Porque é que Recriação Custa Dinheiro, e Porque é que Tentar Poupar A Todo o Custo Dá Asneira | On Why Reenactment Costs Money, and Trying to do it On The Cheap Is a Crass Mistake

Um dos primeiros erros que fiz ao tentar começar em recriação foi pensar com a carteira em vez de pensar com a História que estava a tentar retratar. Foi assim que acabei com um par de manoplas e um arnês de braços incorrectos de que (à data) ainda me ando a tentar livrar.

Recriar custa dinheiro, ponto. É o primeiro e mais incontornável facto deste hobby. Os bons produtos – desde atilhos e agulhas, a lanternas de bronze, a vestuário e a mobília – são feitos por artesãos empenhados, com anos de pesquisa feita e uma grande dose de amor colocada em cada peça. Não são feitos em massa em fábricas indianas ou americanas, para inundarem os armazéns de (re)vendedores como BattleMerchant/Ulfberth, CelticWebMerchant, Castel-Bayart e quejandos. No nosso caso concreto, ninguém* faz recriação quatrocentista sem, no mínimo, 500€.

Este valor aumenta consideravelmente dependendo da classe social, ou do papel particular, que queremos representar. Um aristocrata, ou um rico mercador? As roupas terão de ser feitas à medida, com materiais condignos e com todo o pormenor possível – ou seja, não podem ser compradas “prontas a usar” (ou seja, sem qualquer tipo de corte/silhueta correcta) e feitas numa qualquer seda de poliéster vinda saiba-se lá de onde. Um homem-de-armas, um cavaleiro? A mesma regra de aplica: cada peça terá de ser feita por um ferreiro/armeiro especializado, com recurso a modelos e técnicas da época – ou seja, nada de manoplas one-size-fits-no-one, ou de brigandinas tubulares, ou de couraças de “apenas” 200 euros que terminam quase nas virilhas de quem as usa, em vez de pararem (ou afunilarem) na cintura. Paradoxalmente, se quisermos ser o mais historicamente correctos que nos é possível, até as classes mais baixas da sociedade podem custar demasiado dinheiro a fazer. Repare-se no pormenor das classes baixas em Portugal: o linho bragal (de menor qualidade), usado para roupa interior, e o burel (utilizado para gibões e capas apenas pelos estratos inferiores da sociedade quatrocentista) são hoje dois tecidos artesanais, feitos por pouquíssimas pessoas e, por conseguinte, extremamente caros – de tal modo que um gibão de burel, feito para representar um lavrador, ficará certamente mais caro do que um gibão de fazenda de lã para um pequeno-mercador ou artesão citadino!

Repito: recriar custa dinheiro. E desviar-mo-nos deste princípio-base não nos afecta só a nós, directamente (que vamos parecer mal), mas também à percepção que outros ganham da nossa História. Quem nada sabe vai absorvendo as asneiras – as armaduras que não servem, as roupas da época errada, ou de materiais errados, ou de corte que não serve. Estamos não só a impedir-mo-nos de cumprir o objectivo primeiro do hobby – recriar a  História -, como a deturpá-lo.

Há quem defenda um princípio de “comprar barato agora, ir melhorando depois”. Embora eu entenda este princípio – principalmente em Portugal -, não o defendo. Quem quer começar a fazer recriação tem de ter a noção de que terá de gastar uma boa maquia antes de poder finalmente dar corpo à sua persona.

Tendo dito isto, HÁ maneiras de poupar em recriação. Eis algumas:

1 – Faça-você-mesmo. A melhor maneira de poupar em qualquer hobby é tentar contornar a compra dos produtos terminados. A grande base do equipamento quatrocentista é a roupa. Existem vários modelos e guias em-linha que podem auxiliar quem nunca pegou numa agulha a fazer tudo, desde gibões, a calças, a pelotes, a capuzes… pode demorar, e os primeiros resultados poderão não ser os melhores, mas são bases sólidas com que se começar (e muito excelente artesão de recriação iniciou-se precisamente assim).

2 – Escolher uma persona/papel barato. Há papéis de base que podemos adoptar enquanto os nossos fundos não “esticam”. O mais básico dos conjuntos de equipamento para o mais comum dos habitantes do Portugal quatrocentista não dá cabo da carteira, principalmente se se fizerem as próprias roupas. Um conjunto básico oferece também a oportunidade de ir sendo incrementado com o passar do tempo.

No caso de papéis militares, um papel barato passará por escolher um peão ou um membro de milícia, parca mas sobriamente armado, em vez de nos lançarmos logo a direito para cavaleiros de arnês branco.

