto se mostrem outros modelos, há uma uniformização idealizada do equipamento das forças portuguesas. Apesar desta advertência, porém, e das variações atrás descritas, parece lícito afirmar estarmos perante um modelo de espada altamente disseminado entre as forças portuguesas da segunda metade de Quatrocentos.

Portuguesa, ou Ibérica?

Só que Portugal não existe, nem existia, numa bolha. As mesmas influências – fossem elas quais fossem – que deram origem à “guarda portuguesa”, foram (supõe-se) as mesmas que originaram armas extremamente semelhantes entre as forças castelhanas. De Castela nos chegam, aliás, exemplares belíssimos e supremamente bem conservados. São caso disto as espadas abaixo apresentadas. De cima para baixo: a espada dita de Fernando, o Católico, na Catedral de Granada [9]; outra espada de Fernando, na Real Armería de Madrid [10]; a chamada Gran Capitan, à conta do “Gran Capitan” Gonzalo Fernandez de Cordoba, também na Real Armería [11]; e a espada do  Instituto Valencia de Don Juan de Madrid [12] (as fotografias não pretendem representar a real escala das armas).

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Uma análise comparativa mais detalhada seria pertinente noutros contextos. Assim ficar-me-ei apenas por realçar as semelhanças entre estas quatro “espadas de pitones” (“cornos”, respeitantes às guardas salientes), como o modelo  é conhecido para lá da raia. Aliás, as espadas do Real Instituto de Valencia e a Gran Capitan apresentam não só grandes semelhanças com as espadas do Painel do Infante e do Painel dos Cavaleiros como, também, com as espadas de Pastrana, pelo menos no que toca às proporções horizontais da guarda.

Os elementos comuns estão todos eles patentes: pomo, guarda principal em voluta (algumas com terminais arredondados, outras com terminais achatados), guardas secundárias a terminar junto à lâmina. A semelhança entre umas e outras é inegável. Pode portanto dizer-se que, embora este modelo de espada assuma, no Portugal de Quatrocentos, contornos verdadeiramente nacionais, ele não deixa de ser partilhado com as restantes regiões da Península. A espada de guardas portuguesas torna-se, assim, a espada ibérica da segunda metade do século XV.

A “Colhona”, Uma Evolução Autóctone

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Estaria a pecar por conveniência se desse assim por encerrado este post. Porque há, efectivamente, uma versão exclusivamente portuguesa desta tipologia de espada – refiro-me à espada de quartões duplos conhecida como “espada preta de bordo”, “carangueja” ou, mais popularmente, “colhona”. Esta derivação portuguesa inclui  uma chapa/disco (o “colhão” ou testículo a que o nome se reporta) na ponta de cada terminal de guarda, chapa essa que se supõe poder ser afiada, dando ao utilizador da espada mais uma aresta viva para o usar em combate corpo-a-corpo. Deste modelo de espada, que se crê ter sido concebido entre 1460 e 1480, chegaram até nós alguns exemplares de inícios do século XVI (como este que aqui se reproduz, à esquerda [14]), bem como um sem número de cópias tardias (dada a disseminação da arma junto de populações africanas, que a adoptaram como símbolo de estatuto).

A “colhona” é, contudo, um desenvolvimento surgido fundamentalmente no contexto da expansão africana. A sua dúbia listagem em inventários como “espada preta de bordo” alude não só ao seu modo de utilização (supostamente pintadas de preto, as lâminas repeliam a ferrugem e não reflectiam a luz de noite [16]), como também ao seu contexto: armas de mão em navios ou praças-fortes nas costas de África. Urge, portanto, não confundir a “colhona” com a espada de guardas portuguesas.

[1] Parte da breve descrição deste mesmo retrato em  Barroca, M. J. e Monteiro, J. G. (Coords) (2000). Pera Guerrejar – Armamento Medieval no Espaço Português. Palmela: Câmara Municipal de Palmela.

[2] “[Afonso V’s] sword, held at the ready in his upraised right hand, is closely resembled by two surviving examples preserved in the Royal Armory, Madrid, particularly the sword attributed to Ferdinand II. Equally if not more relevant is its similarity to the hilts on the swords of the king and members of his court in the Panels of St Vincent, painted by Nuno Gonçalves. The salient features that characterize this type of Spanish or Italian sword hilt of the late fifteenth century are the flat disk pommel, symmetrical down curved quillons (the cross guard of the hilt), and the form of the arms of the hilt (the pair of symmetrical semicircular rings) below the quillons on either side of the blade. On the king’s sword there is another guard called a side ring, joined to the ends of the arms of the hilt, which on an actual sword would be perpendicular to the plane of the blade.” em La Rocca, D. J. (2011). Afonso ‘the African’ and his army: The Pastrana tapestries as a visual encyclopedia for the study of arms and armor” In Ibarra, M. A. de B. (2011). The Invention of Glory: Afonso V and the Pastrana Tapestries (p. 29).

[3] Madrid, Biblioteca Nacional de España, BNE MSS 10134 (2), fol. 15r, Grant Cronica de Espanya.

[4] Paris, Bibliothèque Mazarine, MS 411 B, fol. 180r, Missal de Paris. Disponível em http://manuscriptminiatures.com/4020/11413/

[5] Segundo as tabelas presentes em Oakeshott, E. (1991). Records of the Medieval Sword. ix. Disponível em http://sword-site.com/page/oakeshott-sword-typo#ixzz4zMVXrMUH

[6] De 1400 a 1460, um período de grande escassez de fontes primárias e visuais sobre armaria portuguesa.

[7] Dependendo da data em que se crê que os Painéis de S. Vicente tenham sido pintados. Apesar da datação dendrocronológica e da data de 1445 num dos painéis, há demasiados elementos intra e extra-contextuais nas obras que, na minha opinião, apontam para a data, ainda tida como oficiosa, de 70s.

[8] Fotografia disponível em http://www.arscives.com/bladesign/Images/1.PedroAlvaresCabralsmall.jpg

[9] Fotografia disponível em http://i1337.photobucket.com/albums/o673/AlaeSwords/0170g_zpscacfa4d0.jpg

[10] Fotografia disponível em http://www.vikingsword.com/vb/attachment.php?attachmentid=19141&stc=1

[11] Fotografia disponível em http://www.vikingsword.com/vb/attachment.php?attachmentid=19142&stc=1

[12] Fotografia disponível em http://www.myarmoury.com/images/features/pic_spotxix05.jpg

[13] Para uma exploração mais a fundo da “espada preta de bordo”, consulte-se Daehnhardt, R. (1997). Homens, Espadas e Tomates. Lisboa: Publicações Quipu.

[14] Fotografia disponível em http://www.arscives.com/bladesign/Images/4.NavigatorSwordsmall.jpg

[15] Como habitual com quase  todas as afirmações provenientes de uma obra de Rainer Daehnhardt, não há qualquer referência ou fonte para estas conclusões, nem para a menção exacta a “espadas pretas de bordo”. São reproduzidas aqui em puro benefício da dúvida, embora pessoalmente não acredite muito nelas.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS

Barroca, M. J. e Monteiro, J. G. (Coords.) (2000). Pera Guerrejar – Armamento Medieval no Espaço Português. Palmela: Câmara Municipal de Palmela.

Daehnhardt, R. (1997). Homens, Espadas e Tomates. Lisboa: Publicações Quipu.

Ibarra, M. A. de B. (2011). The Invention of Glory: Afonso V and the Pastrana Tapestries.

FONTES ICONOGRÁFICAS

(ca. 1480). Cerco de Arzila [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Siege_of_Asilah_(Cerco_de_Arcila)

(ca. 1480). Desembarque em Arzila [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Disembarkation_in_Asilah_(Desembarco_en_Arcila)

(ca. 1480). Entrada em Tânger [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/The_taking_of_Tangier_(Toma_de_T%C3%A1nger)

(ca. 1480). Tomada de Arzila [lã e seda]. Tapeçaria. Pastrana: Museu da Colegiada. Disponível em http://tapestries.flandesenhispania.org/index.php/Assault_on_Asilah_(Asalto_de_Arcila)

Gonçalves, N. (ca. 1470). Painéis de S. Vicente de Fora [óleo e têmpera em madeira]. Lisboa: Museu Nacional de Arte Antiga. Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Painéis_de_São_Vicente_de_Fora#/media/File:Lagos40_kopie.jpg

Gonçalves, N. (ca. 1470). São Paulo [óleo em madeira]. Lisboa: Museu Nacional de Arte Antiga. Disponível em https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/23/Nuno_goncalves_s.paulo.jpg

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6 thoughts on “Armamento Quatrocentista Português I – A Espada Portuguesa

  1. Na ermida de nossa Senhora do Monte, em Santarém, está o túmulo de Duarte Sodré, falecido a 25 de agosto de 1500, com uma representação integral de uma espada carangueja ao lado do escudo dos Sodré. Colquei a imagem na internet. Basta pesquisar em imagens por brasão de Sodré.

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  2. Também me choca a falta de referencias nos livros de Daehnhardt. Começo sinceramente a pensar que a dita espada colhona é inteiramente uma interpretação africana das espadas quatrocentistas levadas pelos portugueses e não uma criação dos mesmos. A ver, mesmo em Portugal algumas laminas eram compradas em “bulk” da Almanha pela sua qualidade e disponibilidade no mercado, a menos que se quisesse fazer algo de alta qualidade por encomenda. Para mais, se repararmos na diferença entre a lamina e a guarda, empunhadura etc.. algo não bate certo, a qualidade não é a mesma, tudo o resto parece estranhamente artesanal quando comparado com a lamina. Tipico do que se calhar se podia fazer na Africa subsariana da altura. Repare-se que o espigão não é sequer soldado ao pomo, é martelado e torcido de forma rudimentar.

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