3 – Pedir material emprestado. No caso de termos amigos recriadores ou tentarmo-nos juntar a um grupo, há sempre quem tenha material excedente que possa emprestar. Pode não servir bem, é certo, ou não ser exactamente o que queríamos, mas permite-nos actuar em eventos. A única excepção a isto é o calçado – salvo um milagre, ninguém vai ter sapatos que sirvam a outra pessoa.

4 – Poupar. Eu sei, uma verdade de La Palisse. Mas mesmo para quem não tem quase dinheiro nenhum, façam-se as contas: 1€ poupado por dia dá 365€ ao final do ano, sem grande peso na carteira. 365€ é bem mais de meio-caminho andado para adquirir um conjunto básico de altíssima qualidade e que dure anos.

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One of the first mistakes I made when trying to get started in reenactment was thinking with my wallet instead of thinking with the History I was trying to portray. That’s how I ended up with a pair of shody Milanese gauntlets and a historically incorrect set of arm harnesses that I’m still trying to get rid of.

Reenactment costs money. Period. It is the first and most inescapable fact concerning this hobby. Good products and materials – from laces and needles, to bronze lanterns, clothing, and furniture – are made by committed craftsmen, with years of research and a great deal of love behind each and every item made. Good reenactment products are not mass-made in Indian or American factories, to flood warehouses of (re)sellers like BattleMerchant / Ulfberth, CelticWebMerchant, Castel-Bayart and their ilk. In our specific case, nobody * can do 15th century reenactment without at least 500€ (or more).

This value increases considerably depending on the social class, or the particular role, that we want to represent. An aristocrat, or a rich merchant? Clothes must be made to measure, with appropriate materials and in as much detail as possible – that is, they can not be bought off-the-peg (i.e. without any type of correct cut / silhouette) and made in some dreadful polyester silk from heavens know where. A man-of-arms, a knight? The same rule applies: each piece of armor will have to be made by a specialised smith/armourer, using models and techniques of the time – that is, no one-size-fits-no-one mittens, or tubular brigandines, or cuirasses of “only” 200 euros that end on the wearer’s groin, instead of ending (or tapering) at the natural waist. Paradoxically, if we want to be as historically correct as we can, even the lower classes of society can cost a bit of money to portray. Take the case of the lower classes in Portugal: bragal linen (of lower quality), used for underwear, and burel (a type of thick wool, employed in doublets used only by the lower strata of fifteenth century Portuguese society) are two rare, artisanal fabrics nowadays, made by only a handful of people, and are therefore extremely expensive – thus a burel doublet, made for a farmer, will almost certainly be more expensive than a worsted doublet for a small merchant, burgher, or craftsman!

I repeat: reenacting costs money. And deviation from this basic principle affects not only us directly (since we’ll look badly), but also the understanding others gain of our History. Those who know nothing retain the mistakes – the pieces of armour that do not fit, clothes with the wrong materials, the wrong cut, or from the wrong era. In trying to save and skimping on good quality stuff, we are not only preventing ourselves from fulfilling the hobby’s basic tenet – reenacting History -, we are also misrepresenting it.

There are those who advocate a principle of “buy cheap now, get better stuff later”. Although I can sympathize with it – especially in Portugal -, I cannot condoneit. Anyone who wants to reenact must have the notion that they will have to spend a good amount of money before they can finally bring their historical persona to life.

Having said that, there ARE ways to save on reenactment. Here are some:

1 – Do-it-yourself. The best way to save on any hobby is to try to get around purchasing finished products, saving on labour costs and just doing it yourself. The basis of the fifteenth century equipment is clothing. There are several patterns and online guides that can help anyone, even someone who has never picked up a needle in their life, in sewing everything, from doublets, to hose, to tabards, to hoods … it may take a while, and the initial results may not be the best, but they are bases with which to begin (and many a good craftsman started precisely this way).

2 – Choose a cheap persona / role. There are basic roles that we can adopt while we wait for our pockets to grow a little deeper. The most basic set of equipment for the most common of Portugal’s inhabitants of the 15th century won’t break anyone’s bank, especially if the clothes are self-made. A basic set also offers the opportunity to be complemented and improved on with time.

In the case of military roles, a cheap role to choose would be that of a peon, with few but carefully selected pieces of equipment, rather than going straight for knights in full white harness.

3 – Ask for loaned material. If we happen to have reenactor friends, or when trying to join a reenactment group,  there are always those who have surplus material that they can lend out. It may not fit well, of course, or it may not be exactly what we wanted, but it allows us to participate in events. The only exception to this is footwear – save for a miracle, no-one will have an extra pair of shoes that fit another person.

4 – Save up. I know, a complete truism. But even for someone who has almost no money to spare, let’s do the maths: 1€ saved per day gives you 365€ at the end of the year, and 1€ isn’t too much of a pinch. 365€ is much more than being halfway towards getting a basic yet very high quality set that will last you for years.

 

 

 

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